Por que The Handmaid’s Tale é a série de que precisamos em 2017

“O futuro é a porra de um pesadelo”, anuncia o pôster da série. Não é como se o presente fosse essa maravilha toda também. (Hulu/Reprodução)

Assistir aos três primeiros episódios de The Handmaid’s Tales definitivamente não foi um prazer.

Como as melhores ficções distópicas, ela revela um elemento assustador: traços muito parecidos com o mundo real.

A nova série do canal de streaming Hulu, que começou na última quarta-feira, 26 de abril, passa-se em um mundo cujo governo obriga as mulheres a assumir um desses quatro papeis: esposa dedicada, serva sexual para procriação, serva para afazeres domésticos ou, bem, um cadáver.

Tudo isso sob um Estado teocrático cujas autoridades sabem vários trechos da Bíblia de cor.

Em um tempo em que o presidente dos Estados Unidos é um homem que se gaba de “agarrar mulheres pela boceta” e deputados brasileiros depõem uma mulher da presidência porque, aparentemente, é o que Deus queria que eles fizessem, The Handmaid’s Tale ressoa menos como entretenimento (excepcionalmente bem produzido) e muito mais com um prenúncio sinistro.

O mundo dos homens e de certo Jesus Cristo

A série acompanha a rotina de Offred (Elizabeth Moss, a Peggy de Mad Men), que é um “aia” — a handmaid do título. Offred, na verdade, é menos um nome e mais um título bastante descritivo: ela é “of Fred”, ou seja, “do Fred”.

Isso significa que, várias vezes por mês, o tal Fred — um oficial do Estado, Comandante — recita trechos da Bíblia, abre a braguilha e penetra Offred mecanicamente, na esperança de que ele e sua esposa (que segura firme os pulsos de Offred durante o ato) sejam abençoados com uma graça do Senhor, Offred fique grávida e eles criem a criança.

No universo da série, esse não é um conto de horror que acontece em um só lar doentio, mas uma política de Estado.

Na série, sexo é apenas mais um castigo. (Hulu/Reprodução)

No “nosso” mundo — dos agrotóxicos, da sexualidade diversa e do Tinder — as mulheres foram sendo cada vez mais afetadas por uma crise de infertilidade, que deixou maternidades vazias e o futuro da humanidade, minguado.

Cristãos enxergaram nisso uma praga do Senhor para acabar com um mundo depravado, pegaram em armas e começaram a citar loucamente a história de Raquel e Jacó (o link é da Wikipédia mesmo, não queremos gerar tráfego pro site das Testemunhas de Jeová, não é?).

Deu certo. E logo desapareceram os celulares, os shorts curtos e qualquer liberdade. Entraram as lâmpadas a gás, as roupas do século passado e a opressão sem limites.

As mulheres férteis foram obrigadas a ser procriadoras, enquanto as mulheres inférteis que não fossem casadas com um oficial de Estado transformaram-se em criadas da casa.

Um destino diferente, mas tão cruel quando esse, foi reservado às lésbicas (e aos homens gays e outros “traidores do gênero”, como chama o Estado): o enforcamento ou o trabalho escravo em aterros do lixo tóxico que a humanidade produzira até então.

O Apocalipse é silencioso

(Hulu/Reprodução)

O mais assustador na série — além do óbvio, as cenas gráficas de violência — é como tudo isso acabou acontecendo.

A protagonista, Offred, relembra sua vida anterior ao pesadelo em que vive agora. Ela era casada com o homem que amava e tinha uma linda filha de 8 anos.

Sinais de loucura estavam por toda parte. Na porta da maternidade em que ela deu à luz, uma multidão de cristãos orava dia e noite pelos partos, uma mulher alucinada tentou roubar seu bebê… (Ok, isso é mais que um sinal).

Com a justificativa de que se prevenia de sérios ataques terroristas, o governo dos Estados Unidos decretou uma série de regras “temporárias”, até que o absurdo explodiu: militares tomaram as ruas, foi estabelecido que mulheres não poderiam ter empregos e suas economias seriam dos parentes homens mais próximos. No caso da protagonista, o marido. No caso da melhor amiga dela, lésbica, qualquer familiar.

Em um protesto contra essas medidas surreais (no Ocidente, porque não podemos nos esquecer de que em vários outros países essa é a lei desde sempre), o abismo aberto no mundo fica finalmente claro quando militares atiram nos manifestantes. Não as (já absurdas) balas de borracha, mas balas pra valer.

— Estremece pensar que essa cena foi exibida dois dias antes dos protestos da Greve Geral no Brasil, em que um manifestante foi agredido tão brutalmente por um capitão da Polícia Militar que foi parar na UTI

“Eu estava adormecida antes”, explica Offred, ao tentar entender como as coisas puderam chegar a esse ponto, “Foi assim que deixamos acontecer”.

Em outro momento, já no futuro devastador, a responsável por doutrinar as aias avisa às iniciantes que, em breve, elas se acostumarão à situação. “Tudo será ordinário”, ela afirma.

The Handmaid’s Tale é baseada em um romance homônimo da canadense Margaret Atwood. Em uma entrevista, ela conta que começou a escrever o livro, lançado em 85, em 1984 — data bastante sugestiva.

Não há ano mais apropriado para reimaginar a história criada por ela do que 2017. Não que uma história assim precise de datas especiais para ser contada— infelizmente, ela é atemporal.

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