Endireite os humanos


Naquela hora o desespero, a raiva, a angústia, o medo e o choro se aglomeravam nas portas de saída da minha cabeça. Se estapeavam pra sair. Agarravam uns aos outros pelos cabelos, unhavam-se, cuspiam, babavam… e eu ouvia aquela voz chorosa meio longe, demorei um pouco a perceber que era a minha. A reunião acabava, as pessoas já começavam a levantar. Os moços da comissão dos direitos humanos conversavam com um pessoal que estava mais no canto da porta, trocavam uns sorrisos até. Quando eu reconheci a mãe do Tutinha, com aquela irmã dela que ela anda sempre a tiracolo, é que eu fui atinar no que tava acontecendo. Quando eu percebi que o sorriso era pra ela, o sangue subiu.

Eu corri lá pra frente, no momento que deu a impressão de que a reunião ia acabar, os moços pareciam que iam embora. Eu não tava conseguindo acreditar que eles iam embora sem falar comigo. Eu tava achando que eles estavam deixando a gente pro final, quem sabe pra conversar quando não tivesse tanta gente na reunião, até repórter teve mais cedo. Tiraram umas fotos pro jornal e tudo. Tinha um rapaz que eu acho que era da televisão, tava com um daqueles coletes à prova de bala. A reunião seguiu, falaram muito, disseram tanta coisa que eu fiquei tonta. E quem tá com cabeça pra esse papo deles, gente? Eu acho que se não tivesse tomado o remédio eu tava maluca, eu não tava nem aqui. Não, não pensa no menino, que senão tu fica doida mulher, não pensa no menino, pensa nos outros que tu ainda tem que cuidar. Calma.

Mas vai acabar a reunião e eles não falaram comigo. Falaram com a mãe do Tutinha, mas não falaram comigo. Eles vão falar. O que eles tão pensando? Só a mãe do Tutinha vai poder conversar com eles? Só o filho dela que morreu? E o Dilsinho? Ai meu Deus, meu filhinho… ai meu Deus, me dá força meu Deus, me dá Força. Eles tão levantando…Como assim eles tão levantando? E eu? E o Dilsinho? É nessa hora que eu levanto, eu não sei nem como, eu não me lembro de chegar lá na frente. Eu só lembro daquela voz saindo por trás de uma nuvem, uma voz que eu vou percebendo que é parecida com a minha, meio devagar eu vou percebendo que é a minha voz mesmo, eu estou gritando, berrando, chorando, tudo ao mesmo tempo…

— Meu filho não é bom pra vocês? Meu filho é pior que o dela, moço? Porque, hein? Meu filho não é preto que chega? Não é pobre que chega? Não é bandido? Ela diz que o filho dela é estudante… Estudante era o meu Dilsinho moça! Esse filho dela era bandido, era metido com o tráfico!

Alguém segura a mãe do Tutinha que voa pra cima de mim, alguém me segura que só aí percebi que voava pra cima dela também. Nem assim eu paro de falar. Alguém fecha a porta, ainda bem porque pela cara dos moços dos direitos humanos era capaz deles irem embora e eu não ter mais nem com quem falar, com quem gritar, com quem chorar. A moça da prefeitura ainda faz uma cara de pena, mas o moço com aquela barbinha rala, com aquele jeito sem graça de quem não ensaiou pra isso, o desconforto na cara dele… é tão triste isso, eu me sinto enojada. Nem assim as palavras param de sair, nem enquanto o pessoal segura a mãe do Tutinha e aquela vagabunda da irmã dela que querem voar em cima de mim, xingando e cuspindo que nem duas cadelas. Nem assim eu me calo…

— Meu filho era estudante, meu filho morreu também moça! Ele tava voltando da escola, moça. Não é voltando de baile do tráfico nem de assalto que nem o filho dessa aí não. Minha casa é de gente direita, na minha casa não tem bandido não, moço…. Cadê polícia pra me ajudar nessa hora, cadê prefeitura? O filho dessa aí já apareceu no jornal, moça e o meu? Só falaram o nome. Porque? Porque eu não fiz que nem essa aí, que parou a estrada lá? Que queimou pneu? Que levou aqueles cachaceiros e maconheiros e bandidos amigos dela pra fazer arruaça porque mataram o bandido do filho dela? Bandido sim, moça! Bandido! Desde os onze anos! Quantas vezes na escola ele ameaçou as professoras! Dizia que ia dar tiro na cara delas! Aquele ali só ia na escola pra disfarçar, moço! Ai meu filho, meu filho não fazia nada, moço. Meu filho morreu. Meu filho ia começar a trabalhar, moço. Meu filho tinha arrumado emprego… Cadê meu filho agora? O dela tá no jornal, moço. Cadê o meu? O meu tá debaixo da terra, moço. Meu filho tá debaixo da terra. Meu filho não tem mais direito a ser humano, moço. O dela, que era bandido até depois de morto tem.

Depois disso eu não lembro mais de nada, eu não quis mais nada. Ninguém nem me falou o que aconteceu depois. Só sei que depois desse dia eu tive que mudar corrida de lá, pra não morrer a mando da mãe do Tutinha. Mas isso não é o importante. A dor que ficou é saber que se uma parte de mim morreu no dia que Dilsinho morreu, outra parte morreu nesse outro dia quando eu descobri que os tais dos direitos humanos do filho de uma valem mais do que os do filho de outra.


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