Desigualdade importa tanto quanto a pobreza
“Desigualdade não importa, o que importa é pobreza!”
Essa frase feita que tem se tornado recorrente no debate público, especialmente nos setores da chamada direita liberal. A princípio, a redação parece bastante óbvia, existem países desigualmente ricos e países igualmente pobres. Faria sentido dizer que que devemos nos preocupar com a pobreza e não com a desigualdade.
Ocorre que as coisas não são tão simples. A começar que, conforme demonstra um estudo do Banco Mundial [1], países mais ricos são em geral menos economicamente desiguais, enquanto países pobres e de renda média tendem a ser muito desiguais em média.
No entanto, embora a correlação exista, pode ser difícil inferir o nexo causal entre crescimento econômico e diminuição da desigualdade. Façamos então uma análise mais empírica.
Tomaremos para efeito de comparação com o Brasil, Alemanha, um país desenvolvido, e Portugal, um país da periferia do Euro.
Em termos de PIB per capita A Alemanha é cerca de duas vezes mais rica que Portugal que, por sua vez, é cerca de 2 vezes mais rica que o Brasil. Fosse a distribuição de renda dos 3 países igual, era de se esperar que a renda média dos 10% mais ricos e dos 10% mais pobres de cada um dos países também seguisse a mesma proporção.
No entanto, conforme se observa no gráfico 1, enquanto o pobre português tem 80% da renda anual do pobre alemão, o pobre brasileiro tem menos de 12% da renda anual do pobre português e menos de 10% da renda do pobre alemão.
A diferença brutal, porém, não se observa quando comparamos os 10% mais ricos de cada um dos países. Enquanto a elite portuguesa tem 62% da renda anual da elite alemã, a elite tupiniquim tem 64% da renda anual da elite alemã. O fato de a população mais rica do Brasil ter renda anual média maior que a de Portugal, país duas vezes mais rico que o Brasil, já deveria, de saída, soar alguns alarmes
Tal discrepância tem a ver com a desigualdade de renda, medida usualmente pelo índice Gini que indica maior igualdade de renda quando próximo de 0 e menor quando próximo de 1. Com índice Gini 0.27, a Alemanha é um dos países menos desiguais do mundo. A renda anual média dos 10% mais pobres da população alemã é de cerca de 7.843* dólares ao ano.
Já no Brasil a coisa é muito diferente. Nosso índice Gini é 0,5. Somos mais desiguais que China, Bolívia, Sudão do Sul e Malásia. A renda anual média dos 10% mais pobres da população brasileira é de cerca de 767* dólares, renda desconfortavelmente menor do que a da base da pirâmide de países como Nigéria (992* USD/ano), Líbano (811* USD/ano), Índia (1.193* USD/ano) e Líbia (1.235* USD/ano).
Já, no caso dos 10% mais ricos, o Brasil parece ser um país espetacular. Nossa elite tem renda anual média de 114.171* dólares. Renda maior do que a elite econômica de países como Itália (107.858* USD/ano) Chile (94.930* USD/ano), Portugal (111.343* USD/ano) e Estônia (100.069* USD/ano).
Suponhamos que o mote repetido a esmo seja verdadeiro independentemente do contexto. O que aconteceria então se, mantida a distribuição de renda atual, o Brasil tivesse a mesma renda anual média da Alemanha. A situação do pobre brasileiro melhoraria significativamente?
A resposta é não. Nesse caso a renda anual média da população mais pobre saltaria para medíocres 1.874* dólares ao ano. Isso ainda é mais baixo que se encontra na Jordânia (2.522* USD/ano) e Gabão (2.845* USD/ano). Na verdade, tudo mais constante, para que a renda anual média da população mais pobre do brasil se equiparasse à renda do pobre alemão, nossa renda anual média precisaria multiplicar-se por 10. Nesse caso, teríamos a elite econômica mais rica do planeta.
No entanto, podemos fazer um experimento diferente. O que aconteceria se, mantendo a renda anual, tivéssemos uma distribuição de renda semelhante à da Alemanha?
Conforme mostra o gráfico 2, a situação melhora enormemente. A renda dos 10% mais pobres do brasil saltaria para 3.760* dólares ao ano, ainda baixo, semelhante ao Iraque (3.805 USD/ano), mas isso significaria um aumento percentual de 400%. A menor desigualdade econômica também significaria ganhos consideráveis para todos os decis de renda, com exceção dos 10% mais ricos que veriam seus rendimentos anuais caindo pela metade (67.137* USD/ano)
Dado o exposto, acredito que fica claro que o mote “desigualdade não importa, o que importa é pobreza” é, no máximo, uma meia verdade quando analisamos a realidade brasileira. Repetir essa frase de maneira completamente acrítica, como se fosse algo muito razoável e autoevidente, não só faz com que liberais brasileiros pareçam elitistas e despreocupados com a população pobre, como também acaba por desqualificar o debate. A desigualdade de renda no brasil é brutal, usar frases prontas que dão a impressão de que isso não importa, é um desserviço.
No fim do dia, pobreza e desigualdade de renda estão intimamente relacionados. É virtualmente impossível atacar a pobreza no brasil sem que isso diminua a desigualdade. Afirmar o contrário é repetir a estratégia proposta por Delfin Neto: aumentar o bolo para depois dividir. Tal estratégia, usualmente conhecida como Trickle Down Economics é demonstravelmente furada, conforme consta em um trabalho publicado pelo FMI [2].


*valores do ano de 2015 corrigidos pelo poder de paridade de compra para valores presentes de 2018.
Dados disponíveis em https://wid.world/
Fontes:
1- Inequality and GDP per capita: The Role of Initial Income
Disponível em: http://pubdocs.worldbank.org/…/inequality-and-growth-3-sept…
2- Causes and Consequences of Income Inequality : A Global Perspective
Disponível em: https://www.imf.org/…/Causes-and-Consequences-of-Income-Ine…
~Reidy
Post originalmente publicados em:
https://www.facebook.com/liberaisantilibertarios/posts/2424952467826496
Em 19 de outubro de 2019.

