Uma palavra sobre o posicionamento político da página
O propósito inicial da página, como o próprio nome deixa claro, era criar um nicho de liberais na internet que se posicionassem contra o pensamento libertário, pois muitas vezes o pensamento libertário se mesclava com o pensamento liberal, fazendo com que as pessoas acreditassem que fossem a mesma coisa, de modo que as ideias boas do liberalismo se misturavam com as absurdidades do libertarianismo, manchando a imagem do liberalismo e afastando pessoas sensatas do diálogo com este movimento. A página surgiu com o propósito de deixar claro que há um cisma intransponível entre essas duas correntes de pensamento.
Ao longo dos nossos posts, os editores da página passaram a atacar não só os libertários, mas a esquerda e até mesmo certo setor do liberalismo. Com o tempo, a página foi aglutinando um grupo de pessoas que prezam mais do que qualquer coisa pelas evidências empíricas. Isso era algo até natural: em reação ao excesso de apriorismo do libertarianismo, nosso movimento procurou se fundamentar em um empirismo crítico.
É com base nesse empirismo crítico que defendemos a simplificação tributária, a desburocratização, a maior facilidade para se fazer negócios, um marco regulatório eficiente, a privatização de certos serviços, o fim de políticas industriais, a queda nas tarifas de importação, a integração econômica ao resto do mundo e assim por diante. Ocorre que esse empirismo crítico da página também nos faz nos posicionarmos contra certos sensos comuns de muitos liberais.
A principal bandeira que defendemos que entra em choque frontal com o lugar comum dos liberais da internet é a defesa da redução da desigualdade. O lugar comum dos liberais é dizer que desigualdade não importa, apenas pobreza importa. Acontece que estudo atrás de estudo mostra que altas taxas de desigualdade de renda, como aquelas observadas no Brasil, levam a problemas sociais sérios, como concentração de poder político, rent-seeking, maior criminalidade, maior dificuldade para crescer e assim por diante (para verificar os estudos que apontam esses problemas, basta conferir nossos posts defendendo a redução na desigualdade).
Ora, apenas adotamos a posição consensual entre os economistas ortodoxos. Praticamente nenhum economista de grande relevância acadêmica defende que altas taxas de desigualdade não devem ser enfrentadas (de cabeça, não consigo pensar em nenhum). Nenhum economista brasileiro de grande relevância acadêmica, seja ele liberal ou não, apoia a ideia que desigualdade de renda não importa. Dado esse quadro de consenso entre os especialistas e todas as evidências apontando que altos níveis de desigualdade levam a problemas sociais, é natural que nós, que prezamos pelas evidências, nos alinhemos ao consenso.
Se você quiser chamar o alinhamento ao consenso de lacroliberalismo, à vontade. Mas saiba que não ganhamos nada com os posts defendendo a redução na desigualdade, a não ser opositores, pois dado que o debate político na internet esta infectado pelo discurso simplista, qualquer ideia com nuances postada por nós logo é vilipendiada. Fazemos esses posts, portanto, não para jogar para a torcida, mas porque queremos que o debate político amadureça, que o liberalismo enquanto movimento popular se alinhe ao que há de melhor na academia. O que parece é que quem nos acusa de lacroliberalismo é que está buscando jogar para a torcida, querendo mitar dentro de sua bolha.
Geralmente políticas que reduzam a desigualdade também reduzem a pobreza e vice-versa, então na prática o debate sobre se o que importa é pobreza ou desigualdade é irrelevante. Mas é importante levantarmos a bandeira da redução da desigualdade, pois assim estamos construindo pontes com a esquerda e podemos superar discussões inócuas e trabalharmos para criar um Estado enxuto e que faça políticas sociais para as camadas mais desfavorecidas da sociedade.
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Por que carregamos no nosso nome a alcunha de liberal, sendo que alguns de nossos posicionamentos vão contra a cartilha liberal padrão da internet? Por dois motivos: (i) acreditamos seguir a tradição liberal de Friedman e Hayek, adaptando suas ideias para os tempos modernos e procurando seguir o que há de mais atualizado na pesquisa acadêmica atual; (ii) nós, que acreditamos que uma sociedade com um Estado relativamente pequeno, organizado e que focalize naquilo que mais importa gera prosperidade, não podemos deixar que a bandeira do liberalismo seja monopolizada pelos brucutus de pensamento simplista.

~ Tomas Heckman.
Post originalmente publicado em:
https://www.facebook.com/liberaisantilibertarios/posts/2428755430779533
Em 23 de outubro de 2019.

