A Contaminação Moral da Liberdade de Expressão

Igo Araujo Santos
Oct 5, 2017 · 18 min read

por Malhar Mali
traduzido por Igo Araujo dos Santos
Artigo original: The Moral Contamination of Free Speech

Vivemos numa era em que a liberdade de expressão é considerada, por muitos, como um conceito com que apenas “direitistas” se importam. “Você acha que liberdade de expressão é importante?”, sou questionado. Quando respondo, “Sim”, sobrancelhas se levantam, ombros se encolhem e, pela testa do meu interlocutor, vejo alguns cálculos aterrorizados em suas mentes: ele é um preconceituoso ou Dinesh D’Souza 2.0? Talvez ele não seja um direitista odioso, talvez ele só não saiba como a liberdade de expressão é usada para desempoderar minorias. E, então, fico pensando: como chegamos ao ponto em que liberdade de expressão é vista convencionalmente como algo que só conservadores, demagogos e “direitistas” — e nenhum liberal são ou mesmo um “esquerdista” — poderiam defender?

Para responder a essa pergunta, teorizarei algo que chamo de contaminação moral. Especificamente, como isso pertence a conceitos e ideias que uma comunidade ideológica guarda. Uma comunidade ideológica é apenas um grupo de pessoas, de duas a milhões, que têm, vagamente, os mesmos valores. Apoiadores de partidos políticos são um bom exemplo. Bem como defensores de candidatos particulares e ideologias como socialistas, reaganistas, marxistas, etc — você entendeu…

Não reclamo a autoria original desse conceito (de contaminação moral). Também estou certo de que alguém já ventilou essas ideias por aí, provavelmente em estudos e artigos, muito mais detalhadamente do que estou prestes a fazer. Mas, mesmo assim, acredito que servem para estruturar a compreensão de como a liberdade de expressão veio a ser vista como um conceito da direita.

Agora, deixe-me explicar: uma contaminação moral ocorre quando diferentes grupos, tribos ou competidores cooptam e glorificam um conceito ou ideia que era relativamente neutro antes da sua glorificação (como nota, essa glorificação não precisa acontecer por motivos maliciosos). É diferente de um tabu social, porque a ideia ou conceito, na história recente, teve uma posição neutra no discurso de comunidades competidoras.

Um exemplo desse fenômeno é a ideia de devido processo legal e assédio sexual nos campi universitários. Devido processo legal sempre foi um conceito relativamente neutro; algo que indivíduos de ambos os lados do espectro político concordam ser direitos garantidos das pessoas. Até o momento. Desde que Betsy Devos e a Administração Trump decidiram reduzir a abrangência do Título IX [“nenhuma pessoa nos Estados Unidos da América pode, devido ao seu sexo, ser excluída de participar, ter seus benefícios negados ou ser sujeita à discriminação em qualquer programa ou atividade educacional que receba assistência financeira Federal”] — aqui, considero que ambos são agentes contaminantes — devido processo legal sofreu uma contaminação moral aos olhos da esquerda. Várias opiniões polêmicas de celebridades aparentemente sensíveis, agora, afirmam absurdos com temas similares a “devido processo legal é assunto de conservadores” ou “se concentrar em devido processo legal só empodera apologistas do estupro.”

É assim que a contaminação moral acontece: agentes (Devos e a Administração Trump, no caso), geralmente aqueles desprezados por uma comunidade ideológica (a esquerda, nesse caso), apoiam a luta por uma causa ou ideia. A comunidade rival, vendo isso, ao invés de analisar se há qualquer verdade ou mérito nas ações da oposição, cria motivações vilanescas para seus concorrentes e para quaisquer causas ou conceitos que possam estar defendendo.

Neste ensaio, argumento que o conceito de liberdade de expressão está, agora, sujeito a contaminação similar por um processo análogo. Para avaliar esse fenômeno, observo como certos grupos valorizam e, assim, contaminam o conceito de liberdade de expressão para a população geral, porque a contaminação resultante é perigosa para grupos minoritários e para o liberalismo, e como a extrema-esquerda/esquerda acadêmica está contribuindo para o processo com suas próprias — e separadas — justificações ideológicas para rejeitar ideias relacionadas à liberdade de expressão. Finalmente, ofereço algumas soluções potenciais para essa contaminação crescente.


Liberdade de expressão é considerado um interesse da direita, majoritariamente, porque parece que a direita é mais vocal em sua defesa. Tucker Carlson, da FOX, é venerado como um defensor da liberdade de expressão. Sites como o Daily Caller, Campus Reform, Daily Wire e et cetera fazem questão de destacar cada erro e desvio que professores e universidades cometem. Claro, alguns ou a maioria dos casos que eles ilustram são legítimos, mas não é por isso que estou tocando no assunto. O faço para mostrar que, na esfera midiática, seria muito fácil para um espectador ver as palavras “LIBERDADE DE EXPRESSÃO” num banner da FOX News enquanto troca de canal e presumir que apenas comunidades ideologicamente à direita a valorizam. Seria muito fácil para um leitor notar que apenas seus conhecidos conservadores compartilham artigos e vídeos sobre liberdade de expressão. Seria muito fácil para um consumidor de produtos de mídia ver que só grupos direitistas organizam defesas à liberdade de expressão — de campi universitários a manifestações políticas. Por esses mecanismos, ocorre a contaminação da liberdade de expressão.

Aqui, acrescento um adendo aos leitores conservadores: não é minha intenção fazer dos direitistas um alvo, dizendo que estão retalhando o diálogo por sua defesa da liberdade de expressão. Apenas quero fazer a observação de que, para uma larga população de centristas, parece que o conceito é defendido apenas por aqueles à direita. E, o tribalismo sendo o que é, liberdade de expressão acaba sendo vista como problemática pela esquerda.

Além das fontes diárias, e até sensíveis, da direita, que promovem o conceito de liberdade de expressão, há aqueles mais ideologicamente extremos: O InfoWars, de Alex Jones, e outros a promovem; teóricos da conspiração e a extrema direita frequentemente salivam sobre ela como uma desculpa para dizer as coisas mais deploráveis; e sites como Gab, embora não tivesse a pretensão de atender à extrema-direita, acabou se tornando um santuário para ela. Eventos como o “The Triggering”, a postagem deliberada de conteúdos ofensivos para “proteger a liberdade de expressão”, também estão incluídos nesse fenômeno. Milo Yiannopoulos organizar uma “Semana da Liberdade de Expressão” na Universidade da Califórnia, Berkeley, onde várias personalidades de direita estavam previstas a comparecer, e escrever “É hora de reivindicar liberdade de nos expressar na UC Berkeley e lançar ondas de choque através do sistema educacional americano para todas as outras faculdades sob a tirania liberal [esquerdista]” também não ajuda.

Milo Yiannopoulos

Tudo isso, para olhos desavisados ou para aqueles que apenas interagem com a mídia, vai de encontro à imagem construída de que apenas “reacionários malucos”, conservadores, populistas e racistas se importam com isso. Comentaristas mais partidários de esquerda, frequentemente, usam o termo “liberdade de opressão” [N. do T.: no texto original o autor usa o termo “freeze peach”, uma corruptela de “free speech”] para recriminar aqueles que defendem a liberdade de expressão e são ainda mais polarizados em suas refutações. Uma pesquisa feita pela Pew Research, em 2015, descobriu que 40% dos millennials não se importavam com limitações a discursos ofensivos a minorias. Esses 40% são comparados a 27% da Geração X e 24% dos Baby Boomers e 1 em 10 da Geração Silenciosa. Vou omitir os resultados da muito mencionada pesquisa feita pela Brookings Institute sobre liberdade de expressão nas universidades, pois ela não se sustenta metodologicamente. Foi conduzido através de um questionário online com uma amostra de 1500 alunos. Especialistas em pesquisas a chamaram de “junk science”. Isso não significa, claro, que não há um problema de politização sobre liberdade ou censura nas universidades, mas não é bom usar dados falhos para estabelecer uma posição.

Mas não precisaria usar os dados de questionários duvidosos para destacar que o conceito de liberdade de expressão foi contaminado. Analisar a topografia da mídia nos últimos anos — onde conglomerados de direita lutam pela liberdade e conglomerados de esquerda inventam elaborados apelos contra ela — já daria conta do trabalho. Liberdade de expressão se tornou moralmente contaminada para a população geral e, agora, para os jovens. A visão é que apenas extremistas se importam com liberdade de expressão irrestrita. Até, talvez, para moderados de ambas tendências ideológicas parece que isso é coisa de racistas, preconceituosos e figuras e organizações dúbias.

O que é preocupante, pois, historicamente, a liberdade de expressão foi aliada dos oprimidos.


Em 1957, um homem chamado Franklin Edward Kameny foi demitido de seu trabalho como astrônomo no Serviço de Mapas do Exército dos Estados Unidos, devido à sua orientação sexual. Frank Kameny, que completou seu doutorado em astronomia em Harvard e serviu no exército, era gay. Após várias tentativas infrutíferas através do sistema judicial contra a sua rescisão e uma petição recusada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, Kameny decidiu dedicar sua vida ao ativismo dos direitos dos homossexuais. Em 1965, liderou o primeiro protesto pelos direitos dos homossexuais em frente à Casa Branca. Uma longa carreira de ativismo acabou, num esforço conjunto seus e de seus colegas, na remoção do homossexualismo da lista de transtornos mentais emitida pela Associação Americana de Psiquiatria em 1973. Ele também foi instrumental no lobby do governo federal para remover sua proibição de gays no serviço civil, o que aconteceu em 1975.

Quando a maioria das pessoas na situação de Kameny — demitidas por sua homossexualidade — teriam desistido, ele revidou. O que tornou isso possível? Certamente, uma personalidade corajosa e uma incansável persistência frente ao fracasso, mas, acima de tudo, um conjunto de leis e normas legais que lhe permitiram expressar seu descontentamento publicamente e combater atitudes prejudiciais aos homossexuais.

O escritor Jonathan Rauch cobre a história de Frank Kameny num posfácio de seu livro, “Queridos Inquisidores: Os Novos Ataques à Liberdade de Pensamento” [Kindly Inquisitors: The New Attacks on Free Thought], e estabelece o caso, um que com frequência é levantado por objetores conscienciosos, do que ele chama de “desafio humanitário” à liberdade de expressão. O sentimento segue assim:

“Esse sistema de debater quais ideias são melhores e tentar descobrir qual está correta (o que Rauch chama de ‘ciência liberal’) permite que pessoas se magoem com criticismo. É muitas vezes usado por várias pessoas para criticar e difamar injustamente. Por que deveríamos permitir que retóricas racistas, ou homofóbicas, ou transfóbicas, quando isso cria uma atmosfera hostil para minorias e as marginaliza? Leis contra discurso de ódio não poderiam torná-la mais segura para minorias?”

A refutação é oferecida por Rauch usando o exemplo de Frank Kameny. A razão pela qual Kameny foi sucedido em sua campanha foi precisamente por sua vontade de desafiar ortodoxias obsoletas, como a suposta degeneração de homossexuais. Rauch comenta que o ímpeto do ódio de certos indivíduos a outros grupos não é necessariamente um desejo intrínseco de lhes causar mal, mas, sim, ideias incorretas que, se pressionadas, não resistem ao escrutínio. Qual outra maneira de implementar essas mudanças se não se declarar contra elas? Usando a metodologia da “ciência liberal”, Rauch estabelece: minorias de todos os tipos podem desafiar, contestar e refutar opiniões. Mas só enquanto elas têm permissão para tanto.

Uma objeção aqui é que essa é uma perspectiva ingênua. Ao invés de termos minorias combatendo ideias solidificadas através da oratória e do ativismo, não seria melhor banir essas ideias com leis e códigos anti-discurso de ódio que ditam o que pode ser dito? Assim, a liberdade de expressão não poderá ser usada para disfarçar sentimentos “danosos” a minorias e mulheres. Esses tipos de argumentos são muitas vezes reforçados por teorias acadêmicas, um ponto ao qual vou me referir mais adiante.

Mas, aqui, Rauch também aponta o que os partidários de leis contra discurso de ódio não vêem: que essas leis, muitas vezes, são usadas pela maioria para designar o que é permitido. O que é mais fácil de imaginar, sobre o início do século XX e seu processo: leis contra discurso de ódio que protegem a comunidade homossexual? Ou leis contra discurso de ódio que proíbem homossexuais de se expressarem, pois foi pensado que eles espalhariam sua degeneração e “doença gay” para as crianças e para a população?

Adicionando a esse ponto, considere a opinião de Erwin Chemerinsky, um estudioso da primeira emenda, na UC Berkeley, que refuta a ideia de leis contra discurso de ódio, exemplificando com o resultado de códigos de discurso implementadas na Universidade de Michigan, no final dos anos 80:

“Não havia um único caso de um aluno branco sendo punido por discurso racista, mesmo que isso tenha sido o que levou à elaboração do código de discurso de Michigan, em primeiro lugar. Isso é parte de um padrão histórico maior: como vimos em Michigan, quando leis e normas contra discurso de ódio são adotadas, elas são, na maioria das vezes, direcionadas para o grupo que deveriam proteger.”

E, mais importante:

“É difícil de imaginar progresso social em qualquer lugar que não fosse dependente da liberdade de expressão. Os protestos por direitos civis em 1960 — as marchas e as demonstrações — foram essenciais para o atos federais dos direitos humanos e o fim das leis de Jim Crow, que segregaram cada aspecto da vida no Sul dos EUA. Os protestos contra a Guerra do Vietnã foram cruciais para o fim do conflito. A 19ª Emenda, que deu às mulheres o direito de votar, foi produto de demonstrações e discursos.”

Dos escritos sobre abolição de Fredrick Douglass à luta pela liberdade de expressão da anarquista Emma Goldman no final do século XIX, aos panfletos de Olympe de Gouges (a redatora da “Declaração de Direitos das Mulheres”, que foi eventualmente guilhotinada por causa de seus textos), liberdade de expressão sempre foi usado por minorias para dar voz a suas opiniões com esperança de estarem a salvo de repercussões. Que isso seja visto como algo que apenas supremacistas raciais e direitistas extremistas se importam é perturbador quando se olha a história.

A manifestação do conceito de liberdade de expressão na América e na Europa também é um fenômeno raro. Historicamente e ainda hoje, a falta dessa liberdade serviu — e serve — como base para a continuidade da opressão e marginalização de grupos privados de direitos. No mundo, religiões e grupos minoritários são perseguidos por ideias como leis de blasfêmia. Casos com o de Raif Badawi, o blogueiro ateísta que foi sentenciado a 1000 chibatadas pelo governo saudita por seus escritos, e Asia Bibi, uma mulher acusada de profanar o Corão, são apenas os mais notórios. De países como Myanmar, Índia, Nigéria, Paquistão e até o Irã, leis de blasfêmia ou equivalentes são usados pelo estado e por maiorias para injustamente punir e caluniar minorias. O que são leis de blasfêmia senão versões de discurso de ódio — onde o governo decreta o que ofensivo ou danoso?

Com isso, um contraste estranho se desenvolveu. Autoproclamados liberais dizem querer amenizar a obsessão do mundo ocidental com a liberdade de expressão para proteger minorias, enquanto minorias fora desse mundo imploram para que ela exista. Pedir por leis que entreguem ao estado ou instituições e confiar que elas não esmagaram opiniões dissidentes é de um otimismo que beira a imbecilidade, mas é uma visão com frequência levantada por aqueles que tentam empoderar minorias. Se a história serve de guia, vê-se que essa não é uma abordagem viável.


Isso não significa que a liberdade de expressão ser considerada um conceito de direita é resultado exclusivamente dessa contaminação moral. Em outras palavras, a valorização que a extrema-direita dá à ideia não é o único motor por trás do porquê muitos pensam que liberdade de expressão está nos domínios de populistas e demagogos. Propôr isso seria negligenciar a amplitude de “erudição” em campos como teoria crítica racial, interseccionalidade e estudos étnicos pós-coloniais que afirmam abertamente as consequências negativas da liberdade de expressão para minorias marginalizadas. Muitos dizem que essas perspectivas têm se espalhado para as massas através das universidades e das “mídias esquerdistas”. Não duvido de partes dessa tese, já escrevi apoiando essas partes. Mas acredito que a glorificação da liberdade de expressão por extremistas têm igual ou maior relevância na contaminação do conceito do que teorias acadêmicas. Esse é o caso, especialmente, quando se trata das pessoas que mais importam: indivíduos que ainda não foram enganados por hipóteses interseccionais de que liberdade de expressão é usada para oprimir.

Não pretendo debater com profundidade todos os argumentos desses campos, mas há um fio condutor que corre por todos eles, que segue: discursos constroem a realidade social e podem criar ambientes nocivos. Portanto, censura é justificada quando os efeitos do discurso denigrem comunidades marginalizadas. Aqui está o meu comentário favorito sobre esse tipo de pensamento, fornecido por Ken White:

“Há muitas ideias muito estúpidas sobre liberdade de expressão na academia. Talvez a mais estúpida seja esta: ela é a maneira legal usada para proteger os poderosos às custas dos impotentes, mas exceções à liberdade de expressão irão beneficiar os impotentes. Ninguém com o mínimo de conhecimento sobre a história da liberdade de expressão leva isso a sério.”

Estúpidas essas ideias são. Mas estão ganhando tração, mesmo assim. Vale notar que Ken White escreveu essas palavras em resposta à demissão de professores de esquerda após suas aparições em redes de TV, onde disseram coisas bem heterodoxas. Quatro perguntas aos defensores das leis anti discurso de ódio e limitações à expressão: 1) Não seria melhor se encorajássemos normas que protegessem os professores de perseguição pelo que disseram? 2) Você acha que o seu governo ou legislador sempre estarão no comando para determinar quem pode dizer o quê? 3) O que acontece quando a oposição subir ao poder e seu lado, de repente, encontra os limites reduzidos pelas leis anti-discurso de ódio que você ajudou a promover? 4) Não é melhor apenas dizer que ninguém pode limitar a liberdade de expressão (com poucos e especialmente restrições, como difamação e incitação à violência)?

Uma ativista universitária

Atacar a liberdade de expressão, portanto, é uma posição especialmente perturbadora para progressistas ou para aqueles preocupados com a condição dos grupos minoritários porque presumem que estarão sempre no controle de quem diz o que, quando e para quem. Mas o que acontece quando esse poder trocar de mãos, e vai para alguém com causa mais maliciosas? A humanidade está repleta de exemplos de uma maioria moralista designando o que é permitido e o que não é aceitável.

Steven Pinker, o famosos cientista da cognição e linguista, ao falar dos acadêmicos que mostram intolerância a perspectivas conflitantes, chamou essa posição de “polo esquerdo: o ponto místico de onde todas as direções apontam (politicamente) para a direita. Qualquer opinião que não se conforme com essa ortodoxia é marcada como direitista”. Pinker nota antes de dar a definição acima: “é um decepcionante e triste comentário que a liberdade de expressão tenha sido marcada como pauta da direita”. Ele conclui com: “É para nossa vergonha, como estudiosos acadêmicos e professores, que a liberdade de expressão tenha sido politizada, quando deveria ser anterior a qualquer discussão política”.

Uma importante distinção: não é como se todos os professores universitários e campos de estudo estejam se amotinando contra a liberdade de expressão. Há operadores específicos. No último ano acadêmico, Phil Magness, um historiador da Universidade George Mason, compilou análises de cartas de “desconvite” e descobriu que eram os departamentos de humanidades que, esmagadoramente, apoiavam ideias de infringir as liberdades acadêmicas dos alunos e colegas. Esses departamentos são, usualmente, uma colmeia de pensamento interseccional, onde você pode encontrar acadêmicos obcecados por Foucault, que enxergam tudo como estruturas de “poder”.

Então, é obviamente claro que a o grande ímpeto para enxergar a liberdade de expressão como opressora vem de certas partes dos docentes — isolados às humanidades. O desafio, portanto, é em dois frontes. Um é a contaminação do conceito de liberdade de expressão pelo sequestro de figuras e organizações dúbias, a outra é a adoração de acadêmicos a suas teorias, que acreditam que o livre discurso é uma ferramenta de opressão.


O que fazer, então, para que liberais, esquerdistas, conservadores, direitistas e pessoas de todo o espectro político enxerguem o valor de defender a liberdade de expressão? Há dois lados a serem considerados: a contaminação moral pela extrema-direita e a cobertura resultante, e a reação de certas partes da academia e suas mídias relacionadas.

Um começo simples seria arrancar o conceito de liberdade dos extremistas que o usam como disfarce para atuarem como tropas de choque, animadores de torcida e preconceituoso. Roubá-la de volta e desinfectá-la levará tempo, sem dúvidas. Corremos o risco de parecermos infectados para o interlocutor que queremos convencer. Mas valerá o esforço. Podemos tomar a liberdade de expressão de volta falando: sempre que alguém mencionar que ela é “algo com que apenas preconceituosos” se importam, eu e você podemos oferecer uma refutação, responder suas preocupações, prover um contexto histórico e exemplos. Por causa disso, com certeza enfrentaremos algumas críticas, gozações e sarcasmos, que somos “paladinos da liberdade de expressão” ou paranoicos com a “liberdade de oprimir”. Mas se você chegou até aqui, você deve achar que ela importa. A história está cheia de exemplos do que acontece quando a maioria dita o que é aceitável.

Liberais proeminentes podem e já estão se declarando a favor do conceito. Coberturas na mídia que destacam porque indivíduos, independente da filiação ideológica, desejam defender a liberdade de discurso podem impactar a maneira como moderados e centristas se conectam com a ideia. O objetivo aqui é amplificar essa mensagem e provar para a população geral que a liberdade de expressão merece ser defendida não importa a inclinação política. Essas podem ser aspirações ingênuas; entendo como convencer alguém que acredita que palavras são equivalentes a violência pode ser uma tarefa desanimadora (embora possa ser divertida se escolhermos a abordagem certa). Mas se não nos arriscarmos a pisar no ringue, corremos o risco de perder por W.O., por assim dizer. Podemos descontaminar o conceito de livre discurso se mostrarmos que minorias oprimidas o valorizam.

Além disso, detesto dizer que uma abordagem centrista para este problema é a solução. Principalmente, porque o termo “centrista” tem terríveis conotações atreladas, especialmente para as mentes que queremos mudar. No entanto, deve ser um esforço concentrado, não apenas de uma comunidade política. Tem que ser um empurrão bi-partidário.

Se parecer que apenas a centro-direita defende a liberdade de expressão, duvido que o conceito possa ser desinfectado. Quanto mais indivíduos equilibrados pudermos recrutar para defender sólidas normas cívicas de proteção à liberdade de expressão até mesmo para nossos oponentes políticos, melhor. Este é o maior obstáculo para um problema crescente.

Hordas de censores, nos campi e além, têm causado uma justa parcela de derrotas à liberdade de expressão, como as versões politicamente corretas do pensamento conservador que não aguentam críticas à bandeira ou ao país. Veja, por exemplo, a reação controversa causada entre “patriotas” e os atletas, que exerciam seu direito de protestar ao ajoelharem-se durante o hino nacional. Donald Trump — apoiado por seu exército de acéfalos — pediu a demissão ou suspensão deles pelos protestos. É evidente que nenhum dos dois lados pode reclamar o lado justo da situação.

Enquanto o sequestro do conceito de liberdade de expressão por parte de extremistas (e a subsequente contaminação moral) é uma preocupação, há, ainda, a reação da academia que deve ser debatida. Esse problema é mais complexo, pois tem uma multiplicidade de “estudos” — e professores! — suportando suas conclusões.

Não tenho a audácia de varrer campos de estudos inteiros, mas vou apontar que certos campos sempre lutaram para ver quem é a autoridade máxima em quê. Questões sobre a ciência da natureza humana foram e são causas de discordância. Similarmente, a questão da liberdade de expressão está em discussão. E, nesse caso, nenhum campo particular, por mais vocal e violento, pode ter permissão para dominar o debate. Como Jonathan Haidt, fundador da Heterodox Academy, disse, é uma pequena e suficiente motivada coleção de áreas de estudo, começando pelas humanidades e penetrando algumas das ciências sociais, que insiste em forçar normas politicamente corretas e contra a liberdade de expressão. E devemos combater essas normas e ideias. O desafio, então, em campi universitários se tornou duplamente importante — especialmente porque alunos estão sendo levado a acreditar que a liberdade de expressão reforça posições de poder e condena os oprimidos. Essa visão é que deve ser combatida.

Há uma reação se avolumando. Iniciativas da mídia como a Unsafe Space Tour 2017–18, que trás figuras como Steven Pinker, Laura Kipnis, Brett Weinstein, Jonathan Haidt, Jonathan Rauch, Sarah Haider e Mark Lilla, são importantes para retomarmos as ideais liberais e o conceito de liberdade de expressão como um valor que todos devem defender. Se estudantes e o grande público perceberam que não são apenas extremistas e provocadores que defendem essas ideias, mas intelectuais racionais e respeitados, certamente o resultado só pode ser positivo. Inevitavelmente, alguns irão tachar tais intelectuais como “direitistas reacionários”, cujo propósito é criar ambientes hostis para mulheres e pessoas de cor. Mas ideias como essa podem mostrar que não apenas extremistas defendem a liberdade de expressão.


As propostas mencionadas acima — desafiar perspectivas, racionalizar a liberdade de expressão dentro de sua importância histórica, iniciativas de mídia para mudar opiniões e uma coalizão bipartidária — não são, de forma alguma, contemplações platônicas. Elas apresentam um possível começo ao combate da contaminação moral do conceito de liberdade de expressão.

Se você tivesse me perguntado: “é ok limitar discursos ofensivos a minorias?”, quando tinha 20 anos, provavelmente teria respondido de maneira semelhante aos estudantes nas pesquisas a que fiz referência para mostrar a crescente disfunção na educação superior. Ou seja, teria respondido “sim”. Mas meia década mais tarde, penso diferente — e o faço, em maior parte, por causa do que aprendi. Não pode ser essa uma área a explorar; que essa é uma época em que podemos reforçar e encorajar o respeito por fortes normas cívicas? Como Jonathan Rauch apontou, só se fala bem dos que querem cercear a liberdade de expressão porque estes não desejam ostracizar minorias. Infelizmente, enfatizar cuidado e gentileza não resultam em boas políticas.

Vivemos um momento em que o conceito de liberdade de expressão foi contaminado moralmente por causa de seus mais vocais defensores e por ideias que emergiram em subseções da academia. Ambas as ameaças devem ser combatidas. Liberdade de expressão e normas associadas à ela, em sua forma infante e rara, são conquistas das quais não devemos desistir tão facilmente. Precisamos tomar de volta o conceito e desinfetá-lo de sua contaminação moral.


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Liberdade de Expressão em Debate

Textos originais e traduzidos sobre liberdade de expressão, uma iniciativa da página “Eu defendo a liberdade de expressão, MAS” no Facebook.

Igo Araujo Santos

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