Por que admiro Richard Dawkins

Soube, ontem, que Richard Dawkins teve sua participação cancelada num evento da rádio de esquerda KPFA, em Berkeley, onde ele falaria sobre seu novo livro, A Ciência na Alma: Textos Selecionados de um Ateísta Apaixonado [Science in the Soul: Selected Writings of a Passionate Rationalist]. Os organizadores cancelaram o evento por causa dos comentários de Dawkins “sobre o Islã”, que eles categorizaram como “discurso abusivo”.

Dawkins sempre foi um homem sem filtros, que diz exatamente o que pensa, sem se preocupar com a possibilidade de ser ofensivo. Isso significa que, em suas declarações públicas sobre política, ele soa imbecil ou politicamente incorreto, ou dá voz a um sentimento sem considerar como será interpretado pelos outros. Ele não é um diplomata ou um político. Mas sua franqueza é uma de suas mais importantes qualidades, uma manifestação da paixão que o título de seu livro alude, uma paixão pela verdade. Ele é verdadeiramente íntegro: ele sempre diz o que acredita ser verdade, sem medo de como será recebido. Ele admite quando está errado e se corrige, mas nunca se auto-censura previamente. Ele sempre fala a verdade, doa a quem doer.

O último livro de Dawkins.

Dawkins é capaz de expressar o que nós ironicamente chamaríamos de reverência. Ele não é cínico ou satírico para seu próprio divertimento. Seu livro A Grande História da Evolução. Na Trilha dos Nossos Ancestrais [The Ancestor’s Tale] é um das mais comoventes e poéticas obras que já li. Expressa a profunda admiração pelo mundo natural ou o que ele chama também de “magia da realidade”, de uma maneira profundamente cativante. É uma assustadoramente adorável e, ainda assim, escrupulosamente racional descrição da vida neste planeta, no qual, contra todas as probabilidades, nós temos o enorme privilégio de viver. Frequentemente o descrevo como meu romance favorito — um romance que, por acaso, é verdadeiro.

A clareza do discurso, que às vezes põe Dawkins em apuros, é uma faceta da mesma qualidade que fez dele o Mozart da divulgação científica, com um dom raro para expressar ideias complexas na mais vívida e simples linguagem. Ele provavelmente atiçou mais o interesse do público pela compreensão da ciência do que qualquer escritor vivo. Uns dias atrás, numa pesquisa da Royal Society, participantes elegeram O Gene Egoísta, de 1976, que revolucionou nosso entendimento de genética, como o “trabalho científico mais inspirador de todos os tempos”.

Valorizo Dawkins mais por seus livros científicos. Mas seu trabalho refutando superstições religiosas também têm sido de imensa importância. Junto ao seu profundo amor e respeito pela natureza está o desalento pela falibilidade e mendacidade humanas. O tom irreverente, destemido e, às vezes, cáustico com o qual Dawkins trata os mitos religiosos se provou libertador para milhões de pessoas no mundo, especialmente aquelas vivendo sob o jugo de teocracias repressoras (a tradução para o árabe de Deus: Um Delírio foi baixada dez milhões de vezes).

Enquanto alguns no ocidente desaprovam o tom ácido com o qual ele aborda superstições religiosas, muitos dos que sofreram com teocracias ou foram oprimidos por comunidades e famílias religiosas consideram a honestidade dele renovadora, após ouvirem tantos mandamentos estressantes, sofismas e meias-verdades. É impossível descrever quão admirado Dawkins é entre dissidentes, reformistas e ateus em países majoritariamente muçulmanos, por exemplo. Ele tem sido um exemplo e um herói para ateus no armário por décadas — muitos dos quais escondem sua descrença, temendo por suas vidas. Ele tem sido, para essas pessoas, o destemido campeão que lhes dá voz.

Os livros e palestras de Richard Dawkins enriqueceram minha vida imensamente. Tirar das pessoas a oportunidade de ouvi-lo é uma tremenda vergonha.


Por Iona Italia, em Areo Magazine
Traduzido por: Igo Araujo