Paradoxalmente, países com alta igualdade de gênero, como a Noruega, têm proporcionalmente menos mulheres em carreiras de ciências exatas.

Sérgio Schüler
Oct 6, 2018 · 9 min read

A Noruega é um dos países que está sempre entre as 3 primeiras posições no ranking de igualdade de gênero, que considera vários fatores, como salário e representação política. Eu pude presenciar o equilíbrio entre os gêneros em primeira mão, pois morei 3 anos na Noruega. A primeira interação que eu tive com a igualdade entre homens e mulheres por lá foi logo no aeroporto, quando eu estava esperando minha mala na esteira, e um casal dos seus 18-20 anos também estavam ali esperando suas bagagens. A menina, bem menor que o rapaz, deu um passo à frente e, com alguma dificuldade, pegou uma espécie de mala enorme que com certeza continha seu equipamento de esqui. O rapaz não se moveu para ajudá-la em nenhum momento.

A mala era mais ou menos assim

Mesmo estando entre os mais igualitários, na Noruega só 10% dos engenheiros são mulheres e só há 10% de homens em enfermagem. O governo tem uma série de ações positivas, leis e incentivos, mas não consegue mudar essa realidade — ou quando consegue, 1 ou 2 anos depois volta tudo ao patamar anterior.

Kristin Mile chefiou a Comissão de Igualdade de Oportunidades

E isso não é só na Noruega, países com maior igualdade de gênero têm menos mulheres graduadas em cursos do tipo “STEM” (sigla para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, em inglês), o que é chamado de “o paradoxo da igualdade de gênero”.

Dado esse foco nacional em igualdade de oportunidades e o paradoxo de igualdade de gênero, Harald Eia, um comediante e sociólogo norueguês, fez um documentário para entender como essas diferenças de gênero se desenvolvem na sociedade — se são efeitos sociais aprendidos ou são biológicas. O documentário se chama “Hjernevask” ou “Lavagem Cerebral” em norueguês, e foi produzido pela NRK1, maior e mais antigo canal de televisão da Noruega — que, aliás, é de propriedade estatal.

Vou abordar nesse artigo somente o primeiro episódio, que se chama justamente “Gênero, o Paradoxo da Igualdade”. Este e os outros 6 episódios podem ser encontrados com legendas em português aqui:

O Paradoxo da Igualdade de Gênero

Camilla Schreiner, da Universidade de Oslo (UiO), fez uma pesquisa e descobriu que meninas de países subdesenvolvidos tinham mais propensão a trabalhar em carreiras técnicas. Paradoxalmente, em países mais desenvolvidos e igualitários, isso nunca resultava em uma proporção maior de meninas escolhendo carreiras técnicas. Quanto mais desenvolvido o país, parece que há menos interesse das garotas em Exatas.

Mas isso não deveria ser o contrário?

Há dois approaches comuns para explicar essa diferença: alguns acreditam que a biologia pode explicar essa diferença, ou seja, mulheres e homens teriam simplesmente preferências diferentes baseadas em sua biologia. Já outros explicam essa diferença através das interações sociais, ou seja, como esperamos coisas diferentes de homens e mulheres e tratamos estes de formas distintas, mulheres e homens desenvolvem preferências diferentes.

A sociedade empurra mulheres para carreiras humanas e homens para técnicas?

Cathrine Egeland, pesquisadora de gênero, não acredita que há verdadeira diferença cerebral entre homens e mulheres. Ela diz que o tipo de pesquisa que mostra isso não faz sentido. A mesma opinião é compartilhada por Joergen Lorenzten, do Centro de Estudos Interdisciplinares de Gênero, também da UiO. Ele diz que os estudos que mostram que os cérebros de homens e de mulheres são diferente “foram superados, é coisa do passado”. Ele afirma que as diferenças de comportamento entre homens e mulheres são aprendidas, pois tratamos meninos e meninas de maneira diferente desde o nascimento.

Se isso for verdade, certamente devem existir culturas onde esses papéis são invertidos: mulheres predominantemente em carreiras técnicas e homens em áreas mais sociais. Ninguém conseguiu comparar todas culturas do mundo, mas o professor de psicologia Richard Lippa, em parceria com a BBC, chegou mais perto. Ele fez um estudo em 53 países diferentes com mais de 200 mil entrevistados da África, América, Ásia e Europa.

O que Dr. Lippa encontrou foi que em todos os 53 países, da Noruega a Arábia Saudita, os homens tinham mais interesse por carreiras mais técnicas e as mulheres por profissões mais sociais. Ele diz que certamente existe uma parcela de expectativa social que direciona as diferentes preferências de homens e mulheres, mas se cultura fosse um fator determinante, seria esperado ver um pouco de variação nisso em diferentes culturas. “Foi absolutamente consistente em todas 53 nações (…) quando algo assim acontece e não muda em 53 países, isso dá uma pista de que há algum fator biológico presente”.

O próprio Richard explica que como cientista, não pode acreditar em apenas um estudo. É preciso olhar todos os padrões para ter uma visão completa. Então a próxima pergunta que ele faz é:

Essa diferença entre preferências de gênero acontece cedo no desenvolvimento da criança?

Trond Diseth, do Hospital Nacional da Noruega, faz um teste com crianças a partir de 9 meses: espalham 10 brinquedos diferentes (4 típicos de meninos, 4 típicos de meninas e 2 neutros) e observam quais brinquedos as crianças passam mais tempo interagindo e quais elas ignoram. Ele afirma que “há clara diferença entre meninos e meninas saudáveis desde os 9 meses de idade”. Meninos vão em brinquedos tipicamente de meninos, meninas em brinquedos tipicamente de meninas.

Mesmo tão novos, poderiam eles terem sido influenciados por seus pais e por seus meios sociais a se comportar assim? Diseth acredita que não, pois meninos e meninas nascem com diferenças biológicas claras, o que a sociedade vai fazer é acentuar ou reduzir essas características. Ou seja, ele afirma que a sociedade pode moldar o comportamento, mas só até certo ponto.

Experimento com recém nascidos com somente um dia de vida

Simon Baron-Cohen, professor inglês de psiquiatria de Cambridge, fez experimentos com bebês que tinham apenas um dia de vida. O experimento consistia em mostrar um rosto e um objeto mecânico para estes recém nascidos e filmar quanto cada criança olhava para cada objeto. O resultado foi que meninos olhavam mais tempo para o objeto mecânico e meninas para os rostos.

Note que isso é antes de brinquedos serem introduzidos, bem como qualquer tendência ou preconceito social. Baron-Cohen acredita que essas diferenças são criadas ainda no útero, pois meninos e meninas produzem diferentes quantidades de hormônios, particularmente testosterona.

“Os meninos produzem o dobro de testosterona das meninas e isso influencia como o cérebro se desenvolve.” Eles descobriram que quanto mais testosterona tinha o bebê na fase pré-natal, mais ele demoraria para desenvolver a linguagem e menos contato olho-no-olho faziam. A maior testosterona está relacionada com desenvolvimento social mais lento.

“Existe uma condição em que o feto desenvolve muita testosterona. E meninas que tem essa condição mostram um padrão muito masculino na escolha dos brinquedos.”, afirma Baron-Cohen.

O pesquisador afirma que níveis diferentes de testosterona nos dão níveis de interesse e qualidades diferentes. Mas é um efeito duradouro? Eles acompanharam essas crianças, que hoje estão com cerca de 8 anos, e os fetos que tinham mais testosterona apresentaram maior dificuldade em demonstrar empatia, em reconhecer as emoções nos outros e em adotar a perspectiva de outra pessoa. Porém esses fetos com mais testosterona também apresentavam maior interesse por sistemas e em entender como as coisas funcionam. “Mesmo se você ignorar gênero e olhar só para os níveis de hormônio, você pode prever o padrão de interesse deles”.

Por que existem essas diferenças hormonais?

A professora de psicologia evolucionária Anne Campbell afirma que as características que melhoram as chances de deixar mais descendentes no mundo tendem a se manter no pool genético. Isso seleciona características específicas em homens e mulheres.

Ela diz: “mulheres são em geral as que dão à luz, amamentam… seria surpreendente se não houvesse alguma orquestração psicológica que ajudasse as mulheres nessa tarefa e fizesse essas tarefas particularmente prazerosas para elas. Coisas como empatia, evitar conflitos perigosos que podem te ferir, evitar exclusão social, tudo isso é bom porque aumentam as chances de sobreviver e reproduzir e deixar crianças que por sua vez também vão reproduzir.”

Segundo Campbell, por isso mulheres são mais propensas a trabalhos que lidam mais com pessoas do que homens. Também é por isso que em situações de estresse, homens preferem ficar sozinhos enquanto mulheres preferem companhia. Ela afirma que por causa desses genes mulheres preferem profissões onde há mais interação com pessoas, como medicina, enfermagem e magistério. Mas ela completa: “claro que há grandes intersecções de interesse entre os gêneros. Há grandes profissionais mulheres em química, física, engenharia… mas quando falamos de predominância de interesses, as diferenças existem.”

Campbell acredita que como tratamos as crianças tem muito menos influência na definição dos seus interesses. Pois as diferenças biológicas são tão grandes, que ela acha difícil que o tom de voz ou quanto tempo fazemos contato visual com a criança trará diferenças tão profundas nos interesses e habilidades destas.

Mas isso não explica por que em países subdesenvolvidos há uma proporção maior de mulheres em carreiras técnicas

Se a diferença de hormônios é tão predominante, porque em países menos desenvolvidos há uma proporção maior de mulheres em carreiras técnicas do que nos países desenvolvidos?

Campbell tem uma teoria: quanto mais oportunidades há no país, e nos países desenvolvidos como a Noruega há muito mais oportunidades, mais livre a pessoa se sente para fazer o que realmente quer. Logo essas pessoas vão abraçar em maior número qualquer predisposição genética existente.

Richard Lippa completa: “em um país mais rico, como a Noruega, você de fato está livre para seguir o que você quer da vida”. Enquanto em países mais pobres, você se preocupa mais em ter um emprego e um bom salário, logo mais gente escolhe profissões mais bem pagas e com mais oportunidades, como tecnologia, apesar de sua predisposição genética.

Onde isso nos leva com relação a igualdade de gêneros?

Os dois pesquisadores da Universidade de Oslo que afirmavam que as diferenças eram puramente sociais e não havia componente genético continuaram firmes em suas crenças, apesar das evidências apresentadas a eles pelos outros cientistas. Acredito que esse seja o posicionamento da maioria dos defensores da teoria de gênero atualmente. O que é uma pena, pois se estes querem realmente resolver problemas de desigualdade, deveriam olhar para as causas reais, não os efeitos do problema, assim como um médico deve entender a origem da dor e não simplesmente receitar um analgésico.

Dito isso, é correto afirmar que, sim, existem diferenças reais de tratamento (discriminação), principalmente no ambiente de trabalho, principalmente em países menos desenvolvidos. Porém nem tudo é um problema de discriminação, como tendem a afirmar os ideólogos do gênero. Por exemplo, não adianta almejarmos uma proporção de 50–50% em carreiras técnicas ou humanas, pois as próprias pessoas “sub-representadas” não querem isso. O que devemos sim é garantir que todos ambientes tratem com igualdade, sem favorecimento ou discriminação, todos que estão nele.

Existe uma grande diferença entre tratar todas as pessoas, independente de qualquer característica, com respeito e forçar que todos sejam iguais. Remover impedimentos e entraves faz sentido, mas mudar as regras, baixar a barra ou oferecer incentivos só para atingir um equilíbrio artificial não faz o menor sentido.


Libertarianismo Brasil

“Ideias, somente ideias, podem iluminar a escuridão” — Ludwig von Mises

Sérgio Schüler

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Product Manager @ RD Station

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