Um homem morreu e vocês aplaudiram

Luiz, 45 anos, porteiro, todos os dias quando acorda não deixa de tomar seu café com muito açúcar e várias fatias de pão. Marcela, 22, personal trainer, diz que gosta de tomar uma dose além do recomendado no rótulo do seu pré-treino, pois sente mais o “pump” na academia. Carlos, 38, advogado, fica louco se não tomar uma cervejinha bem gelada no domingo pra relaxar.

Você, Luiz, Marcela e Carlos, são usuários de drogas e, com certeza, nem sabem disso — até porque vocês podem comprar suas drogas no mercadinho mais próximo. E, de nenhum modo, deixam de ser pessoas comuns que trabalham, se divertem e possuem problemas ou dilemas morais como qualquer ser humano. Como qualquer usuário de crack, maconha ou cocaína, inclusive. A diferença, pra estes últimos, reside no fato de que vários membros importantes da maior máfia do nosso país decidiram que seus vícios seriam reprimidos brutalmente.

Pessoas felizes ou um bando de drogados?

Os frutos podres da cultura proibicionista

Encabeçada por Nixon, a partir da década de 70, a política do Estado americano de Guerra às Drogas espalhou-se pelo mundo. Nos anos 80 e 90, décadas em que a TV era a nossa principal fonte de informação, fomos “presenteados” com verdadeiras obras primas da campanha publicitária anti-drogas brasileira. Usuários foram retratados como dementes, a cocaína foi representada por uma sedutora mulher ensaguentada, o crack pela Claudia Ohana em decomposição e até a Eliana ensinou como evitar as drogas com os dedinhos. Estigmas, lentamente, foram perpetrados em nossas mentes, com vasto amparo do Estado.

Após quase meio século de repressão, colhemos os frutos de mais uma política pública fadada ao fracasso. O encarceramento em massa, amparado pela legislação pesadamente proibicionista - que já nos coloca em 3º lugar no ranking mundial de populações prisionais - aliado ao número recorde de homicídios, dos quais apenas 8% são julgados, criam, no Brasil, um cenário tipicamente distópico.

Contudo, nem a sociedade civil, o lado mais prejudicado dessa guerra, parece se dar conta de que insiste no erro. Igrejas, ONGs e escolas continuam na luta contra o inimigo público número um e, ainda hoje, pastores — membros da máfia que custeamos com nosso dinheiro — reduzem o nível do debate com afirmações deste cacife: “homens drogados são capazes de matar qualquer um” e “quem teria coragem de embarcar num avião em que o piloto estivesse fumando maconha?”.

Nós e eles

A morte de um homem e o poder de um papel

Ontem, morreu mais uma vítima desse massacre sistemático ao redor do mundo. Um homem doente, esquizofrênico e bipolar foi fuzilado por outra máfia institucionalizada, pelo simples fato de ter sido pego com 6 quilos de cocaína escondidos em pranchas de surfe. Rodrigo Muxfeldt Gularte não era um homicida, um estuprador ou um assaltante, mas um traficante de drogas, isto é, um vendedor que, atuando de forma pacífica, supria uma demanda do mercado. Sua morte, contudo, em nada vai alterar a procura de drogas na Indonésia ou em qualquer lugar do mundo.

Dentre as reações, as que mais me chamaram atenção foram as dos que comemoraram, afirmando que era justa a morte de Rodrigo, porque “lei é lei e deve ser seguida” . No Afeganistão, mulheres adúlteras são condenadas a morte. No Irã, os homoafetivos são enforcados. Na Alemanha Nazista, os judeus sofreram o Holocausto. No Brasil do período colonial, os negros foram subjugados e reduzidos à condição de mercadoria. Talvez, para as mesmas pessoas que comemoram a execução do brasileiro, tudo isso foi justo, porque, afinal, estava escrito num pedaço de papel.

Porque, afinal, estava na lei.


Belo e Moral, a loja de camisetas libertárias.

Achou interessante? Então clique no botão Recommend, logo abaixo. Fazendo isso, você ajuda esta história a ser encontrada por mais pessoas.


Like what you read? Give João Paulo Palmeira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.