“É…, na verdade”, “olha só…”: respostas que não respondem

Estudo mostra que esses tipos de resposta estão presentes nas interações entre médico e paciente

Perguntas e respostas estão presentes nas interações cotidianas e institucionais e têm como função orientar o interlocutor para a sua próxima ação. Porém, muitas vezes, as respostas fornecidas pelo interlocutor não respondem ao que foi solicitado na pergunta. Isto é, o participante fornece uma resposta, mas não responde ao que foi perguntado. Essas respostas são chamadas de transformativas e foram o objeto de pesquisa do meu trabalho de conclusão do curso de Letras na Universidade do Vale do Rio do Sinos (RS).

Através da metodologia da Análise da Conversa, que estuda a forma como os participantes constroem a sua fala através do turno a turno da interação, pesquisei as respostas transformativas nas interações entre médicos e um tipo específico de paciente, as gestantes de alto e médio risco.

Os dados utilizados foram obtidos em gravações de áudio e vídeo das consultas médicas. Para meu trabalho, transcrevi as conversas palavra a palavra e observei em quais momentos aconteciam as respostas transformativas e quais os seus desdobramentos na interação entre o médico e a paciente.

Os resultados obtidos indicaram que as respostas transformativas são frequentes tanto por parte dos médicos quanto por parte das pacientes. Além disso, como existem diferentes tipos de respostas transformativas, percebeu-se que algumas dessas respostas são aceitas e não interrompem a progressividade da interação; enquanto outras acabam por gerar novos questionamentos que exigem uma resposta mais direta.

A análise de dados mostrou que algumas respostas transformativas aceitam o assunto da pergunta, mas alteram seus termos de alguma forma; nesse caso, há maior aceitação das respostas e sua sequência é curta. As respostas que modificam o tema ou uma pressuposição contida na pergunta tendem a expandir a conversa, já que são seguidas de explicações e justificativas dadas pelo interlocutor.

Observou-se ainda que as respostas que modificam o foco ou a pressuposição indicam aspectos de humanização no atendimento. Isso porque no caso dessas respostas, o médico utilizou esse recurso para evitar o impacto que uma má notícia poderia causar. Ou seja, o médico ameniza o impacto de uma resposta negativa direta ao utilizar uma resposta indireta.

Esse estudo mostra, portanto, que as respostas transformativas têm um papel fundamental para a continuidade das interações e podem ser utilizadas como uma forma de “fugir” da pauta em questão, mas também como uma forma de suavizar a informação que se quer passar.

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