Adama

Mais uma noite e mais um pub

Se o nome dela fosse Carolina, Clarice, Cleópatra, ninguém estranharia os seus olhos chuvosos, meio embaçados e sem cor alguma. Mas Adama tinha em sua boca aquilo que lhe cunhava o nome: lábios de fêmea voluptuosa, noturnos e meio salgados, algo sem muitos adjetivos para descrever.

Homens e mulheres, dos profundos ou intelectuais, aos sujeitos comuns e vãos, dos artistas aos burocratas, dos adolescentes aos anciãos, rara era a exceção, todos desejavam encostar em Adama, ouvir qualquer palavra sua, e o anseio era sentir a língua, o lábio, o gosto daquela sua boca.

Adama saía todas as noites, sem querer e sem dar conta dos dias ligeiros. Distraía-se. E era mais uma segunda-feira que passava, ou chegava a sexta, tudo o mesmo sabor de noite.

Encontrava-se numa taberna naquela quarta, e nas duas horas por ali, a conversa já versara sobre política, sexo, os presságios de novos tremores de terra, a música das massas jovens que se proliferava como os vermes, a crise econômica, e sobre a queda na qualidade da massa da cantina da Mama. Nada disso sem um vinho barato pra acompanhar e efervescer os ânimos.

Adama falava pouco e ouvia de tudo, quase sem se pronunciar. Ficava nas rodas, bebia também, e imaginava serem aqueles homens todos uns porcos, vociferando seus brados e cuspindo as falas em cima um dos outros. Nem por isso os detestava, nem sentia repulsa, seu prazer monótono era justamente estar junto àqueles porcos.

Fora Adama, as mulheres que freqüentavam a taberna eram poucas: havia a esposa de Antonino — que algumas vezes ia buscá-lo a rodo ou vassouradas — e uma ou outra garota na lida, que rondava quem estava com dinheiro para uma rápida trepada e uns “trocados em troca”.

Apesar do tédio dos assuntos rotineiros e repetitivos, e mesmo do desprazer em ver as mesmas caras, ouvir os mesmos ganidos, Adama continuava indo à taberna pelo menos três vezes por semana, naquela sua semana de dias iguais. O motivo era justamente esse: a rotina igual, habituara-se e ia.

Aconteceu o inusitado e, numa quarta-feira dessas, altas horas já, quase seis, os olhos parados de Adama tiveram um sobressalto.

Evidentemente, se o nome dela fosse Cistina, Carolina, ou Cleópatra, o motivo da surpresa seria um homem atraente invadindo a taberna e ocupando cada centímetro cúbico do ar que ali se respirava. Mas, por se tratar de Adama, o fato era algo menos pretensioso, e os seus olhos tomaram pela primeira vez uma ponta de brilho quando ali entrou Sísmico — um garoto pequeno, seis anos de idade — chamando pela mãe, uma daquelas garotas ali à espera de um programa pródigo.

O que Adama antes ocultava nos seus ares de tédio ou disfarçava num solene distanciamento, agora morria, por um instante. Ela existia, respirava encantamento e vida. Os olhos em brilho, cegos para o banal, e todos em atenção para o menino que coroava aquela madrugada. Ela sorria um sorriso de primeira vez.

Agora, pouco importava que Adama fosse ela própria, ou se chamasse Carolina, Clarice ou Cleópatra.

Ali, naquele instante, Adama nascia.

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