Paulo Freire, a Educação Popular e nossos sonhos

Buscar maneiras de estabelecer um melhor contato com a população, organizar grupos de gestantes, de mães, de adolescentes e, enfim, ter um bom conhecimento acerca da educação em saúde são aspectos fundamentais na formação de um médico de família.

Mas qual a melhor forma de fazer essas coisas?

No ABS 1 eu já tinha presenciado “rodas de conversa” com a população que nada mais eram do que aulas tradicionais, a pessoa capacitada no assunto falando para a população, naquele modelo vertical de transmissão do conhecimento que em nada nos agrada, e que não julgamos adequado para a educação em saúde.

Queremos nesses grupos que o conhecimento de cada um seja valorizado e respeitado, pois sabemos que os adolescentes, entre si ou sozinhos, pensam bastante sobre a solução dos conflitos comuns à sua idade; pois sabemos que as gestantes têm conhecimentos passados pra elas por suas mães e avós sobre como lidar com esse período e com o bebê que chega, pois, enfim, sabemos que todos têm, de um modo ou de outro, construído seus próprios caminhos de acordo com o conhecimento que possuem. Queremos compartilhar esses conhecimentos, e talvez, junto a eles, construir outros novos, nunca ensinar conceitos prontos que podem nada ter a ver com aquela realidade.

Mas para isso, precisávamos de algum embasamento teórico. Não levou muito tempo para que lembrássemos de Paulo Freire, cujas teorias em educação, pelo pouco que conhecíamos, tinham muito a ver com o que pensávamos. Como participante do Núcleo de Educação em Saúde da nossa Liga, fiquei responsável por procurar informações sobre Paulo Freire e a tal Educação Popular, método de educação idealizado por ele.

Acho que não poderíamos estar mais certos sobre a semelhança entre aquilo que pensávamos e o que dizia Paulo Freire. Li coisas que iam até além do que eu sonhei que poderíamos aplicar, e embora seja de fato uma teoria baseada numa utopia, como ele mesmo diz, a Educação Popular se mostra aplicável desde os seus primórdios, quando ajudou milhares de jovens e adultos pobres a ler e a escrever, num projeto tocado pelo próprio Paulo Freire, até hoje, quando surpreende pelas incríveis soluções criadas, em diversos campos, quando é corretamente aplicada junto às comunidades.

Ao contrário do que se pode pensar inicialmente, a Educação Popular não é um meio mais eficaz de transmitir os conhecimentos hegemônicos. Nas palavras de Eymard Vasconcelos, a EP “busca trabalhar pedagogicamente o homem e os grupos envolvidos no processo de participação popular, fomentando formas coletivas de aprendizado e investigação, de modo a promover o crescimento da capacidade de análise crítica sobre a realidade e o aperfeiçoamento das estratégias de luta e enfrentamento”.

E nisso, a EP incomoda. Porque não traz resultados imediatos. Porque, de pronto, não melhora indicadores. Porque, ao invés de criar conformismo, pode criar inquietação e revolta. E é na revolta que esses sujeitos passarão a enfrentar seus problemas, buscar melhorias nas suas condições de vida, fazer a diferença em suas comunidades.

Ao invés de transmitir o correto, discutir abertamente sobre o que incomoda, o que oprime, e buscar juntos as soluções. É um dos pilares da Educação Popular. É o que queremos fazer.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.