Xavier

o mar iguala todos os homens”

Um dos nossos sonhos como Liga é construirmos uma rede interdisciplinar de trabalho. Entendemos que a Medicina da Família, para ser bem praticada, envolve um conjunto de conhecimentos que vai muito além dos saberes médicos.

Assim, buscamos parceiros não apenas nos tradicionais cursos ligados à saúde - psicologia, enfermagem, farmácia e odontologia - mas exatamente porque entendemos o processo saúde-doença como algo que acontece inserido num contexto social e cultural, recorremos também aos trabalhos que já se desenvolvem pelos cursos da área de humanas em comunidades.

Como em nosso projeto inicial de trabalho está previsto a construção de um mapa, por cartografia participativa, da nossa futura região de trabalho (Pirambu), fomos nos encontrar com as pessoas ligadas ao LABOCART, coordenado pela professora Adryane Goraieb do departamento de Geografia da UFC para aprendermos e trocarmos figurinhas.

Após o primeiro contato, visitando o trabalho de sua equipe no Poço da Draga, fomos convidados a conhecer a comunidade de Xavier, local onde eles também desenvolvem pesquisas e trabalhos.

Xavier é uma praia paradisíaca, próxima a Camocim que abriga uma comunidade tradicional de pesca. Mas, infelizmente, como em muitos outros locais por este país a fora, a comunidade se encontra ameaçada.

A praia, que até bem pouco atrás era propriedade de toda comunidade, teve parte de seus terrenos grilados e vendidos para uma Usina Eólica.

Nas licitações ambientais para a construção da Usina a comunidade simplesmente foi ignorada e a praia foi descrita como deserta.

A usina recebeu licença efoi construída. Aterrou parte das lagoas existentes na praia e fechou completamente a passagem da comunidade para qualquer outro lugar (há cancelas e guardas garantindo o controle de quem entra e sai da região) além de rebatizar o lugar como praia Formosa.

Como há ainda gente decente no mundo, a Pastoral Social tomou conhecimento do assunto e procurou a professora Adryane (com quem já havia desenvolvido outras parcerias) para auxiliar a comunidade a lutar por seus direitos.

O LABOCART, que trabalha com cartografia participativa, começou o trabalho de cartografar a comunidade junto com os pescadores. Com auxílio do Coletivo URUCUM (Faculdade de Direito — UFC) alcançou-se algumas vitórias da Associação de Moradores de Xavier junto à Usina. Conseguiu-se abrir a passagem às pessoas da comunidade e, pela primeira vez no país, a implantação de políticas compensatórias, já que as lagoas que foram aterradas na construção inviabilizaram o próprio sustento dos pescadores que, em uma parte do ano, as utilizava como local de pesca.

Fomos para lá, numa primeira vez, apenas como observadores. Participamos das oficinas de cartografia e de geração de recursos feitas pelo Labocart com a comunidade .

Além de ficarmos encantados pelo trabalho deles, conhecemos as pessoas da comunidade, fizemos amigos e, nas rodas de conversa do almoço e do café-da-manhã, surgiu a ideia de resgatarmos o conhecimento do uso tradicional de plantas medicinais feito pelas pessoas da comunidade.

D. de Jesus, uma das líderes da comunidade e que nos hospedou, comentou que os mais jovens não se interessavam mais por esse tipo de conhecimento e que isso estava se perdendo. Pensamos que produzir uma cartilha sobre essas plantas para a comunidade seria, não só um jeito de aprendermos muito sobre plantas medicinais, mas também um jeito de auxiliar de alguma forma essa comunidade que nos recebeu de forma tão generosa.

Na segunda vez que lá estivemos entrevistamos vários moradores, recolhemos o conhecimento de várias plantas medicinais. Fomos ver várias hortas de erveiros e realizamos junto com os entrevistados o reconhecimento de outras ervas pelas redondezas.

Entrevistamos as rezadeiras de Xavier e de Amarelas (comunidade próxima). Fomos benzidos contra quebrante e mau olhado e aprendemos muito com as pessoas. A forma carinhosa e gentil com que nos atenderam nos fizeram refletir a forma como muitos médicos tratam seus pacientes.

Foi uma experiência mágica. Conhecermos pessoas com tão pouco, a quem falta quase tudo, mas a quem sobra bom humor, que têm um riso fácil que surge a toda hora nas conversas e uma imensa alegria de viver. A forma como partilharam conosco suas casas nos fez pensar um tanto em que ponto perdemos essa capacidade de sermos solidários uns com os outros nas cidades grandes.

Talvez seja mesmo como diz Mia Couto que “o mar iguala todos os homens”.

A lembrança dessas pessoas, que têm a calma do mar nos olhos, e o aprendizado de vida que tivemos com eles, certamente é dessas experiências que ficarão conosco para sempre e que sem dúvida nos farão melhores médicos.

No final de junho, aproveitando a visita de parte das pessoas da comunidade ao LABOCART na UFC, realizamos uma oficina na Farmácia Viva com o auxílio de uma aluna do mestrado da Farmácia, Ana Georgina Pontes, que estuda ervas medicinais.

Estavam presentes muitos jovens que vieram para UFC aprender a trabalhar na plataforma de cartografia e foi muito interessante ver a quantidade de coisas que eles sabiam a respeito de ervas medicinais.

Ao contrário da notícia que tivemos pelos mais velhos da comunidade, constatamos que há muitos bastante interessados nesse conhecimento.

A presença da agente de saúde que trabalha na comunidade durante a visita foi muito importante para pensarmos que tipo de informações são necessárias na cartilha, tais como interações medicamentosas e ervas, contra indicações para uso das plantas etc.

Agora estamos elaborando a cartilha e, se tudo der certo, em agosto estaremos de novo com eles. No momento estamos realizando pesquisa bibliográfica, aproveitando os conhecimentos que nos foram deixados pelo professor José Matos e buscando junto à literatura científica os usos e as interações das plantas que listamos.

Mas o que nos tem assombrado é que o uso descrito pelos erveiros de Xavier é o mesmo descrito na literatura. De fato esse conhecimento tradicional sobre plantas medicinais não só é importante para as comunidades, mas para todos nós, futuros médicos, que sabendo ou não de suas qualidades, em breve estaremos atendendo a pessoas que as utilizam. Conhecer seus princípios ativos, possibilidades de interação medicamentosa e até mesmo podermos prescrevê-las, certamente nos tornará mais eficientes.

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