Corpos-cartas

Hupokhondría
Sep 5, 2018 · 5 min read

por Louise Nascimento

1.

Eu esperava que você viesse em outro momento. Que tivesse uma recepção deliciosa. Esperava que você encontrasse muros cheios de arte, olhares gentis, pessoas que falam e que dizem. Esperava sorrir pra você. Poder sorrir. Poder dizer: que bom, você está aqui. Contar histórias. Cantar pra dormir. Te dar livros do Jorge Amado, o preferido do seu pai, ou outros que você gostasse de ler. Te levar ao teatro, ao cinema, ao circo, à biblioteca, a shows, ao parque de diversões, à praia, à cachoeira, ao sítio. Te ensinar a pintar, contar, dançar, cozinhar, costurar, assobiar, escrever, até que você não quisesse aprender mais nada de mim, e depois voltasse a querer. Queria poder te ensinar a falar. Faria sua comida preferida. Buscaria água no meio da noite. Trocaria sua fralda, cuidaria da sua febre. Conheceria seu primeiro amor. Teria ciúmes. Veria você livre, fazendo o que quisesse, dizendo o que precisasse, sendo você, crescida e crescendo por dentro e por fora.

Mas a mãe já não pode mais, filha. A lembrança dos alimentos resiste, mas eu já não como. A lembrança das músicas resiste, mas eu já não canto. A lembrança das histórias resiste, mas eu já não as conto. Não vou a lugar nenhum, nem danço, nem pinto, nem escrevo. Não tenho seu pai por perto. Tiraram tudo da mãe. E mais. Taparam minha boca e calaram meu peito junto. A mãe já nem sabe mais se sabe sentir.

Se você viesse nesse momento, também não poderia cantar, assoviar, olhar os olhos de ninguém. Não poderia observar as cores do céu, ou passar os dedos nas lombadas de livros antigos. Provavelmente não conheceria o fervor do amor, também. No agora, filha, o corpo da gente ferve e queima é por não poder falar. Calaram minha boca, e as palavras não ditas penetraram minha pele, meus músculos, meus órgãos, meu sangue, se aninharam em meus ossos. Calaram minha boca e fizeram de mim uma mulher formada inteiramente por palavras.

O que minha carta — aliás, meu corpo-carta — quer te dizer é que a decisão foi tomada: você não vem.

Mãe.

2.

Me deixem aqui, quietinha. Me deixem sentir, que a dor que sinto não passa com remédio. Não fale comigo como se eu fosse uma criança, por favor, que eu já troquei palavras com muito mais significado do que vocês conhecem. Eles conseguiram me calar, e nem precisaram de um pedaço de ferro pra isso: me calaram de desgosto. Não vale a pena mover os lábios e emitir palavras pra quem ouve mas não escuta, com quem fala mas não diz.

A dor que carrego é de alguém que sente falta de possibilidades que não a de ser pego por sorrir a um estranho, de frios na barriga que não sejam causados pela pronúncia descuidada de uma ou duas palavras do Antes, de ansiedades que nada tinham a ver com a espera pelo fim destes tempos. Dor de quem sente falta de poder, de fato, escrever ou dizer a alguém cada palavra dessa carta que crio.

Por isso eu durmo sim, sempre, e não tente me acordar! É nos sonhos que desperto, que vivo sem muros cinzas, sem bocas tapadas, sem chorar em silêncio, sem todo esse despautério. E se, entre esses sonhos, meu corpo continuar a acreditar que a ausência de remédios o fará dormir pra sempre, guarda o remédio e deixa ele. Deixa a gente descansar e encontrar este outro mundo que tanto torcemos para existir em algum lugar do espaço ou do tempo.

Bianca.

3.

Quando nos olhamos, um furacão toma conta do meu peito. Quando teu cheiro me surpreende numa caminhada qualquer, sou levado a voar pelas nossas lembranças. Quando sua voz passeia pelos meus ouvidos, ela toma conta de todos os meu sentidos e consigo sentir meu corpo se desmanchar no ar e se tornar frequência, para encontrar a sua. Nossas horas e horas de conversa passam como segundos, e eu poderia viver toda a vida limitada a um único diálogo nosso. O encaixe do teu corpo com o meu me causa fervor, e vejo que somos um só.

Assim começaria, meu bem, a carta de amor que você nunca receberá — a não ser que a leia no meu corpo. Seria brega, extensa, entregue com uma borrifada do meu perfume, como são mesmo essas cartas. Como eram. Isso é hoje impossível. Não posso escrevê-las, você não entenderia, e eu não te amo. A carta que hoje recebe se encontra em cima da mesa, com os seguintes dizeres:

Vamos assistir Mais Cozinheiro e depois fazer sexo?

Simples, vazia, segura, cinza, direta — como nós e todos os outros.

(Te escrevo em pensamento) Te espero,

Vitor.

4.

Mãe, seu jeito de pensar nunca fez muito sentido pra mim. Falava em liberdade com olhos marejados que se derramariam a qualquer instante, e eu tinha certeza de que só precisava me prender — em rotina, em hábitos, em leis, ordens.

Você me ensinava a me comportar, a me expressar, a seguir as normas, a não ser pego. Me mostrava os perigos da leitura e a responsabilidade de usar o aplicativo. Mas deixava pequenas pistas, pequenos protestos pela casa, como iscas. Eu nunca mordi, mãe. Eu queria exercer minhas funções com excelência, queria me encaixar, ser aceito. Meu caminho era simples: seguir as regras. Ser um bom peixe.

Você me ensinou todas as regras por amor e tentou me fazer enxergar além por muito mais amor. Mas eu te traí. Fui fiel a eles.

Quando ouvi você falar daquela maneira, houve um terremoto dentro de mim. Era mais direto, mais potente, mais intenso do que qualquer pequena pista no canto da casa, qualquer palavra solta na rotina. Era você, com todas as letras, recusando todo o sistema em que me ensinou a viver.

Achava ter aprendido certo e errado muito cedo, e não pensei duas vezes: aquilo estava errado. Denúncia estúpida. Precisei me despedir de você para só então morder todas as iscas. Para só então aprender que errado é o controle, a distância, a saudade, a ausência.

Sinto sua falta, mãe. E agora quem joga iscas por aí sou eu, mesmo sabendo que você está longe demais para morder. Com sorte, quem morder aprenderá a nadar contra a corrente mais rápido do que eu fui capaz.

Caio.

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