O catador sem-teto Domingos Queiroga Da Laranja

Hupokhondría
Dec 26, 2018 · 10 min read

por Gustavo Burla

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Capítulo XXII

Que trata da valentia do catador Domingos diante dos Cidadãos de Bem

Ao entrar na praça do bairro mais a oeste da cidade com seu carrinho, Domingos Queiroga foi claramente notado por todos os moradores. Crianças que o viram de longe e estavam afastadas dos pais foram correndo para entender de perto o que se aproximava e pais mais atentos seguravam a prole diante do desconhecido. Talvez os pais desses pais tivessem se deparado com carrinhos puxados por catadores de papéis em tempos ora esquecidos e, pelo contexto, talvez não tivessem se lembrado de contar isso aos filhos. Ou não quisessem, por escolha política deles ou das novas diretrizes desde a instauração do Marco da Democracia Autorresponsabilizadora.

A figura esquálida trazia o sorriso e o carrinho sem muito esforço, o primeiro por vir cheio. Pulando como uma bola de parque, o pequeno Ladrão esperava a autorização do dono para escapar do cercadinho, o que só aconteceria quando estivessem parados. Até o meio da praça, o amigo Santos estava aflito pela possível queda do animal, que jamais ocorrera, o que não significa que não possa ocorrer um dia. Parados no espaço aberto e cercado por árvores e arbustos, ao lado do tanque de areia, Domingos proferiu as palavras ao cão:

- Pode descer, meu fiel Ladrão, mas não faça xixi no caminho das pessoas ou cocô na caixa de areia. Seja gentil e respeitoso, é o mínimo que esperam de ti.

Quase solene, o cão curvou-se em respeito e depois saltou em direção ao tanque de areia, por onde correu seguido ou seguindo crianças que por ali ainda estavam. Outras, assim como pais, atinham-se à figura do ilustre catador e de seu inusitado carrinho quase vazio de quinquilharias.

- Quem é o senhor? — foi a pergunta de um dos pequenos diante dos olhos dos dois andarilhos.

- Sou o catador sem-teto Domingos Queiroga da Laranja, filho do honrado reciclador Sábato Queiroga, conhecido por sua bravura diante de montanhas inescaláveis de lixo.

- Sua mãe é a laranja? — riu um dos meninos, acompanhado por Domingos.

- Esta história é interessante e se quiserem sentar-se, posso contar. — e diante do círculo que se armou, inclusive com pais desconfiados, seguiu — Quando comecei a trabalhar nessa vida, já sabia que meu destino era viver cansado, por isso resolvi, ao sair de casa, jamais me cansar. Meu pai, como o pai dele, viveram e trabalharam na rua catando material para reciclagem e por isso, seguindo a vocação da família, mantive a profissão que trazia no sangue. Para me ajudar, sempre contei com a proteção do meu fiel Ladrão, o cão que ali se diverte, e o fiel escudeiro Santos, para quem prometi um cargo no ministério assim que minhas missões sociais estiverem cumpridas.

- Seu cachorro é ladrão?

- Qual o seu nome, minha jovem?

- Joana.

- Você é Joana?

- Sim.

- Então meu cachorro é Ladrão. Nós três, Ladrão, Santos e eu, seguimos pelas ruas desta cidade enorme, do tamanho do mundo, buscando material para reciclagem.

- Hoje é proibido jogar essas coisas no lixo… — começou uma mãe, interrompida por uma criança: — mas laranja pode, por isso você chama Laranja?

- Não me chamo Laranja, sou Da Laranja. Estava contando dos meus antepassados, catadores como eu, que sempre chegavam cansados do trabalho no final do dia. Ao largarem o carrinho sempre diziam, e isso consta no brazão da família, a mesma frase: estou um bagaço! Assim mesmo, com a força que restava do dia e esse suspiro no final. Cresci ouvindo a frase e repetindo para mim, mentalmente: vou honrar a família no trabalho, mas sem ostentar esse cansaço. E por isso carrego Laranja no meu nome, que mudarei se algum dia, ao parar de trabalhar, tiver que proferir a frase da família.

- O senhor é um contraventor, o aplicativo já deve ter acusado o senhor de… — foi um pai raivoso, dessa vez interrompido por Santos, o protetor.

- Meu caro moço, pai de família e Cidadão de Bem, não temos tempo para usar aplicativos, nossa vida é real, material, envolvida com pessoas e coisas que buscamos pra reciclar. Nesse nosso materialismo, sabemos que nem tanto ao céu quando temos muita terra a percorrer, por isso sabemos que mais vale uma resma de papel na mão do que dois celulares voando.

- Confuso esse seu jeito de falar, meu senhor. Quer dizer que vocês não possuem o aplicativo? Não possuem celulares!?

- Neste nosso trabalho o tempo é pouco. — foi o próprio Domingos quem respondeu — A vida requer atenção a todos os elementos pelos quais passamos. Se nos descuidarmos do mundo material, podemos deixar passar material reciclável e isso nos seria imperdoável. Precisamos cuidar do nosso mundo, cada um faz sua parte: os senhores, as senhoras e esses jovens consomem e eu e meu fiel amigo cuidamos de manter limpa a cidade dos restos que podemos recolher.

- Os senhores sabem que é proibido viver na sociedade sem celular, sem aplicativo?

- Também é proibido — vociferou outro dos adultos presentes — deixar na rua qualquer tipo de lixo, reciclável ou… laranjas.

- Meus caros Cidadãos de Bem, os senhores e as senhoras insistem em uma situação sem lógica. Se por um lado afirmam minha violação por não possuir um aparelho celular, desses que trazem o aplicativo pelo qual vocês sobrevivem, por outro condenam os que jogam ao léu material reciclado, do qual eu sobrevivo. Se não tenho fonte de renda, como posso consumir um aparelho desses?

- Até seu nome é uma violação, catador: Domingos! Domingos! Sabemos que existe apenas um na semana, no singular.

- Quem de vocês se restringe a apenas uma semana de vida?

Assim seguiu o catador sem teto, atravessando a praça, ainda seguido por crianças que desobedeceram os pais, por sua carrocinha com a placa Eu coração Antonomásia e pelos fieis Ladrão e Santos, este contrariado, como sempre ficava diante dos embates do mestre.


Capítulo XLI

Do dia em que a bela Antonomásia não quis olhar para o amado catador Domingos Queiroga

O sol parecia ter se esquecido de sair do zênite naquele interminável dia de barulho e correria pela ruas. Pessoas iam e vinham pela avenida central, a maior parte delas ignorando o trio composto pelo catador sem-teto Domingos Queiroga da Laranja, Santos e o cão Ladrão. Os que já os haviam visto caminhando pela cidade tinham naquela ornamentação puxando o carrinho apenas um elemento da paisagem. Agradável não era a palavra que usavam, mas bastava ignorar e passar rápido por eles que a visão não incomodava.

- Pela barbas de noturno, — irrompeu o impaciente Santos — este calor está de fritar bolinhos de arroz no asfalto!

- Nem eles nem os ovos nós temos, meu caro Santos. — respondeu Queiroga sem perder a pose de proprietário do carrinho que tinha a placa Eu coração Antonomásia sempre lustrada na parte de trás. — Melhor que sigamos em nossa busca por material reciclável contando com o suor que nos escorre pelo rosto.

- Pelo menos o sal não nos faltará quando o ovo estiver frito.

Os que se dispunham a circular sob o sol naquela tarde transpiravam, mesmo os que destoavam do frenesi de pessoas, como era o caso do trio. A dupla caminhava lentamente, sem deixar de percorrer com os olhos os cantos onde alguém possa ter deixado escapulir uma folha de papel ou um copo plástico. O folgado Ladrão refestelava-se no carrinho, deitado sob a proteção da sombra de uma caixa de papelão encostada em um dos cantos. Se eu fosse um narrador ousado, diria que dorme, mas os cães são sempre surpreendentes e capazes de sustos quando nos aproximamos de seu sono.

Foi o que aconteceu quando o carrinho parou de repente. Queiroga o largou num rompante, mudando o suor do calor em suor frio. Santos não entendeu o que acontecia, menos ainda Ladrão, que deu um latido alto e outro mais baixo, conformado, porque o focinho que tinha escapulido para o sol voltara ao conforto da sombra. Queiroga mirava uma jovem sentada em um banco de pedra sob uma marquise, rosto apontando para o horizonte, sentindo a parca brisa que vinha de lá.

- Vá, meu caro Santos, diga a ela que estou aqui e ansioso para nosso reencontro! — agitou-se Queiroga enquanto passava as roupas com as mãos, a título de secá-las do suor e esticá-las da labuta diária num só tempo.

- Ela quem, senhor? Só vejo uma jovem de cara pro vento sem nada pra fazer da vida.

- Ela me espera, percebe? Me espera, como eu a ela. Apenas imaginei que estivesse em outra cidade, longe de mim. Nunca imaginei que fosse tão breve esse nosso pesar. Vá, Santos, me anuncie enquanto preparo meu coração para que não salte sobre ela.

Lá foi o insatisfeito Santos arrastando os pés abordar a jovem que flertava com o vento. Ela logo virou o rosto, sem perder a serenidade, mas com algum estranhamento.

- Quem é? — perguntou com o rosto voltado para os sapatos furados que pararam no chão bem ao lado.

- Sou Santos, amigo e ajudante fiel de Domingos Queiroga Da Laranja, catador de material reciclado e morador das ruas desta cidade. Foi a pedido dele que vim aqui para dizer que ele se aproxima.

- Nunca ouvi falar nesse cagão que precisa de proteção pra chegar perto de uma moça. Nem posso falar cagão, mas isso é mais que covardia.

- Sei disso, bela senhorita, mas ele insiste em dizer que a senhorita é sua amada Antonomásia.

- Diga pro catador que não sou nada disso. Meu nome não interessa a ele e menos ainda qualquer safadeza dele. Só me deixa quieta que tô esperando meu acompanhante.

- Marido? Perdão, bela donzela, mas é casada?

- Meu cachorro. Sou cega. Deixei pra tomar banho e ele vem sozinho até aqui.

- Puta que pariu.

- Some daqui, imbecil, não sou nada disso!

- Perdão, gentil senhorita.

E voltou Santos para perto de Queiroga sem saber o que dizer. Rodeou o amigo para ganhar tempo enquanto ouvia perguntas sobre aparência e hálito. Quando Queiroga se resolveu a ir, Santos segurou-o pelo braço.

- Não deve ir até ela, senhor. É um teste. Tão logo o senhor se aproxime, um cão raivoso, vigia do sistema, a levará de volta pra longe, pra outra cidade. É como aquela história de Morfeu e Eurídice: olhou, perdeu. Se quiser que ela continue te amando, espere aqui.

Queiroga duvidou de Santos algumas vezes, mas a força com que segurava o braço era tanta que optou por acreditar. Foram poucos minutos olhando para a gentil Antonomásia até que o cão a viesse buscar assim mesmo. Ela brincou com o animal e Queiroga respirou aliviado por sabê-la em boa companhia. Ela, ao contrário do que ele esperava, sequer olhou para o amado catador sem-teto.


Capítulo LI

Do progresso da amizade de Santos, com outros sucessos tidos como bons

Sentado na confortável poltrona com uma bandeja encaixada na parte da frente, Santos refestelava-se com o molho madeira espalhado sobre o arroz enquanto tomava goles de vinho com a intensidade de um homem no deserto diante de um oásis. O ar condicionado do lugar não impedia que ele trajasse apenas cueca, já respingada de comida e bebida, nada relevante diante da voracidade com que chegara a lamber o prato.

- Por que não posso ficar aqui? Trabalhar aqui dentro? — perguntou enquanto passava a língua nos dentes para aproveitar os últimos fragmentos que poupara para o final.

- Pode sim. — foi o que respondeu o homem de terno sem esboçar qualquer mudança no semblante. Era um terno cinza que pouco combinava com a gravata, mas Santos não se importava, deixara de se incomodar com roupas que não combinavam desde que fora chamado para conversar com Cidadãos de Bem que monitoravam o aplicativo.

- Trabalho na burocracia, empurrando carrinho de papel, limpando banheiro! Isso! Limpo banheiro, mas deixa eu ficar aqui. — já estava na ponta da poltrona quando fez o pedido, a bandeja empurrada para o lado, sem uma gota de vinho sobrando no copo.

- Você conhece a condição para trabalhar aqui dentro. A sua condição.

Santos pensou que não teria as regalias de uma refeição como aquela, ou de qualquer outra que precisasse de esforço maior que um canudo de plástico ou de metal. Detestava o gosto de metal, só de imaginar a possibilidade de sentir aquele gosto pensava em como seria bom voltar a andar no sol. Mesmo assim, insistiu.

- Não existe outra forma?

O homem de camisa social, que estava ao lado do homem de terno, sorriu. A roupa combinava, não tinha problema algum ali, exceto o sorriso. Era um sorriso só de lábios. Santos não gostava de ver aquele tipo de sorriso e tentou mudar de argumentação.

- Existe algum outro tipo de trabalho que eu possa fazer? Na rua mesmo, mas não com aquele homem!

Os dois que pareciam mandar na situação se olharam, quase virando as costas para Santos com o objetivo de sair dali. Já tinham ouvido aquela cantilena outras vezes, por muitas vezes, mensalmente, como parte do exercício de deixar clara a função de Santos. Ele parecia mais revoltado a cada encontro, mas sabia até onde podia ir nos pedidos, que se intensificavam. O máximo que conseguia era comer algo diferente, mais nada.

- Deixa pelo menos ele ver aquela mulher dele.

- Ele não vai querer. E ela não vai poder falar com ele.

- Que diabos ele fez, cacete, pra merecer isso? E eu, por que eu?!

- O que ele fez ou o que você fez só dizem respeito ao governo. Agradeça a chance que estamos dando a você.

- Alguém monitora ele também? Toma conta dele?!

- Você. Precisamos de um exemplo desses no mundo e alguém que cuide dele pra que não pareça comum demais.

- Por favor, me tira dali ou vou acabar louco que nem ele!

- Ele é louco?

Santos não entendeu, ou fez que não. Percebeu que a argumentação estava perdida e que não convinha mais falar. Olhou para o prato vazio, para o copo seco e desejou ter mais um de cada antes de sair dali. Sabia que não adiantaria pedir qualquer coisa. Só água. Água eles davam sempre, em qualquer quantidade. Era o modo de demostrarem liberdade e transparência nas relações do governo com os cidadãos. Água. Tanto bate até… Detestava os ditados, mas sempre tinha que aprender novos quando ia ali. Água. Respirou fundo e pediu:

- Pelo menos outro banho, porra!

Eles sorriram da última palavra, que não tinha razão para fazer parte daquela frase. Talvez gerasse uma interpretação equivocada por estar ali e Santos percebeu e fechou o cenho. Os dois homens sorriram, quase riram, e Santos sorriu com eles quando percebeu que nada aconteceria. Um dos homens foi até a cozinha e disse de lá.

- Sem banho, mas leve um pote de sorvete quando sair. — e lançou para Santos o pote, que cairia no chão se Santos não tivesse se jogado antes, em movimento de mergulho, para evitar o impacto. Era leve, um pote leve de sorvete. Os dois homens sorriram pela peça que pregaram em Santos ao lançarem o pote reciclável a ele. Levantando-se do chão, ele pensou que um dia encontraria uma saída para aquela situação. Precisava encontrar um ponto fraco em que pudesse se apoiar e sabia que eles poderiam cair na própria piada, era só esperar que ela fosse maior. Maior que confundir sorvete com plástico.

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