‘Somos todas Viviane’ (pt. 3)

Dados da violência

A moça fadigada se recompõe e pega o microfone de volta, agora ela cita dados da CPI da Violência Contra a Mulher, de Curitiba (2011): dos 2222 casos registrados de violência, 10 viraram processos e foram concluídos — e houve apenas 2 condenações.

Afinal de contas, o que havia nos tais panfletos que eram distribuídos pelas garotas durante toda a peregrinação? Mais dados alarmantes sobre os perigos que a mulher corre no Brasil:

“Você sabia que…
Segundo pesquisa da [Fundação] Perseu Abramo [(FPA) em parceria com o Sesc], 33% das mulheres admitem ter sofrido violência física, sendo 13% estupro conjugal?
Segundo a mesma pesquisa, uma em cada cinco mulheres no mundo será vítima ou sofrerá tentativa de estupro?
(…) os institutos Pro-Mundo e Noos [mente, em grego], 17% dos homens entrevistados afirmaram já ter forçado sua companheira a fazer sexo?”

Infelizmente, ainda há dados que não foram postos neste panfleto — talvez por falta de espaço.

A pesquisa da FPA (2001) ainda mostra que, das entrevistadas:

  • 11% afirmaram sofrer assédio sexual — quase todos, por simples abuso de poder;
  • Além dessas, outras (6%) foram “forçadas”, por homens, “a práticas sexuais que não lhe agradavam”;
  • 2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano no país — 5,8 mil por mês, 243 por hora, 4 por minuto (lendo o texto até aqui, de acordo com as estimativas da Fundação, mais de 52 mulheres sofreram essa violência);
  • Em todos os casos que a mulher pede ajuda, recorre à outra mulher da família ou próxima (mãe, irmã, amiga). Denúncias públicas são mais raras, apenas em casos de ameaça à integridade física por armas de fogo (31%), espancamento com marcas, faturas ou cortes (21%) ou ameaças de espancamento à mulher ou a seus filhos (19%);
  • O órgão público mais utilizado para isso é a delegacia de polícia. A da Mulher é utilizada em casos de espancamento, mas o número de mulheres que o fazem é mínimo (5%).

Dados recentes do Mapa da Violência 2012 — atualização: Homicídio das Mulheres no Brasil confirma que, embora onze anos separem essa pesquisa da realizada pela FPA, a violência física e sexual feminina mostra-se mais presente do que nunca:

  • Em 2011 houve 13.096 casos confirmados de violência sexual contra mulheres — praticadas, principalmente, por amigos ou desconhecidos;
  • 63% dos casos ocorrem com mulheres de 5 a 19 anos;
  • Houve, no mesmo ano, 47.386 casos de violência física praticados, principalmente, pelos pais, com mulheres de até 9 anos, e parceiros, com mulheres de 20 aos 50 anos;
  • Em ambas as situações, o local preferido para essas violências ocorrerem é a própria casa da vítima.

A Organização das Nações Unidas (ONU) trata o caso como uma “pandemia”, e consta que 7 em casa 10 mulheres enfrentarão algum episódio de violência física e/ou sexual durante a vida. (Se ainda não está convencido do tamanho do problema, mulheres dos 14 aos 44 anos têm mais chance de serem estupradas do que terem câncer e sofrerem acidente de carro, de acordo com dados do Banco Mundial.)

Por que homens fazem essas barbaridades? E eles, o que têm a dizer sobre isso?

A pesquisa realizada pelo Instituto Noos (2003) tenta responder, com mais dados absurdos:

  • 25,4% dos homens admitiram na pesquisa ter usado, ao menos uma vez, violência física contra a parceira;
  • 17,2% usaram violência sexual;

(Nessa definição, inclui-se forçar a ter sexo, comparar a parceira com outras mulheres, ridicularizar o corpo ou desempenho sexual dela, chantageá-la ou pressioná-la psicologicamente para obter sexo.)

  • E 38,8% das mulheres sofreram abuso psicológico sofrendo insultos, humilhações ou ameaças, uma vez pelo menos, dos parceiros.

O que eles alegam?

“Ciúme”, “infidelidade”, “assuntos domésticos (criação dos filhos ou finanças da casa)”, ou simplesmente serem “importunados” pelas mulheres.

Em discussões em grupo, organizadas também pelo Noos, os motivos das agressões saem das planilhas e dos gráficos. Ganham voz, alteram-se, defendem-se, e dizem que, se forem fazer algo, farão “na moita”, “na casa dele ou na dela”. Seguem alguns relatos:

“Quando um homem perde o trabalho, […] as brigas [entre o casal] ficam mais intensas […],e o sujeito começa a perder a autoestima […], e as coisas simplesmente vão ficando cada vez piores”;
“[…] As mulheres têm a habilidade para modular o tom de voz… é como se a voz dela entrasse na sua cabeça… te futucando”;
“Se eu descobrir uma traição, vou lá e arranco os dentes dela. Mas isso vai ser na moita, na minha casa ou na dela. Não vou dar bandeira de corno na rua” [faz gesto de soco];
“Eu vou ser honesto: […] eu a sacudi algumas vezes. Mas eu não acho isso certo”;

Por último, a resposta que parece ser a síntese dos agressores:

“[…] às vezes simplesmente não tem nenhum modo para evitar isto”.

…não tem nenhum modo para evitar isto…

Não tem?

Elas chegam…

— Eu quero fazer uma pergunta pra quem tá rindo: você tem mãe? Você tem irmã?… Uma em cada cinco mulheres já sofreu alguma agressão sexual, de qualquer natureza. Mão na bunda, no ônibus, é agressão. Levantar a saia d’uma pessoa sem o consentimento dela é agressão. Todo mundo — que eu saiba — saiu de dentro de um útero. Então, se você tem mãe, irmã, esposa ou filha; por favor, não ria. A gente tá falando coisa muito séria…

A Leoa esbraveja, todas escutam — e o homem treme (Crédito: Jefferson Fernandes)

A leoa rugiu bem forte! O homem calvo, de óculos, social e barrigudo, parou por um instante: viu que era com ele. Abaixou a cabeça, desviou o olhar, puxou conversa com um segurança e deu de ombros para se encorajar; não funcionou… Como antílope vendo nos olhos do felino o reflexo da própria morte, voltou ao edifício.

Não deu sequer meia risada enquanto as manifestantes estivessem lá — a leoa, principalmente: moça baixinha, negra, cabelo encaracolado curto e castanho-claro… Com o microfone empunhado, quase põe o prédio abaixo com o vozeirão colérico. A estrutura do pobre homem se abala, dá para ver nos olhos que não encaram a multidão — muito menos ela.

Depois de quarenta minutos de caminhada e barulheira, mais de dois quilômetros percorridos do metrô até ali, chegam ao Edifício Seculum, 3144, onde está o escritório Machado Meyer. São quase 18h. Querem pegar alguém do escritório indo embora. Farão mais barulho ainda, cobrarão respostas. O que houve na festa em que Viviane esteve? Por que não se lembrava de nada após apenas duas taças de champanhe? Alguém tem que falar.

São mais de setenta pessoas agora em meia-lua vedando a saída e entrada do prédio. Podem passar — se for por entre elas. Quem se arrisca?

… E fazem barulho

Agora que todos — mulheres e homens — estão fixos em frente ao prédio, o microfone passa de mão em mão.

— Agora que a gente chegou aqui, algumas pessoas se retiram do prédio com um sorrisinho no canto da boca. Tratando de forma irônica toda essa situação de violência. Então a minha proposta é a seguinte: se a gente tiver que gritar agora até perder a voz, a gente vai gritar! Por que nós não nos calaremos jamais! — (Aplausos e gritos de “uhuullll”) — diz uma.

“Se tem violência, contra a mulher, não é o mundo que a gente quer! Se tem violência contra, a mulher, não é o mundo que a gente quer!”, gritam todas. E mudam o hino, chamando os que passam: “Vem, vem, vem pra rua vem, contra o estupro!”.

A garota alva, 24 anos, broxe roxo do Mulheres em Luta presa à camiseta e bandeira do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados) que carrega pra lá e pra cá; chamada pelas outras de “Tissiane”, pega o microfone, esbraveja:

— Nenhuma agressão ficará impune. Mulher não é saco de pancada, não é um buraco para os homens irem enfiando o que quiserem… (Crédito: Jefferson Ferreira)

Da sacada do Seculum, discretamente, a mão masculina portando uma filmadora portátil se esconde, de cócoras ou ajoelhado, por detrás de algumas plantas. A leoa percebe:

— Tem alguns companheiros ali em cima que tão filmando a gente, que tão observando; e eu espero, sinceramente, que eles — como nós — também se solidarizem e usem esse vídeo, esse material, pra conseguir que o caso da Viviane não seja esquecido.

(Crédito: Jefferson Ferreira)

A mão permanece ali até o final do ato, filmando tudo.

A lente capta o um minuto de silêncio pela morte de Viviane Alves. Tudo para. Todos os passarinhos não tecem pio. A leoa declina a cabeça e projeta o olhar aflitivo à calçada. O vento não sopra, também de luto. Quando o farol da Faria Lima fica acerejado, aí a calmaria é total; nem a respiração de pulmões arquejantes é ouvida. Todas morrem; como morreu a garota.

Com o farol esverdeando, o tempo continua estático. Por exatos setenta e cinco segundos, o mundo não é mais barulho… Tudo é triste; o silêncio no local, perfeito.

Crédito: Rafael Tavares

A reportagem — por conta do tamanho — será publicada semanalmente em partes (acesse a primeira parte aqui). Ela nasceu originalmente em 2013, mas — pela importância e urgência do tema — está sendo republicada.

Esse trabalho não teria sido possível sem a ajuda dos companheiros e amigos Jefferson Ferreira e Rafael Tavares (que fizeram vídeos e imagens que ilustrarão esta reportagem).