Ninguém foge ao destino

Zdzisław Beksiński

Enquanto fugia por entre as árvores, tentava desesperadamente olhar para o céu, pois as estrelas lhe serviriam de guia. O firmamento, entretanto, parecia nublar-se, negando-lhe orientação. Teria de enfrentar seu destino. Prosseguiu, sentindo o triscar veloz dos cipós da mata virgem nas grossas calças felpudas. Eis que, à frente, avistou o cintilar do que parecia não ser uma, mas várias tochas. Apressou mais ainda a corrida, mais rápido que um raio. As tochas pertenciam a diversos mercadores que, numa caravana perigosa, buscaram na floresta um atalho para diminuir os gastos com transporte. Subitamente, são atingidos por uma enorme bombarda que, explodindo-os por baixo, massacra os homens e animais presentes, com exceção do estranho homem de velocidade descomunal que, pressentindo o golpe, saltou em direção duma enorme rocha oval que havia nas proximidades. Ao observar a cena cruenta, viu pedaços de carne desossadas e outras partes corporais inteiramente mutiladas. “Morreram todos.”, pensou consigo. Ao fitar o meio da cratera, viu, além de pedaços de corpos estraçalhados, um cintilar de coloração azulada peculiar. A pequena centelha parecia materializar-se, atraindo para si os fluidos, carnes e ossos oriundos do massacre. O sobrevivente observava com atenção, já apertando com os dedos da mão esquerda o punho de sua longa espada de lâmina enegrecida.

Zdzisław Beksiński

A criatura, formada a partir dos resíduos banhados em sangue, tinha um aspecto terrível, cujo vulto traria desespero ao mais experiente dos guerreiros. Ela tinha a forma de uma criança e agia como uma sombra do passado, transbordando sangue diluído em corrupção. O homem perguntou à criatura o seu nome, mas, em vez de uma resposta, a criatura soltou um grito horrendo e metamorfoseou-se uma vez mais, aumentando de tamanho, crescendo em seus membros garras enormes e, em sua boca, grandes e pontudos dentes. Percebendo que haveria uma batalha, o homem puxou o ar — pútrido — aos pulmões e juntou coragem para enfrentar o espírito a quem havia negado amor e afeto num passado não muito distante.

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