Peregrīnātiō ad loca nefanda, pt. II

Após ter dado precisos cento e onze passos, formou-se à minha frente, como que um véu de poeira se dissipasse no ar, uma porta pétrea que, ao toque, parecia feita d’água. Meu espírito, sedento, quis beber da porta, pelo que senti-me compelido a traspassá-la. Fazendo-o, senti como se estivesse sendo fulminado por um potentíssimo raio; senti cada molécula do meu corpo vibrar violentamente. Acordei de pés, como se assim tivesse dormido. O sentimento de fulminação parecia ser antiquíssimo, quase imemorial. Lembro de, ao olhar para baixo, ver meus pés presos ao chão por cipós, lodo e imundície, como se ali tivesse estado por muitíssimo tempo, numa simbiose horrenda. Senti-me sujo, a barba coçava como se mil bichos tivessem-na tomado como moradia. Após o torpor, busquei — contradizendo a enorme dor que me cingia o pescoço — olhar ao redor. Eis o que vi: um vastíssimo jardim mortuário. Havia milhares de lápides, algumas chantadas e outras caídas. As primeiras — todas — tinham malignos vultos esculpidos que pareciam me fitar em meio à escuridão. Quando comecei a recobrar a vista, percebi que os vultos mexiam os lábios lentamente, mas eu não podia ouvir o que diziam: eu estava surdo! Ou foi o que pensei… Como numa sinfonia macabra que parte modestamente do silêncio à profusão dos ritmos, acompanhei, pouco a pouco, a evolução dos sons, conforme a audição me era devolvida. Conforme o som se tornava mais límpido, percebi que as lápides eram a origem dos murmúrios cansados que eu ouvira no corredor. Após desprender meus pés da sujidade que a mim havia se juntado, pus-me a caminhar por entre tão terríveis lajes tumulares e pude perceber que as faces falavam várias línguas: inglês, alemão, francês, português… E todas elas se lastimavam dolorosa, penosa e incessantemente; suas palavras eram banhadas em infindas lágrimas cruentas que tingiam as fundas bochechas e preenchiam do liquor escarlate os olhos de seus pétreos vultos frios.

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