Das incongruências de mentir para si

Nem sempre tudo tá tão ok quanto pode parecer.

Você superou aquela pessoa. Sim, é isso que você diz pra sua câmera frontal toda vida que vê uma notificação que poderia ser dela e abre a câmera mostrando sua cara meio deformada. Rapaz, você superou tanto aquela pessoa que fica difícil estabelecer uma escala de “superação” na sua cabeça porque você tá lá quebrando esse limite todo dia. Na real, você superou tanto aquela pessoa que fez a Sandra Bullock parecer meio desistente e preguiçosa em Gravidade.

Beleza que isso não te impede de acompanhar todos os tweets dela. Toda a instituição de “estar legal” passa por conviver digitalmente com aquela pessoa de maneira normal. Isso também não te impede de colocar o instagram pra te notificar toda vez que ela posta uma foto. Você pensa que “poxa, se ela não tiver legal e tranquila, eu também não vou conseguir estar”. Claro que com o tempo você começa a se perguntar se é normal estar olhando o tumblr, que ela parou de usar há três anos, pra ver se ela coloca alguma novidade dessa vida corrida. Mas lógico que é normal, por que não seria? Ela compartilhava uns gifs shows e umas fanfics que você até aprendeu a gostar.

Com o tempo você começa a perceber que talvez todo esse ritual de superar não tenha dado muito certo. Você começa a achar até legal murmurar a letra de “every breath you take” no escuro do seu quarto as três da manhã. Mas talvez a ficha só tenha caído entre o quarto e o quinto filme da maratona do Woody Allen. Aquela que você prometeu fazer depois de recusar sair pra um barzinho com seus amigos. Alguma coisa em “What Happens During Ejaculation?” fez você super se perguntar “o que eu tô fazendo com a minha vida?”, enquanto comia um doritos que tinha acabado de cair embaixo do sofá.

Certo, agora você sabe que nada tá ok. Mas sabe, pra que avisar pra todo mundo isso. Você espera que seus amigos percebam seu estado ao verem que você compartilhou memes niilistas às três da manhã em modo público. Mas sabe como é, as pessoas tão ocupadas, ninguém tem tempo pra reparar cada detalhe da vida do outro, você super entende e segue a vida. Daí você tá na balada dançando, não que você goste de baladas, mas você pensa que tá na hora de sair da zona de conforto do boteco/sofá e tentar algo novo. E o DJ começa a tocar “ela partiu” do tim maia e, de repente, toda essa convenção de segurar o álcool ingerido dentro do estômago não faz mais sentido pra o seu corpo. Você vomita. Você não sabe mais se a lágrima é porque a vodka arde mais saindo do que entrando ou se você realmente tava chorando. Você se recompõe, olha pra o amigo da frente e percebe que, na real, não era tim maia que tava tocando, era só um sample meio ruim do racionais mc. Você percebe que todo aquele vômito no cabelo da senhorita que você tava tentando conversar poderia ter sido evitado. Você definitivamente não tava ok. Você definitivamente não tinha superado.

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