A Arte de Pedir e a Patrulha da Fraude

“’Escreva o livro, Amanda, simples assim.’ (…) Então tá, vou escrever. E vou pôr TUDO nele. E aí todo mundo vai saber a verdadeira babacona que eu sou, por ter um marido escritor de sucesso que me bancou enquanto eu esperava o cheque compensar e escrevia o livro ridículo e egocêntrico de não ficção sobre como a gente deve conseguir aceitar ajuda de todo mundo.”

A Arte de Pedir é inicialmente uma palestra no TED, por Amanda Palmer. Quem é Amanda Palmer? Difícil responder. Ela é estátua viva, stripper, artista, pianista, cantora, indie, feminista, mulher do Neil Gaiman, companheira, amiga, sensível, tímida, cara-de-pau… ela é apaixonante. Sabe quando você quer muito conhecer alguém e virar amigo dessa pessoa? Então, depois de ler o livro e ver a palestra, eu quero muito ser amiga de Amanda Palmer.

“Pelo que vi, não é tanto o ato de pedir que trava a gente. É o que está por trás: o medo de ser vulnerável, o medo de ser rejeitado, o medo de parecer fraco ou carente. O medo de ser visto como um estorvo, e não como agente ativo da comunidade.”

Não vou mentir: amo livros de ficção e é extremamente difícil me ver lendo algo de não-ficção. Simples: gosto do extraordinário, gosto do surreal, amo fantasia. Aliás, não se engane com o título do livro: não tem nada a ver com auto ajuda. Pelo contrário.

Amanda Palmer nomeia algo que incomoda muita gente (inclusive eu): a Patrulha da Fraude. Sabe quando você quer muito fazer algo, mas acaba deixando de fazer porque acha que ninguém vai gostar, ninguém vai se interessar, ninguém tá nem aí? Então, olha aí a Patrulha da Fraude falando na sua mente! Com a Patrulha da Fraude em vista, você nem ao menos faz o que você queria fazer. Imagine PEDIR ajuda a alguém. Ou dinheiro. Ou um abraço.

“Se você amar as pessoas o suficiente, elas te darão tudo.”

Pedir uma caneta a um desconhecido no banco pra poder assinar algo é uma coisa. Agora quero ver pedir dinheiro, e nem precisa ser pra um desconhecido…pedir dinheiro pro seu amigo. Você pede assim, de boa? Amanda Palmer bota no papel todas as nossas angústias e inseguranças com relação à isso.

Mas claro que não é só isso. Aliás, acho que é uma leitura imprescindível pra artistas e criadores de conteúdo. Eu gosto de escrever, eu gosto de desenhar e eu trabalho como Designer. Sim, eu senti a maioria do que Amanda Palmer sente, as inseguranças dela são as minhas e tenho certeza que são de muitas outras pessoas também.

“É isso o que a arte faz. Boa ou ruim, ela imagina o interior, o coração do outro, esteja esse coração cheio de luz ou aprisionado pelas trevas.”

Eu senti várias coisas lendo o livro: eu ri, eu chorei, eu fiquei agoniada, chateada, irritada. Cada parte que Amanda conta de sua vida, nos faz refletir sobre alguma coisa. Amanda é extremamente sensível, e é incrível ler as passagens sobre seu trabalho como estátua viva. Nunca mais verei uma estátua viva com os mesmos olhos depois de ter lido esse livro.

“Creio que os seres humanos são essencialmente generosos, mas que nosso instinto de generosidade às vezes enguiça.”

Uma das melhores coisas sobre A Arte de Pedir é ver o significado das coisas para Amanda Palmer. Como assim? O livro e a palestra surgiram após uma campanha no Kickstarter que entrou para a história — ela pediu 100 mil e conseguiu um milhão. Foram 25 mil pessoas que confiaram nela, confiaram no trabalho dela, na amizade dela, na arte dela. E esse livro é um compilado de tudo que ela sentiu e tudo que aconteceu para chegar nesse um milhão no Kickstarter.

Vale a pena. Entrou praquela lista de favoritos da vida (é, eu tenho favoritos do ano, da adolescência, da infância e da vida) e, sim, ainda estou refletindo sobre tudo o que ela disse.

“A fama não constrói a confiança. Só a conexão constrói.”