Quero Minha Mãe, Adélia Prado

Minha vontade é sentar numa pedra e ficar quieta pelo resto da vida, não pentear nem os cabelos, errei tanto com filho, a realidade é horrorosa, não estou nem aguentando nada de nada. Entendo por que o Cirilo matou o cachorro da mulher a pontapé, entendo sim.

Quero Minha Mãe, de Adélia Prado, é uma narrativa “despedaçada”, como aqueles cadernos que usamos para escrever alguns pensamentos e guardamos na gaveta. Depois de dias, a gente se lembra dele, escreve mais alguma coisa e guarda novamente no mesmo lugar. Foi isto que percebi ao ler a obra.

Na primeira folha, somos impactados: Olímpia é diagnosticada com câncer e discorre sobre isto em pensamentos soltos. A cada página é como se fôssemos levados pelo inconsciente — que na verdade está bem consciente — da autora. Cada página, um rabisco. Na época de lançamento, Adélia estava prestes a completar 70 anos. Uma vida inteira de experiências posta em poucas folhas de papel.

A grande referência da autora durante a narrativa é, obviamente, a sua mãe. Num trecho, ela diz: “Estou me lembrando da minha mãe, morreu num mês de setembro, a três meses da minha formatura no ginásio, cercada de travesseiros, os lábios muito roxos, puxando o ar, minhas tias, meu pai, meus irmãos em volta”.

A história do livro — e a narrativa da autora — me fez lembrar de minha tia-avó. Ela se chamava Tainha, com o ‘a’ nasalizado, como em ‘são’. Morava sozinha, tinha dois gatos (o Chitãozinho e o Xororó), gostava de ler, mas nunca escrevia. Consigo imaginar Tainha falando que nem Olímpia, observando causos da vida, falando do câncer, das relações com as irmãs e pessoas próximas. Rezando as aves-marias, pedindo perdão a Deus por algum deslize e em seguida cometendo-o sem dó.

Precisamos de nossas mães. No meio da turbulência, nos dão um pedacinho de paz. Aquela paz que reconforta, faz lembrar um boa época da vida, que assopra o coração nervoso e acalenta nosso ser. No meio de tudo isto, Olímpia só queria sua mãe.