(Foto: Liz Dórea)

O segredo para subir uma ladeira

É não pensar sobre a penúria de se subir a ladeira.

Deito os cílios no chão e filmo meus passos com os olhos. Aposto que um close em meus cadarços imundos dariam uma sequência num filminho indie cult dos 90’s. Inclusive, há quanto tempo este all star branco não é mais branco? Por certo, não é sujidade de praia, nem tampouco mancha de março, porque mal assimilei que já se vai um quarto do ano e o verão tá fechando. É pau, é pedra, é cachorro, é manobrista, é asfalto tinindo, tá longe de ser fim do caminho e, apesar de Jobim, eu ando numa fase pouco bossa-nova da vida. Nem me venha com João Gilberto que não vai descer.

E antes fosse só isso o que não descesse, mas essa rua não cansa de subir e a reentrância dos meus dedinhos estão inflamadas. Quê? tem desespero, não, disso eu dou conta desde criança: minha mãe usava álcool iodado pra curar qualquer pedaço de carne bichada. É tiro e queda ou tiro, tiro, é tiro, melhor ir adiantando meu lado que essa cidade tá barril e eu tô na função de não ser surrupiada até 2020. Dois, zero, dois, zero, ano cabalístico, talvez os ventos tragam bons presságios astrais. Mas quem disse que tem ar soprando nessa porra? tô quase rasgando a roupa, queria nem ter mamas agora, parece que dói de tanto calor.

Se bem que eu ouvi dia desses: dor é sinal de vida e tomara que a minha seja longa. Inclusive, preciso achar um doutor que dê jeito em minha lombar. Continuo assim e acabo com uma visceroptose corcunda antes dos trinta. Mas largo logo desse pessimismo, a mente desarranjada é o mal do ser humano. Sem falar da guerra, do frio, do gênio, do amor, da loucura — e, dou fé, até da gravidade que me estropia a coluna nesta rua inclinada sabe-se lá de quantos graus: tudo não passa duma invenção de minha cabeça.

O segredo é não pensar sobre a penúria de se subir a ladeira.