Resenha | Felicidade Por Um Fio

Oi!

Quem diria, saindo um pouco de aspectos sombrios, sobrenaturais e que não existem, que estou trazendo um filme que é bem mais ligado às nossas vivências diárias, além de ser um assunto persistente na realidade de muitas pessoas (posso até dizer que por um tempo foi bem forte na minha).

Felicidade Por Um Fio (originalmente Nappily Ever After), é um filme estadunidense, com direção de Haifaa al-Mansour e produzido pela nossa querida Netflix. Por causa do nome diferenciado eu acabei dando uma pesquisada nessa diretora e, além de ser uma mulher (algo um pouco difícil de se encontrar no ramo de diretores), ela foi a primeira mulher Saudita a se tornar cineasta. Pontos que valem a pena serem ditos.

O filme conta a história de Violet, uma publicitária bem sucedida, admirada por mulheres e desejada pelos homens quando passa. Pelo menos é nisso que a narrativa se concentra inicialmente. Ele acaba mostrando como é bom ter uma vida perfeita, de certa forma dando razão a inveja que chega na vida de Violet, como se isso fosse algo a ser comemorado. Ela tem um namorado que é médico, o que também pode entrar nos padrões sociais no meio que ela vive. Mas não é exatamente em uma vida perfeita que tudo se concentra, mas no cabelo perfeito.

Um cabelo liso, no lugar, sem frizz e com os cuidados perfeitos é um dos sinônimos de que nada pode dar errado na vida de Violet. Não confunda esse filme com mais uma história que trata do câncer de alguém e termina com todos nós chorando pela superação do(a) protagonista. Mas uma história sobre transição capilar. Exatamente. E também não leve esse assunto como superficial porque é uma questão enraizada na sociedade, mas com raízes fortes e grossas. E Violet foi criada para mostrar que isso muitas vezes não é culpa nossa, mas de uma geração anterior, como é o caso de sua mãe, Paulette, que a ensinou desde pequena como é necessário alisar o cabelo, mostrando outro lado de uma problemática que é muito presente na nossa realidade atual: como crianças tem sido afetadas por pensamentos fúteis e se preocupam de forma exagerada com a sua aparência. Por esse e outros motivos a militância e luta contra preconceitos disseminados, principalmente na internet, é muito importante na nossa realidade. E por isso esse filme também é essencial.

Mas voltando para a produção. O trauma da infância de Violet acumulou com diversas futilidades e preconceitos diários, fazendo a mesma julgar outras mulheres com sua raiz cacheada e desenvolver propagandas machistas para a empresa que trabalha. E é mais ou menos por aí que sua vida começa a ir por água abaixo, afinal, perfeição não funciona muito bem. E é nos problemas que vão aparecendo que ela começa a se remodelar. Com um cabelo diferente nas fases que vão se apresentando no filme, Violet nos mostra várias faces do que diversas mulheres mundo afora enfrentam internamente com problemas que também são importantes, mesmo que não estejam ligados à desastres naturais ou crimes terríveis.

Mas é no ponto, na narrativa e na ideia principal do filme que a gente tem que focar muito. A transição capilar e todos esses produtos que vem surgindo para cacheadas é algo novo, algo que vem passando por cima do conceito social de que o cabelo não liso é ruim, é feio, não serve para ser bonito em sociedade. Existem inúmeros tipos capilares, cada um carregando sua forma de amor e cuidado e prontinho para mostrar sua forma, bonita em todos os aspectos.

O filme é, acima de tudo, um aprendizado. Violet entende em um período que eu diria até mesmo curto, o processo de autoaceitação, além de uma experiência social que abre seus horizontes e consegue mudar muitos pensamentos machistas que sempre rondavam sua cabeça. É quase como sair de uma bolha por meio de um alfinete que demorou de acertar.

Sua premissa normalmente chama a atenção de pessoas que já estão dentro da causa, passando pelas mesmas transformações e/ou simpatizantes do assunto, mas outra questão sensacional abordada é que a maior parte dos atores são negros, que também são os que mais passam pelos problemas de transição capilar. É muito difícil ver atores negros aparecendo nas telas, ainda mais protagonistas. Então Felicidade Por Um Fio consegue reunir tudo isso e um pouquinho mais.

Com problemas familiares, relações amorosas cheias de turbulências, problemas sociais diários, Felicidade Por Um Fio abraça sua temática e transforma a mesma em algo para todos pensarmos e refletirmos sobre. Por isso eu trouxe essa resenha tão desconectada do comum (mas eu que faço as leis por aqui). Então, se gostaram da resenha, tenho certeza que vão gostar do filme.

Até a próxima.