Amor e escolha

A internet, e a ascensão de várias tecnologias que vieram com ela, como blogs, Facebook, Whatsapp, Instagram, aplicativos como Happn e Tinder, startups de todos os tipos, cursos online, impressoras 3D, e tantas outras nos colocaram em um lugar único na historia da humanidade. Hoje, pessoas que tem acesso a essas tecnologias, tem a possibilidade de fazer quase tudo com suas vidas profissionais, pessoais e amorosas. Tudo está em aberto.

Tendemos a acreditar que isso é maravilhoso, afinal, quanto mais opções nos são apresentadas, mais liberdade teremos e, consequentemente, mais bem estar. Mas nesse TED, o autor Barry Schwartz apresenta, os dois principais efeitos negativos da quantidade infinita de escolhas.

  • Excesso de opções produz paralisia e não liberdade

Sim, com tantas opções nós não estamos tão livres assim, e muitas vezes nos vemos paralisados justamente porque não conseguimos escolher. Vivemos a tinderização da vida: hoje temos um catálogo de pessoas para escolhermos e, por outro lado, não queremos errar nem mesmo no molho da salada, imagina errarmos na escolha da pessoa que iremos nos relacionar? Com tantas escolhas, tendemos a adiar a escolha para amanhã, e o amanhã para depois de amanhã. Como consequência, hoje vemos várias pessoas em busca de relacionamento sério, com várias opções, mas incapazes de escolher e focar em suas escolhas.

Nem todos ficam paralisados, muitas pessoas conseguem sim tomar uma decisão, mas essas também sofrem os efeitos do excesso de escolhas ao se verem menos satisfeitos com o resultado delas. Segundo Schwartz isso acontece por duas razões, primeiro porque quanto mais opções temos, mais fácil se arrepender com qualquer coisa decepcionante nessa escolha. E ainda, graças a existência do que os economistas chamam de custo da oportunidade, damos menos valor aqueles que escolhemos uma vez que o valor que damos as coisas depende da comparação que fazemos. Quando temos muitas alternativas imaginamos tudo que estamos perdendo nas outras alternativas rejeitadas. Em relações isso fica muito óbvio na intolerância cada vez maior das pessoas em relação aos seus parceiros, em pessoas “pulando de galho em galho” atrás da escolha perfeita (que infelizmente não existe), e até mesmo na dificuldade de ceder e de abrir mão.

Paradoxo da escolha: como lidar?

Recentemente fiz algumas reflexões a respeito da importância de aprendermos a filtrar e priorizar as experiências que vivemos e as informações que consumimos a partir de uma prática recomendada no O Lugar. A partir das leituras e práticas recomendadas fiz uma associação de como aplicar isso para termos relações melhores mesmo diante do cenário apresentado.

  • Autoconhecimento

Parece óbvio que o primeiro passo para cogitarmos nos relacionar com qualquer pessoa seja nos conhecermos, mas a realidade é que na prática paramos pouco para nós observar. Muitas vezes somos atropelados pelos acontecimentos, entramos em situações simplesmente porque elas foram acontecendo, porque todo mundo falou que deveria ser assim, porque nossos grupos de amigos e familiares sempre fizeram daquela forma e assim deixamos que o piloto automático comande nossas vidas.

Por exemplo, parece senso comum para alguns grupos de pessoas que elas devem se casar, mas poucos param pra pensar que casamento não é obrigação e pode sim ser cortado do script. Sexo casual também não é para todos, alguns simplesmente não se sentem confortáveis e completos em relações sem compromisso, enquanto outros acham a experiência de transar com pessoas que talvez nunca mais vejam até mais excitante que transar com parceiros de longa data. Alguns não se sentem felizes em relações monogâmicas, outros não conseguem sequer pensar na ideia de se envolver com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Além de termos com clareza o modelo de relação que faz sentido pra nós, observo que muitas vezes nos envolvemos com pessoas que não tem nada a ver com o que esperamos de um parceiro ou que simplesmente não combinam conosco. Por isso, acredito que o primeiro passo para filtrarmos as pessoas que nos relacionamos é responder:

  • que tipo de relação faz sentido para mim nesse momento da minha vida?
  • o que eu espero de um parceiro?
  • Criação de critérios e prioridades

Uma vez que observamos a nós mesmos, é possível criar alguns critérios e prioridades que atendam as nossas necessidades. Na prática recomendada por Eduardo Pinheiro no O Lugar ele separou nossos níveis de atenção em 3: atenção relativamente dispersa, atenção relativamente focada e atenção focada com critério.

  • Quanto temos a atenção relativamente dispersa” nos sentimos livres para fazer qualquer coisa, mas estamos na realidade presos a hábitos e tendências arraigados. É o que acontece com muitos de nós quando entramos em relações com pessoas que não combinam conosco, que não buscam o mesmo que nós, ou simplesmente não entramos em relação nenhuma pela nossa incapacidade de focar.
  • Quando evoluímos para a “atenção relativamente focada” conseguimos até fazer escolhas focadas por um período específico de tempo, ou até que consigamos alcançar um objetivo, mas somos constantemente invadidos pela dispersão. Acredito que isso acontece com muitos daqueles que conseguem focar em uma pessoa até que consigam conquistá-la ou chegar a um objetivo de relacionamento sério, mas logo já se veem atordoadas com a insatisfação daquela escolha, muitos terminam, traem ou simplesmente não conseguem se ver felizes em suas relações.
  • Quando alcançamos a “atenção focada com critério” geramos uma série de critérios, que podem ser pequenos e temporários e outros mais importantes pra nós. Com o passar do tempo vamos criando uma disciplina de atenção cada vez maior, para filtrarmos o que nos acrescenta e o que não faz sentido para nós. Acredito que quando chegamos nesse nível, conseguimos não só sair da paralisia da dificuldade de escolha, como também fazer escolhas melhores, mais fundamentadas e por isso mais satisfatórias.

Dentro dessa perspectiva conseguimos criar minimamente um conjunto de critérios temporários e critérios mais importantes que nos ajudem a filtrar o tipo de pessoas e relações em que iremos nos envolver. Precisamos aprender que enquanto estamos com uma pessoa, estamos gastando um dos nossos recursos mais valiosos: nosso tempo e nossa atenção. E quando nos relacionamos com pessoas que não nos acrescentam, muitas vezes não só perdemos nosso tempo, como deturpamos nossas prioridades, sabotamos a nós mesmos.

  • Alternância de atitudes

Importante lembrar que em nossos caminhos amorosos não devemos nos enrijecer e por isso é interessante focar sim nos nossos critérios, mas nada nos impede de alternarmos atitudes mais relaxadas com atitudes mais focadas.

A verdade é que não conseguimos manter nossa atenção focada por mais de 3 segundos, o déficit de atenção nunca foi tão alto, e por isso não devemos esperar encontrar estabilidade nem em nós mesmos. Nós não somos seres estáticos, as pessoas ao nosso redor não são estáticas e nossos encontros amorosos também seguem essa fluidez.

Gosto muito da fala do mestre budista Dzongsar Rinpoche:

“Em relacionamentos não se tem muita escolha, quando eles vêm, eles vêm. Nós não temos controle, então o importante sobre relacionamentos é não ter muitas expectativas. Muitas vezes temos expectativas fortes demais, negativas ou positivas, tais como “eu vou ter um relacionamento” ou “eu nunca terei um relacionamento” ou “esse relacionamento vai ser muito bom, ele é minha alma gêmea” ou “não, ele não é bom pra mim”. Expectativas e decisões fortes demais sempre arruinam os relacionamentos. Sua atitude deveria ser como de um hóspede que fez check in em um hotel, em breve os hóspedes irão embora separadamente, é algo temporário, se você tem essa atitude talvez lembre-se da preciosidade da relação.”

Em meio a essas reflexões, acredito que precisamos encontrar formas de nos conhecermos para que sejamos capazes de focar em parceiros e relações que fazem sentido para nós sem nos sentirmos angustiados com nossas escolhas. E ao mesmo tempo, que consigamos fazer isso sem nos tornar pesados e focados demais, com a certeza de que teremos momentos de relacionamentos e momentos de solitude. E ainda, com a clareza de que somos seres inacabados, que estaremos em constante transformação, assim como nossos próprios critérios e prioridades. E vocês? Como lidam com o paradoxo da escolha em suas vidas amorosas? Compartilhe conosco sua história!