Denise essencial

O incrível e provocador espetáculo // Extinção //de Denise Stoklos me fez embarcar numa viagem no tempo.

A primeira vez que vi Denise no palco foi em 1992 em // 500 Anos — Um Fax de Denise Stoklos Para Cristóvão Colombo // no Centro cultural São Paulo.
 Fiquei perplexa com o que ela fazia, como seu corpo se movia, era possível fazer tudo isso sozinha? 
 Em 1994 vi // Des-Medéia // e ali realmente percebi que Denise não estava aqui pra brincar, ela propunha algo, que eu na época estudante de teatro, não entendia muito bem , mas já estava completamente afetada.
 Em 1995 assisti //Amanhã Será Tarde, Depois de Amanhã Nem Existe // dessa vez tomei coragem, juntei meus trocados, e fui lá comprar um livro, pegar um autógrafo e dizer que ela era maravilhosa.

Vi ainda Mary Stuart, Carta ao pai e Vendo Gritos e Palavras.

Estou contando isso porque o espetáculo // Extinção // que fui ver hoje, comemora os 50 anos de carreira de Denise, eu disse de carreira! Bem, o espetáculo perpassa sua obra passando por vários espetáculos que assisti. Ela vai contando cronologicamente e RE-encenando ( !!) alguns de seus textos e inspirada no livro de Thomas Bernhard , fala de política, de lucidez, se autocrítica…
 Para alguém como eu, fã da mulher, atravessada há 25 anos por seu trabalho, sua força, sua clareza… bem, foi realmente um presente, muito raro rever textos de mais de 20 anos atrás com a mesma pessoa e SENTIR a volta no tempo, como se fosse a primeira vez , ser afetada por aquela ideia/sentimento, só que de novo.
 Denise escreve peça, dirige, atua, desenha a luz, escreve livro, romance, coreografa suas próprias peças. Denise faz mímica, pantomima, ocupa o palco como ninguém. Denise criou o Teatro Essencial. Denise já se apresentou em mais de 30 países e já fazia tudo isso há 25 anos atrás quando a conheci e ela já era uma consagrada marginal.

Essa viagem no tempo, como toda viagem, me fez lembrar de mim mesma. Vinte e nada anos, embasbacada olhando para aquela mulher contundente que fazia tudo aquilo, e era BOM ! era mais que bom era impactante demais. Lembrei de mim mesma me perguntando PODE? Pode uma mulher fazer tudo isso? e de Denise me respondendo a cada espetáculo que eu assistia, que sim, Mulher PODE! 
 Foi naquela época que me deu vontade de viajar, de descobrir novos mundos, mas não foi vontade pouca, estava obcecada , Denise tinha me dito que podia. E fui. 14 anos indo de país em país. Pode? Pode. 14 anos sem rever Denise no palco. Rever hoje foi como sempre avassalador. Ela continua viva, pulsante, provocadora, crítica, frágil, doce, selvagem. 
 E a vontade nunca mais foi embora de mim. 
 Obrigada Denise por ter me dito que eu também podia através do seu trabalho.