A criatividade está onde você insere o seu esforço

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“A criação de algo novo é consumado pelo intelecto, mas despertado pelo instinto de uma necessidade pessoal. A mente criativa, age sobre algo que ela ama.”
Carl Jung

É muito comum falar em criatividade como algo a ser desenvolvido, como se vê nas listas de “10 dicas para ser mais criativo” por aí. Porém, criatividade é algo muito mais fluído e natural do que se imagina e estará sempre presente na sua vida, quer você queira ou não.

Da obra de arte até o menor nível de pensamento, ela se faz ativa como uma das habilidades intrínsecas ao ser humano.

Inclusive há estudos de que até nos estágios mais profundos de coma, há sinais de atividade cerebral conscientes tidos como criação de pensamento. Ou seja, no final das contas, você é criativo até sem perceber, já que essa é uma das exigências básicas da sobrevivência.

O Homem nunca teria evoluído de uma vida selvagem caso não tivesse usado a criatividade para caçar, plantar, construir e viver em sociedade.

Até hoje, ser criativo é uma das principais saídas especialmente para sobreviver na “selva social”, seja para puxar assunto com uma pessoa estranha, vender uma ideia para um chefe/cliente ou mesmo para fazer uma postagem online.

Ninguém nasceu para ser 100% inerte neste plano. Mas então qual a diferença entre os momentos em que você se sente brilhantemente inspirado e outros em que se vê tomado pela inércia intelectual?

Primeiro, é preciso entender que a falta de controle sobre a sua imaginação, a coloca contra você. Ou seja, ter imaginação a seu dispor não significa fazer bom uso deste recurso. É o resultado da falta de autoconhecimento, que te impede de direcionar energia na direção certa.

Uma espécie de armadilha na qual a maioria dos seres humanos acabam caindo de vez em quando, ou pior, suas vidas inteiras.

As pessoas acordam cedo, trabalham, estudam e se esforçam o tempo todo, mas sempre sentem se debatendo sem sair do lugar. Não se veem como produtivas ou fazendo a diferença no mundo, nem mesmo no seu próprio.

No máximo conseguem ocupar a cabeça em um trabalho que se pudessem, nem teriam escolhido.

Por muitas vezes me vi presa nesse dilema que até hoje me persegue. A diferença é que pela primeira vez na minha vida, parece que estou começando a entender que ser criativo é um dos direitos mais básicos do ser humano, no processo de construção da sua identidade e até de seu papel social.

Infelizmente um direito subestimado e esquecido, porque precisamos comer e pagar as contas não é mesmo? Na verdade, a gente se sente até um pouco culpado parando para fazer algo que talvez faça mais sentido no lado pessoal.

Agora a pergunta que sempre paira no ar é: a que custo?

A que custo esta fonte está sendo bloqueada e a que custo você deixa eternamente seus projetos e ideias de lado para viver apenas em torno da manutenção da sua sobrevivência?

Não raro o preço a ser pago é através da sua saúde emocional, psicológica e até física.

Foi o que aconteceu comigo.

Apesar de sempre ter sido elogiada como uma pessoa muito criativa, raramente me via usando esta habilidade a meu favor. Resultado? Uma série de problemas que tentei suprimir com remédios até que surgissem os próximos e assim por diante, me auto confortando constantemente porque “a vida é assim mesmo” e ninguém tem tempo pra nada.

Isso até eu perceber que o que mais me prejudica não são as coisas que me atingem, mas especialmente aquelas que eu deixo de liberar.

Você olha para o lado e vê o quanto está (quase) todo mundo insatisfeito. A criatividade genuína, aquela de corpo e alma, de entrega pura, está completamente deslocada em um âmbito geral. Na superfície tudo bem, mas qualquer conversa mais profunda começa a revelar sonhos e arrependimentos por não ter tentando o bastante.

O que acontece é que a não ser que exista sintonia e conexão com as suas tarefas, você sempre terá a percepção de um não-criativo. O que não quer dizer que você não tenha criatividade ou não a está usando de fato. Talvez, ela só esteja escorrendo pelo ralo em torno de atividades que não te representam.

Onde está sua energia?

A criação depende muito de energia pessoal direcionada, porém ter energia não é bem uma escolha. A energia é algo que nos foi dada para decidir o que fazer com ela, nem que seja só dormir ou reclamar.

Leia-se energia como uma fórmula onde os principais elementos são tempo, foco e crenças. Se você a desperdiça em tarefas que não valoriza, não pense que sua criatividade não está ali de alguma forma. Nesse caso ela não é boa nem ruim por si só, apenas não está em sintonia com seus valores. Daí vem o tédio.

Quando ignorada, fica latente o aperto no coração que é sobreposto por vozes “racionais” no fundo da cabeça dizendo: “não vai dar em nada”.

Neste momento você percebe que até está criando soluções inéditas para outras pessoas, mas de onde não obtém um pingo de motivação. Pois é, ser útil não é o bastante.

Portanto, se você quer se sentir mais criativo, comece a perceber para onde está direcionando sua energia (em outras palavras, o que tem feito da sua vida?) e qual o nível de sintonia que sua rotina possui com quem você realmente é. Se a sintonia for nula ou muito baixa, pode ser a hora de rever suas prioridades, antes que isso te custe algo mais precioso, como a sua saúde ou até a própria identidade.

Quatro mitos de bloqueio

Ok, já sei que estou colocando minha atenção no lugar errado. Mas o que é possível fazer então?

Apesar de não existir fórmula mágica, comecei a reparar em alguns padrões de crenças que estavam bloqueando a mim e a outras pessoas através de medos relacionados à criação. Entender isso (ainda) não mudou minha vida mas está me ajudando, aos poucos, a expressar e fazer cada vez mais coisas que sejam do meu real interesse, e que acredito poder ajudar quem está nesse mesmo dilema também.

Os mitos são: o mito do resultado, o mito sobre ser original, o mito do gênio e o mito do romance.

Mito #1: resultado

Jens
“Se você quer ter uma vida feliz, comprometa-se com um objetivo, não com pessoas ou coisas”.
Albert Einstein

Se a criação é um processo de expressão pessoal, se quiser descobri-la é preciso focar 100% na ideia, antes de mais nada. Isso porque quando é tomada a decisão de “ok, agora vamos lá”, é normal começar a racionalizar o processo com perguntas sobre tempo, dinheiro, opiniões alheias, entre outras tantas. Mas esse é o caminho inverso, de fora para dentro, quando a primeira investigação deve ser totalmente interna.

Um exemplo disso está na história de uma das maiores empresas do mundo. O Google surgiu como um motor de buscas na internet para buscas universitárias, o que é algo com potencial genial mas não necessariamente muito ambicioso. Ou seja, seus fundadores Larry Page e Sergey Brin queriam fazer o projeto acontecer. A princípio, eles não tinham a menor ideia de como ganhariam dinheiro. Porém ao se tornar uma empresa que precisa gerar rendimentos, eles decidiram não seguir pelo caminho mais óbvio, que era inserir anúncios de banners no site, algo que seu maior concorrente na época, o Yahoo, estava fazendo.

A ideia sobre como o Google se tornaria rentável só veio depois, através de uma incubadora chamada IdealLab, com uma solução trazida pelo seu fundador Bill Gross.

Foi por lá que surgiu o criativo porém simples conceito do que hoje conhecemos como Google Adwords, em que os anunciantes pagariam por palavras-chave de acordo com a relevância que gostariam de ter no Google. Hoje o Google está muito além de ser apenas um motor de buscas mas sabemos que basicamente ele foi alavancado pelo Adwords, algo que surgiu só um tempo depois da ideia central do que antes era apenas um projeto universitário.

Esse é um ótimo exemplo de como o norte deve ser a ideia, e não o resultado — que geralmente é medido por pessoas (aprovação social) ou coisas (dinheiro e bens materiais).

Se Larry e Sergey tivessem começado se questionando sobre “que tipo de empresa podemos criar para ganhar dinheiro na internet agora?” é provável que algo muito menos interessante tivesse surgido. Até hoje, acredito que os melhores negócios são aqueles que colocam sua criação e propósito acima dos resultados, o que por incrível que pareça, são os que acabam com mais chances de trazer resultados.

É claro que se você for se dedicar em tempo integral à sua verdadeira criatividade, as perguntas racionais precisam surgir em algum momento. Esse só não é o primeiro passo! Elas irão fazer parte de um plano de ação com base na sua vontade e não determinar a rota.

Portanto, se permita não racionalizar demais pelo menos no começo. Simplesmente faça a pergunta: em quais atividades eu mais gostaria de inserir minha criatividade agora, independente de qualquer resultado?

Mito #2: seja original

“Nunca se compare com ninguém neste mundo. Caso o faça, entenda que você estará insultando a si mesmo.”
Bill Gates

Outra coisa que pode te impedir de colocar a mão na massa é a crença de não ter nada de novo ou original com o que contribuir, porque já fizeram de tudo. Bom, isso nunca poderá ser uma verdade a não ser que você aperte CTRL + C e CTRL+V, literalmente.

Antes de mais nada, pense em tudo que foi feito antes como um trampolim, pois é na lacuna das coisas que já existem, que se percebe o que está faltando. Criação é continuidade. Não há nada que se faça que não tenha ligação alguma com referências anteriores. O que é incrível porque mostra o quanto estamos interligados por meio de ideias. Afinal, mais importante do que a imortalidade do indivíduo ao deixar seu DNA no mundo por meio de suas obras, é a imortalidade que existe no processo de continuar os projetos uns dos outros.

No fim tudo se complementa, já que todos possuem algo original para acrescentar e ao mesmo tempo estão deixando-se influenciar também. O importante é ter em mente que ainda que você não traga uma novidade, sempre haverá uma maneira única de apresentar suas ideias ao mundo.

Então, não queira reinventar a roda. Ser original muitas vezes é sobre acrescentar detalhes ou otimizar processos, imprimindo suas características pessoais naquilo.

Mito #3: seja um gênio!

Magdiel Lopez
“O ingrediente crítico é tirar a bunda da cadeira e fazer alguma coisa. É simples assim. Muitas pessoas têm ideias, mas existem poucas que decidem fazer algo sobre elas agora mesmo. Não amanhã. Não na próxima semana. Mas agora. O verdadeiro empreendedor é quem faz, não um sonhador”.
Nolan Bushnell

O mito da genialidade se relaciona com a idealização excessiva a partir do que os outros estão fazendo.

Aliás, vale lembrar que quanto mais interessante você conseguir ser de forma simples, maior é o nível de criatividade. A graça é justamente essa: fazer muito com pouco. Não vamos confundir com técnica, que é outra coisa e aí sim será exigido tempo e treinamento para se adquirir.

Como aqui estamos falando só de criatividade, o simples pode funcionar mais do que o complexo!

Esse é o motivo pelo qual as pessoas estão compartilhando tantos memes na internet. Pelo menos em termos de impacto e viralização, não se pode negar que os memes são um belo exemplo de criatividade tecnicamente tosca, mas que funciona.

Muitas pessoas corajosas o suficiente para tentar ultrapassam pessoas geniais simplesmente porque tiveram a capacidade de ir lá e fazer de forma diferente. Só isso. Ou seja, não espere ser tecnicamente excelente para começar. A excelência vem com o tempo e nem sempre é a que tem o maior peso.

Mito #4: romance

Paul Fuentes
O sucesso geralmente atinge aqueles que estão muito ocupados para procurá-lo.
Henry David Thoreau

Acredito que tem sido criada uma forte cultura de romantização sobre fazer o que se gosta. É o que eu chamaria de efeito “nem quero”. Se-não-for-para-ser-o-próximo-Steve-Jobs-e-fundar-o-novo-Netflix,-viajando-enquanto-faço-Yoga-ao-por-do-sol…nem-quero.

De repente parece que para encontrar o seu caminho é preciso fazer algo grandioso. Mas a verdade é que romantizar demais suas paixões não traz motivação alguma, muito pelo contrário, só aumenta a frustração ao evidenciar uma enorme distância entre sua vida atual e os seus objetivos.

Acontece muito com as pessoas que focam no sucesso mais do que na tarefa em si. O que pode ser perigoso e te estimular a querer crescer a qualquer custo, te afastando (e muito) do seu propósito inicial.

A romantização também vem da crença de que existe “um formato” e uma delas é a de que você TEM que ser empreendedor. Hoje vende-se o empreendedorismo em cápsulas, como se fosse um remédio para curar sua doença de ser um subalterno CLT.

Aproveito para ressaltar aqui, que ser empreendedor é muito mais uma forma de enxergar o mundo, do que um modelo de trabalho em si. A boa notícia é que existem muitos formatos para expressar os seus talentos de forma empreendedora.

Significa que você está fadado a trabalhar para os outros eternamente? Não! Apenas que é preciso começar agora, com o que se tem em mãos. Ser empreendedor é antes de mais nada, tomar a responsabilidade da sua vida para si ao invés de deixar os outros escolherem tudo no seu lugar.

A gente sabe que muita gente depende de um emprego formal, seja ele qual for, e alimentar de forma irresponsável o sonho do empreendedorismo para pessoas que estão preocupadas em fechar o mês para pagar o aluguel pode ser meio ilusório.

A princípio o que a gente precisa mesmo, é aprender a pensar diferente, mesmo dentro de uma empresa. Aliás, uma coisa interessante sobre as empresas é que elas precisam gerar resultados e não funções. Cargos são só uma maneira de atingir resultados. É preciso investigar se as vezes você não possui um interesse em especial que não foi sugerido formalmente a você, porém que pode gerar bons resultados e ainda te alinhar mais com seus propósitos pessoais.

Ser empreendedor também é isso, se posicionar sobre o que você quer e precisa fazer, independente do lugar.

No mínimo seus gestores podem se espantar com a proatividade a ponto de te deixar começar a desenvolver projetos paralelos. Inclusive também foi algo que aconteceu comigo durante o início da minha carreira como produtora de conteúdo, pois acabei abraçando oportunidades aqui e ali dentro da empresa onde comecei. Acima de tudo, me posicionei quanto a esta função, mesmo a princípio não tendo sido contratada para tal. Também vi muitas pessoas testando e mudando de cargos e áreas nesse mesmo local.

Agora se você definitivamente não nasceu para o mundo corporativo, outro formato intermediário é o de famoso freelancer. Quando você é um freela você não é funcionário mas também não é chefe. Você é sua marca e sua empresa ao mesmo tempo, o que gera flexibilidade para se envolver em projetos, ter os seus próprios ou só alimentar sua imagem em torno das coisas que faz (até mesmo um projeto artístico).

A questão sobre se você vai começar a se desenvolver nas horas vagas, tentar uma transição de carreira interna, buscar outro emprego ou até tirar um tempo de tudo para fazer essa passagem ao fazer acontecer de forma independente, é algo que só você pode decidir e articular.

Ninguém está pedindo para jogar tudo para o alto e sim para inserir as coisas que te inspiram dentro de algum lugar no seu dia-a-dia, semana ou mês em forma de pequenos novos hábitos. As objeções sempre vão existir, mas quem não arrisca, não petisca não é?

O que vale, é entender que não existe um formato correto e também que as mudanças são gradativas. Sonhar alto não é pecado, mas comece com o que pode mudar hoje dentro da sua realidade. Não romantize demais tentando encontrar o Mark Zuckerberg ou a Lady Gaga que existe dentro de você. Isso é frustrante e não estimulante.

Idealizar ou romantizar é para aqueles que perseguem e priorizam o sucesso. Quem está focado no trabalho prefere fazer o pequeno e bem feito hoje do que apenas sonhar com seu futuro grandioso de amanhã.

O turning point

Depois de investigar se não está gastando energia com as tarefas erradas e não cair em mitos sobre pensar demais nos resultados, ser excessivamente original, genial ou ainda romantizar essa busca além da conta, uma hora a gente também tem que sair do lugar!

Sair da inércia é o ponto onde a maioria das pessoas encontram entraves para dizer que não é possível se alinhar com a própria criatividade e então continuam adiando seus projetos.

Para começar a mudar esse raciocínio, gosto de usar uma expressão em inglês: o turning point, que significa momento de virada. O turning point sempre surge em histórias de superação e vou explicar o motivo pelo qual você continua esperando por ele, mesmo sabendo que nunca vai acontecer.

Ok, pode soar até bonito quando por um insight ou presente divino, algo muda de repente. O cinema abusa muito deste recurso conhecido como plot twist, que são as viradas inesperadas feitas para deixar o enredo mais emocionante e agilizar a sequência de fatos.

Porém, esse tipo de pensamento fomentado pela cultura do entretenimento, mesmo que inconscientemente, nos faz acreditar que algo também vai acontecer com a gente do nada. É como esperar para sempre sua carta de Hogwarts.

É normal que coisas incríveis aconteçam nas ficções que a gente tanto admira, sem que os protagonistas tenham responsabilidade direta por elas. E por mais bem elaborada que seja a narrativa, muito do desenvolvimento gira em torno de marmeladas que de forma subconsciente nos fazem acreditar que as coisas boas vão nos atingir de repente, assim, sem muito esforço.

A verdade é que tirando um golpe de sorte ou outro, na maioria das vezes não acontece nada mesmo, a não que você se coloque proativamente em determinada direção.

É por esse motivo que sinceramente não acredito em mudanças bruscas, com altas chances de risco, mas sim em mudanças estratégicas.

Isso quer dizer que os turning points até existem na vida real, porém são consequência de uma série de atitudes menores, tomadas ao longo do tempo e não uma jogada de sorte. E já que o turning point é a quebra nos padrões habituais, quando você vivencia uma série deles (em escalas menores), esse vira o novo padrão e não mais o ponto de virada. É assim que a sua vida muda, por meio do hábito gerado com ações repetidas e consistentes, todas sub-divididas dentro da sua realidade em prazos que você mesmo pode determinar.

Um sonho escrito com um prazo, se torna uma meta. Uma meta dividida em passos se torna um plano. Um plano suportado por ações fazem seus sonhos se tornarem realidade.
Greg S. Reid

No fim das contas, só ao longo da jornada é que se percebe a escala do que foi conquistado. No começo realmente tudo é muito nebuloso, mas tudo bem! Aí é que está a adrenalina de tentar.

A criação, acima de tudo, não precisa de nada para acontecer, pois pode ser vista como um propósito em si mesma. Na pior das hipóteses, pelo menos você está se expressando e influenciando o ambiente ao redor de alguma forma, mesmo que em uma escala mínima. Acredite, é impossível não impactar NINGUÉM se você continuar produzindo e divulgando constantemente, aprimorando sempre seu trabalho, ainda que seja algo que você chame de hobbie.

Ninguém nasce pronto

Se tem alguém no mundo que serve de inspiração no sentido de evolução técnica e criativa, esse ser é Mike Winkelmann, aka Beeple. O designer gráfico ficou muito famoso por ter publicado uma nova arte digital por dia, durante 10 anos! O projeto que se chama Everyday, ainda continua em ação e começou com rascunhos de desenhos muito simples, no período que ele chama de Round One (cada ano é um round). Com o tempo, as artes progridem para incríveis técnicas em Cinema 4D de cair o queixo.

Os seus melhores trabalhos se espalharam pela internet quando o projeto completou 10 anos, mas é claro que me bateu a curiosidade sobre como eram as primeiras obras. Tive que vasculhar o site do cara e o resultado comparativo entre um dos primeiros e um dos últimos é esse que você vê abaixo, o que dispensa comentários! Sugiro inclusive dar uma olhada nessa evolução aqui.

Beeple — Abril de 2008 (Round One)
Beeple — Julho de 2016 (Round Ten)

Uma prova que o dom está diretamente ligado ao interesse e à dedicação e não é um simples talento nato. Obviamente, não podemos olhar esse tipo de postura e cair nos mitos já comentados sobre genialidade ou romantização, afinal ninguém precisa seguir o mesmo caminho que o dele!

O legal mesmo é perceber que o artista começou de um nível muito inferior comparado ao que se tornou, o que nos inspira a possibilidade de que é possível começar de qualquer ponto que seja sim. E que consistência e paciência precisam ser ressaltadas, especialmente em uma sociedade movida pelo imediatismo da internet e das redes sociais.

Eu sei que é difícil falar isso em uma sociedade que contém uma grande escala de níveis culturais e econômicos. E sim, pode ser mais fácil para quem tem mais, porém sempre é possível começar de algum lugar dentro do seu contexto pessoal.

Após esses 10 anos, ele ainda publicou uma mensagem inspiracional em seu Instagram, pouco diplomática, sobre a principal técnica que o ajudou a chegar onde chegou:

Beeple

Em busca do idioma perdido

Portanto, se reconectar com essa fonte interna e diminuir expectativas externas, é como um exercício diário que aos poucos tem o poder de retirar o rótulo de “impossível” daquelas suas ideias que esperam ansiosamente para ganhar vida.

Criar não é sobre pensar em soluções que possam se ajustar ao mundo, mas sim direcionar esforços para aquilo que já está dentro de você e que pode ajudar a mudá-lo, ainda que não pareça fazer muito sentido de início. Vem do puro sentimento e não da razão. Agir sobre as coisas que se ama, como disse Jung.

“Nos sonhos eu também falava aquela língua, a língua original, e tinha domínio sobre a natureza de tudo o que era real. No meu sonho , aquela era a língua do que é, e tudo o que fosse falado nela se tornava realidade, porque nada dito com ela pode ser mentira. A língua é o fundamento da construção de tudo. No meu sonho, eu usei esse idioma para curar os doentes e para voar; uma vez sonhei que tinha uma pousada à beira-mar, e para todo mundo que se hospedava lá eu dizia, naquela língua: “Sê inteiro”, e eles se tornavam inteiros, e não pessoas fragmentadas, não mais, porque eu havia falado a língua da criação.”
Neil Gaiman

A língua da criação, citada por Neil Gaiman, é a única pela qual todos os povos nunca deveriam deixar de se alfabetizar. É a língua original da nossa busca constante por auto-expressão e a prova de que você é uma peça central no processo de construção de novas realidades no mundo.

Quem sabe, a única chave que é capaz de abrir as portas do nosso protagonismo, para todos aqueles que não suportarem se sentir como eternos turistas observando um espaço alheio.