A vida apesar da (ou graças à) morte
Até a morte do meu pai, quando eu tinha 22 anos recém feitos, eu nunca havia perdido ninguém. Ninguém. Já adulta, eu havia pisado em um cemitério uma única vez antes. A morte era algo que só acontecia com outros. Então, minha primeira experiência foi justamente a perda do meu pai. E eu levei muito, muito, muito tempo para me organizar e situar o significado dessa perda no meu mundo, na minha vida. Hoje tenho a sensação de que apenas consegui fazer efetivamente o luto pela perda do meu pai quando a Lina nasceu.
Mais de 20 anos depois, portanto, agradeço que a minha filha, aos 4 anos e três meses sendo completados hoje, já entenda que a morte faz parte da vida. Lamento profundamente que o avô materno e a avó paterna ela conheça apenas das histórias e das fotos que contamos e mostramos a ela e me entristeço ao vê-la às vezes ainda chorar a perda da cachorrinha velhinha da minha mãe que ela viu morrer. Mas também vejo nessas ausências que ela já tem presentes uma maneira de entender que as perdas fazem parte da vida e que precisamos seguir vivendo apesar e, de certa forma, graças a elas.
E faz ainda mais sentido a semibronca que ela sempre dá no pai quando ele diz dramaticamente “eu não tenho mãe”:
— Claro que tem, só que ela agora tá no céu.