Do estranho medo de frustrar as crianças

Não consigo entender o uso de métodos exclusivos para praticar a inclusão

Acho muito estranha essa louvação às escolas que não fazem “dia dos pais” ou “dia das mães”, mas apenas o “dia da família”, para que as crianças sem um ou outro não se sintam excluídas. Isso é para ser inclusivo? A mim me parece mais uma necessidade de marcar posição, de se colocar como superior a quem se deixa levar por essas “mesquinhezas pequeno-burguesas”.

Depois que meu pai morreu, durante muitos anos eu tive raiva do dia dos pais. Eu já era adulta quando ele morreu e foi muito duro. Não consigo sequer imaginar como seria se eu tivesse 4, 5, 10 anos de idade. Enquanto queria mas não conseguia engravidar, eu tive raiva dos dias das mães, apesar de ter a minha ao meu lado, porque eu não podia comemorar a data com meu filho tão desejado. Mas eu nunca desejei que essas datas não existissem. Eu me isolava mentalmente do entorno, mas nunca me pareceu plausível privar todas as pessoas ao meu redor dessas comemorações. São datas comerciais? Ora, façamos nossos protesto contra isso não comprando presentes, não consumindo nesses dias, mas aproveitando para, como nos aniversários, dar um abraço apertado e passar um dia especial com os celebrados.

Pois na escola da Lina tem dia da família. E também dos pais. E das mães. E dos avós. E dias em que pais/parentes/adultos próximos das crianças podem ir à escola fazer atividades junto com a turminha. E assim as crianças vão entendendo que algumas não têm pai, outras não têm mãe, outras têm dois de cada, outras têm duas mães, outras não têm avós… As crianças vão aprendendo que somos todos diferentes, com histórias diferentes. E vão aprendendo a vencer frustrações. E a consolar os amigos que se sentem frustrados.

E eu acho lindo este processo de viver em sociedade e de aprender desde cedo que a vida é doída quando nosso pai não vai na festa do dia dos pais porque ele precisou trabalhar, não quis ir porque não dá bola para a gente ou não está mais neste planeta, mas também é linda quando podemos abraçar a avó mais do que presente ou mesmo aquela amiga mais velha da mamãe que nos considera como netos.

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