As mães da Passos da Criança

Adriana de Jesus

Adriana fala da filha Larissa com os olhos brilhantes. Dos cinco filhos que tem, a menina é a única que frequenta a Passos da Criança. As duas mais velhas já estão casadas e encaminhadas na vida. O menino de 17 anos mora com o pai em outro bairro da cidade. Sobra então a caçula, de apenas dois anos, e Larissa de onze.

Até quatro anos atrás era a vó da menina que cuidava dela quando a mãe estava fora — Adriana trabalha como diarista e não podia deixar a filha sozinha em casa no contraturno da escola. Foi pouco depois da vó falecer que Larissa entrou para a Passos — ela estava na lista de espera da associação na época — e desde então Adriana respira aliviada ao ver como o projeto ajudou sua filha.

De jeito simples, Adriana fala com gosto sobre o trabalho da Passos, engatilha uma lembrança na outra e vai desfiando as histórias. Ela conta como o pessoal de lá incentivou a Larissa a usar óculos — coisa que ela evitava porque a molecada da escola tirava sarro -, a fazer exercícios, comer salada; e até mesmo como eles arranjaram um psicólogo para conversar com a menina uma época que ela, do nada, começou a ficar meio quietinha, muito na dela. De gestos assim, Adriana faz questão de falar.

Como toda mãe que se preze, o maior medo dela é ver sua menina enchendo a cabeça de besteira. Seja hipnotizada em frente a TV, seja procurando algo para fazer pelas ruas. Por isso, ela confia Larissa aos cuidados da Passos, sem medo.

Adriana, que vive desde os dois anos de idade na Vila Torres, defende a importância das coisas simples. Ela percebe como um passeio em algum lugar diferente da cidade — como os que o projeto promove com frequência — um presente ou uma lembrancinha podem causar um efeito muito maior na cabeça de uma criança.

É uma oportunidade que ela não teve e que agora pode oferecer para a filha. Num lugar onde humildade e violência convivem lado a lado, são justamente os gestos singelos que ecoam mais fundo e fazem as crianças acreditarem no próprio futuro. Exemplo é Larissa, que até já pensa em ser professora.


Bruna Silva*

Bruna é mãe em dobro. Além dos três filhos biológicos, ela tem a guarda de mais dois cunhados, de 11 e 13 anos. As crianças precisaram de refúgio depois de terem sido abusadas sexualmente pelos pais dentro da própria casa. Em uma luta na Justiça, Bruna conseguiu o direito de cuidar dos pequenos e os agressores foram presos.

Mas a vitória trouxe dificuldades. A chegada de mais dois filhos foi um baque na vida de Bruna. Junto com a guarda, vieram mais despesas. Até o aluguel aumentou e a família teve que ser mudar para uma casa maior.

“Eu tive que me virar ‘dos avessos’. Tudo teve que ser improvisado”

Com mais gente para criar, ela procurou a ajuda da Passos da Criança. A associação, que já atendia os filhos biológicos de Bruna, deu prioridade ao caso dos irmãos, que passaram a frequentar o espaço diariamente. Lá, as crianças se apaixonaram pelos livros e têm apoio psicológico de profissionais voluntários.

Bruna não teve a mesma sorte na infância. Ela se criou na Vila Torres desde os dois anos de idade e diz que iniciativas de ajuda social, como a Passos da Criança, não existiam na região. Quando era pequena ajudava os pais em um depósito de material reciclável e recorda — com os olhos lacrimejando — como projetar uma carreira era impensável nos tempos de menina.

“ Eu vim de uma vida sofrida. (…) [Minha vida] Era na rua, passei por todo tipo de sofrimento”

Por isso, ela se orgulha de ver os filhos mais perto da educação que não pode ter. O trabalho feito na Passos da Criança dá perspectiva de uma vida profissional às suas crianças, que até já pensam nas formações universitárias.

“Um quer ser psicólogo, um fala que quer ser, outro já fala em ser médico… Uma das minhas filhas já tem na mente dela que vai ser educadora social para trabalhar nessa área [ONGs].”

Bruna conta que a maior recompensa é ver seus filhos de criação superando o trauma e conseguindo retornar à infância. A inocência de criança, arrancada pela violência, foi reconquistada através da solidariedade.

*Nome fictício, ela pediu para não ser identificada nem ter sua voz reproduzida


Gislaine Deise de Paula

Gislaine Deise de Paula não quer que seu filho tenha a rua como espaço de recreação. Ela já esteve em situação de rua e sabe que esse é um espaço hostil e inadequado para uma criança.

Morando com o marido e o filho caçula há 12 anos na Vila Torres, conta que é comum o preconceito contra quem vive no local. Mas a simplicidade e a generosidade de cada morador compensa os olhares tortos de quem não conhece a realidade do local.

O filho mais novo, hoje com 11 anos, é mencionado com graça. Gislaine vê toda a esperança de um futuro melhor para ele, uma vida cheia de possibilidades e escolhas.

Graças a mãe, o menino começou cedo a frequentar creches, escolas e o projeto Passos da Criança. A “hiperatividade” fez com que Gislaine o colocasse em um colégio integral. Resultado: aprendizagem em dobro.

Gislaine afirma que é comum os pais deixarem os filhos sozinhos e saírem para consumir droga. Ela não especifica quais; fala com aversão. No vila são recorrentes os casos de adultos que deixam suas crianças em casa e saem para a rua.

O passado é de culpa. Ela mesma, durante os primeiros meses de vida do filho, fez isso com o caçula. Mas, graças a ONG, contornou a situação. Oportunidade e poder de escolha agora é o que não falta.

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