EU TENHO MUITO AMOR GUARDADO

figueiredo
Aug 27, 2017 · 2 min read

O maior dos problemas de uma alma que não sabe como expressar seus sentimentos reside no acúmulo.

É como se tudo que não é dito ficasse guardado em um compartimento especial em algum canto do seu cérebro. Só que esse espaço não é ilimitado; na verdade, ele possui uma capacidade relativa, cujo número irá variar de pessoa para pessoa. Um ID único que cada cérebro interpreta, definindo a fronteira entre o que é suportável e o que não é.

Mas, aí vem um fato: o compartimento sempre enche. Pode demorar, mas vai acontecer. E esse é exatamente aquele momento no qual você olha e pensa: é isso, não dá mais.

O transbordar do compartimento se conforma em um aspecto facilmente reconhecido por todos como lágrimas. Elas caem do seu rosto durante minutos, ou talvez horas, dependendo da quantidade acumulada. O sentimento, na realidade, não é o de amor que estava guardado, mas sim o de frustração, como se alguma reação química tivesse ocorrido e alterado todas as propriedades da emoção.

Só que não acaba aí.

Como um tanque com água, transbordar não significa esvaziar. Ele vai continuar cheio, ainda que não esteja derramando. Assim, qualquer coisa que acontecer, qualquer novo conteúdo que for colocado no compartimento, vai ser motivo para ele transbordar novamente.

Com o tempo, o seu redor fica inundado, e você se sente como se estivesse cada vez mais perto de se afogar em um mar salgado de sentimentos reprimidos.

E isso, é claro, te sufoca. É terrivelmente agoniante.

A única forma de fugir dessa situação é quebrando o cubículo que isola suas emoções dos outros seres humanos. Muitas vezes, o material que o compõe é tão forte que você não imagina que vai conseguir. Às vezes, você até consegue abrir um pequeno buraco, mas ele não é profundo o suficiente para fazer os sentimentos vazarem para fora e te libertarem dessa prisão.

Só há uma saída, e ela é pautada na perseverança.

Eu estou presa no meu próprio cubículo e meu compartimento está constantemente transbordando.

Mais um pouco e eu morro afogada.

Mas eu não quero.

música como eu conto

um projeto que pretende reunir leitores e escritores de textos baseados (ou inspirados) em músicas específicas

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