Resistência e música: As Pastoras do Rosário cantam em orgulho a sua origem negra

Inspiradas por suas raízes africanas, mulheres subiram ao palco para apresentar releituras de Carolina Maria de Jesus

No sábado (24) aconteceu em São Paulo a apresentação do grupo As Pastoras do Rosário. Formado por mulheres negras, sexagenárias e de origem humilde, o grupo navega por suas raízes africanas e apresentam um estilo musical pouco explorado.

Diretamente do Museu Afro Brasil, As Pastoras do Rosário se apresentaram na semana do Dia da Consciência Negra, simbolizando com muito orgulho suas origens e promovendo sua comunidade.

Nascidas na Comunidade do Rosário dos Homens Pretos de Penha de França, as mulheres têm o dever de representar toda uma comunidade.

Formado por Majestade Sol, Marlei Madalena, Sandrinha do Rosário, Lara de Jesus, Neuza Lima, Dona Margarida, Wilma Silva e Carla Lopes, o grupo faz apresentações em espaços culturais.

Musicalmente, o repertório é composto por releituras de Carolina Maria de Jesus, assim como influências de congadas, sambas de roda e moçambiques. Sobre a escolha do repertório, Renato Gama, o diretor artístico, disse que o repertório é visceral. “Acho que o repertório que nos escolhe, a música que nos escolhe”.

A história do grupo começa nas rodas de samba organizadas na Comunidade do Rosário. Majestade Sol, comenta que a falta de um grupo feminino foi um dos motivos da criação. A junção das mulheres aconteceu por compartilharem o desejo de serem representadas e com isso, verem a comunidade e suas origens presentes nos palcos.

Mesmo estando nos palcos, elas vivem vidas comuns. Carla Lopes, a integrante mais nova, é Guarda Civil Metropolitana e em seu trabalho busca integrar a experiência dos palcos com sua rotina. Ela entende que cada uma das mulheres possui suas próprias batalhas e o fato de se juntarem e dedicarem tempo para transformar e entreter de forma consciente é um ato de resistência contra o racismo presente na sociedade. “O grupo é uma forma de resistência, visto que são oito mulheres negras. Mulheres que tem uma história e a gente carrega de uma forma ímpar. Fazer parte do grupo e somando mais uma conta, mais uma mulher negra, mais uma forma de resistência”.

Quando questionadas sobre o que o grupo representa em suas vidas, a resposta foi unânime: tudo! Além de parceiras nos palcos, elas dividem todos os momentos, como uma família.

Com orgulho de suas raízes humildes, elas entoam com orgulho a letra de O Pobre e o Rico, de Carolina Maria de Jesus. Na letra, elas cantam que as decisões do país são tomadas por pessoas de maior poder aquisitivo, enquanto os mais humildes somente aceitam.

“Pobre não envolve nos negócio da nação. Pobre não tem nada com o desorganização. Pobre e rico vence a batalha, na sua pátria rico ganha medalha, o seu nome ganha o espaço. Pobre não ganha nem uma divisa no braço”.

Marlei Madalena entende a importância do trabalho que fazem e o legado deixado para as próximas gerações. “É inexplicável como a gente sente isso, o prazer de passar essa energia e deixando que a é a única herança que a gente tem. Deixando para os meus filhos, os meus netos, porque não há dinheiro que pague educação sobre nossa cultura, nossa ancestralidade. Ensinar aos meus e aos próximos e poder passar para quem não sabe como se leva uma negritude, uma ancestralidade. E quando as pessoas chegam para agradecer, porque elas sentem as mensagens”.

Além dos vocais poderosos, o grupo encanta pela vestimenta de origem africana, com turbantes e colares enfatizando suas raízes e o orgulho que sentem ao passar isso ao público. “Eu conheci a minha bisavó que foi escrava e ela contava o que passou. E ela sempre passou duas coisas: força e alegria. E a nossa vestimenta o colorido para que nós possamos transmitir alegria de viver. Aqui está uma mulher que confia em seus orixás, em uma força maior”, disse Lara de Jesus.

O músico Renato Gama falou também sobre o racismo na sociedade e o crescimento do discurso de ódio, especialmente no momento político que estamos vivendo. “A importância de oito mulheres negras, presentes na periferia leste de São Paulo no momento atual é importante. Mas esse momento da barbárie, da opressão, ele não é atual, ele vem desde 1532. Quando o primeiro navio negreiro chega aqui, os portugueses já têm essa postura. A questão é que os brancos pobres estão sentindo o peso dessa mão pesada, mas não é atual. Essas mulheres já nasceram em condições ruins, condições onde o racismo impera. Então, elas só estão dando continuidade à resistência que já existe. Essa barbárie proposta, esse tipo de governo proposto, esse tipo de apresentar essa violência contra mulheres negras, homens negros, pessoas de baixa renda, isso já vem de muito tempo”.


Entre tantos pontos marcantes do show, menção honrosa para a dança de Dona Margarida. Ao som de “Preta que pano é esse?”, a senhora interage com um tecido e dá um show com o balanço do pano seguindo as batidas da música. A surpresa maior foi ao revelar que o tecido que ela exibiu com tanto orgulho possui um simbolismo ainda maior: Marielle Franco. Uma bandeira com o rosto da vereadora assassinada estava presa dentro do pano e foi revelada por Dona Margarida, recebendo aplausos aos gritos de “Marielle Presente!”.