A evolução do uso do iOS no iPad

No evento de lançamento do primeiro iPad, em 2010, Steve Jobs deixava claro o propósito do produto, antes mesmo de anunciar seu nome. Steve listou cada uma das funcionalidades que fariam com que o iPad preenchesse uma lacuna no mercado muito específica: um dispositivo que estaria entre o iPhone e o Macbook. O lançamento foi um sucesso, 300 mil unidades vendidas no primeiro dia. Porém, esse texto não trata de como vão as vendas de cada um dos segmentos da Apple, e sim de como cada um desses produtos é utilizado e impacta na vida do usuário final.

Keynote de lançamento do iPad (2010)

Porque a Apple escolheu o IOS como sistema operacional do iPad? Porque tender para um dos lados, se os tablets se encaixavam entre os smartphones e os notebooks? Esta deve ter sido uma decisão intensamente discutida no momento da concepção do produto. Alguns motivos orientaram a opção pelo iOS ao invés do MacOS. Dois destes motivos me parecem ter sido os mais relevantes: a afinidade com a interface touch; e o fato de que o iOS rodava melhor em um hardware menos potente.

A versão 4.2.1 do iOS, ainda bem diferente da versão atual, foi anunciada em abril de 2010, chegando ao iPad em novembro do mesmo ano. Em 2010, o iOS para iPad era praticamente idêntico ao que rodava no iPod Touch e no iPhone, ou seja, o iPad era “apenas um iPod Touch com uma tela enorme”. Desta forma, na primeira versão do iPad, não ficava tão evidente para o usuário médio o espaço entre o iPhone e o Macbook que a Apple queria tanto explorar. Consequentemente, este tipo de usuário não recebeu o iPad como “um novo produto muito interessante”, pareciam satisfeitos com o smartphone e o notebook.

O iOS 5.0, lançado em 2011, trazia a possibilidade de um iPad, assim como os outros dispositivos, serem livres de um computador, ou seja, não era mais obrigatória a conexão com o iTunes em momento algum da configuração. O lançamento do iPad 2 apenas melhorava a primeira versão, as maiores novidades eram as câmeras, a espessura e o peso do aparelho reduzidos.

Com o mercado de tablets mais maduro, o desenvolvimento de aplicativos começou a acompanhar a mudança. No iPad, o desenvolvedor iOS tinha a possibilidade de explorar uma tela bem maior do que a do iPhone, mesmo assim, durante algum tempo, o desenvolvimento ficou um pouco engessado, não víamos muitas interfaces diferentes para a nova tela, a maioria dos apps apenas ajustava a que já existia na tela menor. Além da interface, outro fator permanecia o mesmo: o usuário que usava o iPad ainda era alguém que veio do iPhone, o usuário médio (que em 2013 com a 3a geração de iPad começou a aderir ao mercado) ainda procurava os apps que tinha no iPhone, apps de produtividade e jogos tipicamente mobile, calendários, to-do lists, notas e afins.

Apesar de listar apenas Navegação na web, Email, Fotos, Videos, Músicas, Jogos e eBooks no anúncio do iPad, Steve Jobs reservou uma equipe de desenvolvimento, assim como grande parte do keynote, para a versão do iWork adaptado a interface touch. Porém, o que foi observado nos anos seguintes não foi muito positivo para essa equipe, o iWork para iOS não vinha nativamente instalado, e poucas pessoas utilizavam os aplicativos no iPad — o usuário médio preferiu permanecer com a interface que já estava confortável no MacOS.

Fonte: https://blogs.adobe.com/digitalmarketing/digital-marketing/are-mobile-app-users-more-loyal/

A partir de 2013, parecia que o iPad havia finalmente conquistado o seu espaço. Sempre liderando o mercado de tablets, o produto da Apple passou a ser um dispositivo complementar ao notebook para a maioria das pessoas. O mercado de desenvolvimento percebeu isso e rapidamente se adaptou, quase todo aplicativo web ganhou uma versão iOS, a App Store foi lotada de redes sociais e aplicativos inovadores das mais abrangentes categorias.

Desde então a Apple continuou com sua agenda de muitos lançamentos, todos os anos novas versões de iPhones, iPads, Macbooks e iMacs. Novos tamanhos de tela passaram a fazer parte desses lançamentos, chegou o tempo dos Phablets, os mais novos competidores para o iPad. Com a nova tendência de celulares com telas enormes, a Apple parece ter percebido que, novamente, o iPhone e o iPad estavam próximos demais.

fonte: http://www.zdnet.com/article/apple-tries-to-save-the-ipad-but-its-too-little-too-late/

Foi em 2015 que percebemos o primeiro indício de que algo havia mudado, o anúncio do iPad Pro apresentou uma nova forma de utilizarmos o iOS. No evento de anúncio, a Apple revelou também o iOS 9, que pela primeira vez, permitia mais de um aplicativo aberto ao mesmo tempo no IOS. A introdução do Split View apenas para iPad indicava que a Apple havia percebido a mudança na forma dos usuários interagirem com tablets e smartphones.

Fonte: ADOBE DIGITAL INDEX | Mobile Benchmark Report August 2015 (https://www.cmo.com/content/dam/CMO_Other/ADI/2015_Mobile_Benchmark/ADI_mobile_benchmark_report_2015.pdf)

O mercado de tablets estava passando por mudanças, os concorrentes da Apple saíram na frente, porém com outra abordagem. A Microsoft ao anunciar o Surface deixou clara a sua decisão de universalizar o Windows para todos seus dispositivos, e para isso adaptou o sistema, que era exclusivo de PCs, para plataformas touch.

De 2015 em diante vimos a Apple continuar com as mudanças no iOS para iPad, o IPad Pro veio acompanhado de anúncios de grandes empresas de software que estavam desenvolvendo finalmente uma versão decente para iOS. Microsoft, Adobe e Autodesk, viram algum potencial no iPad com hardware mais potente, acompanhado do Apple Pencil, que trouxe precisão no toque da tela, e do armazenamento em nuvem. A própria Apple atualizou o iWork e alguns outros apps como o Notas, para aproveitar ao máximo o novo hardware.

Kirk Koenigsbauer demonstra o novo MS Office para iPad no evento especial da Apple (2015)

Esses softwares portados devidamente para o iOS, permitiram que novos segmentos de usuários migrassem parte de seu trabalho para o tablet. Estudantes e artistas foram muito beneficiados pelo Microsoft Office e pelos apps da Adobe.

Fonte: https://blogs.adobe.com/creativecloud/adobes-creative-cloud-is-optimized-for-apples-ipad-pro/

Agora em 2017, no anúncio do iOS 11, observamos atualizações para o iPad que nos fazem assumir que Apple finalmente percebeu a forma com que o usuário utiliza o dispositivo. Especialmente três mudanças da nova versão deixaram essa intensão muito clara. A primeira delas foi a introdução do dock, que é um elemento de tela conhecido dos usuários de MacOS. O dock tem como função o acesso rápido aos apps que não estão em tela naquele momento, permitindo que o usuário alterne entre eles sem voltar para a tela inicial. Outra mudança, provavelmente a mais impactante delas, é a possibilidade de abrir os apps em janelas de diferentes tamanhos, permitindo que até 4 aplicativos ocupem a tela simultaneamente. Por último, temos a introdução do app “Files”, que finalmente adiciona ao iOS um explorador de arquivos.

Fonte: https://techcrunch.com/2017/06/26/ios-11-preview/

Essa atualização deixou claro para mim que será possível utilizar o iPad como principal dispositivo portátil. Me parece que a Apple está intencionalmente canibalizando o Macbook. Porém, esse não será o fim do MacOS, Tim Cook já deixou claro em algumas entrevistas que não haverá unificação dos dois sistemas operacionais. Talvez, os planos sejam manter o MacOS apenas nos iMacs, os recentes anúncios, de atualização no hardware, e do novo iMac Pro, podem indicar isso. O MacOS passaria então a focar em usuários que precisam de uma máquina mais potente, que trabalham com edição e renderização de mídia ou que querem jogar jogos mais pesados.

As crianças de hoje são introduzidas bem cedo ao mundo dos tablets, normalmente muito antes de serem apresentada ao mouse e teclado, a Apple pode estar pensando num futuro próximo, em que essa geração dê preferência a interfaces touch.

Fonte: Apple

Essa mudança tem um grande impacto no mercado de desenvolvimento iOS. Até recentemente, a tendência era adaptar aplicações web em formato de apps, era um mercado específico de apps de navegação, calendários, to-do lists, redes sociais e consumo de mídia. Com essa nova fase, é interessante que os desenvolvedores tenham novos olhos para a forma que o dispositivo é aproveitado, talvez seja a hora de dar espaço para software que antes era característico de desktops. Dessa forma o mercado não muda o foco, mas sim passa por uma expansão — o iOS, apesar de cada vez mais diferente no iPad, continua no iPhone.