Sim, eu migrei de moda pra tecnologia estudando online

A improvável história de alguém que não tem medo de mudar de idéia

Photo by Gustas Brazaitis on Unsplash

Desde criança, eu sempre soube qual carreira queria seguir e prestei o vestibular de uma única faculdade. Ao fim dos 4 anos cursando Design de Moda, minha paixão por essa forma de arte estava inflada e certa de que uma carreira brilhante me esperava. Eu só ignorava um ínfimo detalhe: adolescentes apaixonados por uma idéia raramente pesquisam sobre o mercado antes de persegui-la, e eu não fui diferente.

Meu jovem coração foi partido na colisão com a realidade. A cultura das empresas era radicalmente incompatível comigo e os processos nem remotamente honravam o intenso preparo artístico da faculdade. A única saída que vislumbrei era fazer meu próprio jogo com as minhas regras. Mesmo com pouca experiência, fundei a minha marca no terceiro ano de formada e me matriculei num MBA.

E por alguns anos sublimes, eu vivi o sonho. Trabalhando sozinha e com apoio financeiro familiar, ergui uma marca na internet com brand awareness decente e crescimento expressivo. A projeção otimista, no entanto, ignorava outra barreira que se erguia sorrateiramente: a implacável crise econômica. Nesse momento, percebi que o fato de meu trabalho depender apenas de mim era minha força e também minha fraqueza.

Eventualmente, minhas energias se esgotaram e eu não tinha mais forças pra lutar. Entrei em depressão e a crise me deixou patinando no limbo do break-even, sem o impulso necessário pra atravessá-lo. Meu fogo já havia se extinguido e eu me via novamente forçada a mudar ou sucumbir.

E como toda mudança difícil, essa decisão partiu de um lugar de dor, solidão e desesperança. No quarto ano de empresa, decidi desacelerar a operação até que chegasse o momento de desligar as máquinas.

Era hora de procurar um emprego.

A idéia de voltar a ser CLT me causava pânico e repulsa. Na minha experiência anterior, eu me sentira apenas mais uma operária batendo cartão sem jamais fazer algo que importasse, e concluíra prematuramente que trabalhar "pros outros" não era pra mim. Felizmente, eu logo descobriria que estava errada e que existe muito mais lá fora do que eu presumia.

Sem voltar pra moda, minha melhor aposta era procurar uma vaga de Assistente de E-commerce. Afinal, meu currículo contava com vários cursos na área, um MBA e quatro anos de experiência com meu próprio negócio. Mas eu também não queria seguir essa trilha a longo prazo; seria um trampolim pra outro plano maior. Dessa vez, eu faria o inverso: escolheria outra carreira com a cabeça, e não com o coração. (Spoiler: ela também encontra o caminho pra lá. ❤)

Analisei outras pessoas da minha idade. Quem tinha mais satisfação profissional? Qual mercado estava em crescimento e ofereceria mais oportunidades no futuro? A resposta óbvia era a área de tecnologia. E tudo começou a fazer sentido. Eu sempre fui uma nerd em todos os sentidos (eu sei, isso é um estereótipo, mas dá pra negar que há verdade nele?). Adorava estudar e aprender. Tive primeiro lugar no vestibular sem esforço. Aprendia qualquer software sozinha. Curtia games e jogava RPG. E, pelos relatos dos amigos da área — trabalho remoto, horários flexíveis, projetos empolgantes, comunidades colaborativas— , o fit cultural seria completo.

Faltava o principal: a tecnologia de fato, que me parecia um bicho de sete(centas) cabeças. Segundo o conselho do admirável Eduardo Shiota, que veio a se tornar meu mentor (❤), a designer em mim encontraria um rosto amigo no front-end. Como uma boa garota, assinei uma plataforma de EAD e comecei a devorar cursos de HTML e CSS. Avancei com medo e fascínio, tal como dançar com tubarões no fundo do mar. Descobri uma surpreendente aptidão e, se ainda não ficou óbvio, me apaixonei de novo.

Enquanto ainda trabalhava na minha loja virtual, separei uma hora por dia para estudar e uma hora para procurar emprego, seguidas à risca. Dentro de um mês, fui contratada como Assistente de E-commerce em uma agência. E é à Gendesigns que devo a ressurreição da minha crença no trabalho CLT. Cheguei sem saber o que esperar. Encontrei horários flexíveis, respeito à minha vida pessoal, gestores humanos e pessoas queridas. E foi aí que aconteceu.

Contrariando previsões, o lançamento do e-commerce que fui contratada pra cuidar atrasou muito. Haviam poucas tarefas para mim. E o meu futuro parça Douglas Figueiredo, único programador (e mais dedicado ao back-end), mencionou que o site institucional do cliente ainda não era responsivo. Sorte, dizem, é quando a oportunidade encontra o preparo.

O desafio me convocou e eu prontamente me candidatei. E, com sua ajuda e incentivo (❤), refizemos o site e viramos uma dupla ágil e eficaz. Logo ficou aparente que eu seria imediatamente mais útil como Desenvolvedora Front-end — e nossa, que coincidência, era tudo o que eu queria! Rufem os tambores, pedi aos gestores para mudar de cargo. E, em um gesto de confiança pelo qual serei eternamente grata, eles aceitaram.

Estava feito. Eu consegui! Tudo que eu precisava fazer, agora, era continuar estudando. E estudei. Um ano e meio depois, outra oportunidade incrível surgiu e vim trabalhar na fintech Magnetis. E descobri como é chegar em uma empresa de tecnologia sem nenhuma experiência com Git, pull requests, code reviews, pair programming, QA, deploy, staging, CI, builds, linters, leadtimer, Slack, Trello, Unix, TDD, NPM, Yarn, React. É aterrorizante. É a melhor coisa EVER.

E ainda que muitos afirmem que tenho aprendido muito rápido, eu vejo tudo isso acontecer em câmera lenta. Especialmente quando, em algum ponto dessa história, HTML e CSS se tornaram triviais e chegou a hora de aprender JavaScript. Programar não é fácil. Mas isso não quer dizer que não seja pra todo mundo. Eu não tive nenhuma formação voltada pro raciocínio lógico ou matemático; me declarava "de humanas" e números me davam pesadelos.

Se você, assim como eu, for assombrado pelo medo de falhar e seduzido pela acolhedora vontade de desistir, pode ter certeza: um dia, de repente, você vai fazer algo que ontem julgava impossível. E isso vai continuar acontecendo enquanto você continuar aprendendo. Esse é o melhor sentimento do mundo, e o movimento que ele catalisa me tornou mais confiante e resiliente.

Às vezes, nos inevitáveis intervalos entre uma superação e a outra, uma sádica vozinha interior questiona como eu estaria hoje se tivesse escolhido programação desde o início. Mas triunfo em saber que é por causa dessa louca jornada que valorizo as minhas conquistas. Só cheguei onde estou por causa dessa história — e aqui é exatamente onde quero estar.