A Motivação de Turandot

Mariana Klober
Apr 2, 2018 · 2 min read
Onde as paredes e o teto se encontram

Pensava tanto que se entediava ontem com o que aprendera anteontem.

Então, ontem, encontrava algo novo para aprender.

Ou dois algos. Três, até.

Isso, em tempos ativos. Hoje, os tempos eram outros.

Entediada por ter passado toda a manhã no ritmo incansável de Randot, sentou-se em sua cama quadrada de costas para ela. Virou-se para o canto onde as paredes encontram o teto, e o ficou admirando.

O canto acomodava três linhas.

São três linhas para um canto.

Como os três caras com quem costumava sair antes de ser esvaziada. Três caras que se uniam nela. Ela, o canto de encontro. Cada um deles, seus. Linhas individuais que convergiam e divergiam sem saber.

Sem precisar saber.

Sem se importar em saber.

Por que um não bastava?

Ela não se bastava. Poderiam ser quatro, onze, o mundo todo. Ela não se bastava e, portanto, tampouco bastavam os outros para ela. Eram três porque ela havia tentado o quarto — mas não deu conta, as linhas iriam se chocar.

Decidiu manter três. Parecia ser um bom número.

Assim como o suco verde, o café e a cerveja encaixam em momentos diferentes do dia, cada cara encaixava em uma situação que ela gostava de viver.

Um para cada momento, eram três os momentos. Era isso.

Ela se achava um tanto esperta por ter chegado a esse número.

Três era um bom número.

Até o dia em que deixou de ser.

Sem sinalizar com antecedência, entediou. Esvaziou completamente.

Ela não achava que esse dia iria chegar.

Inesperado, chegou. Espera aí. Não. Não pode.

Pode?

Como? E — mais importante — por quê?

Estava tudo em equilíbrio. Estava. Ela se sentia feliz.

Sentia?

Voltou de todas as saídas naqueles últimos dias com a sensação de que não sentia nada. A felicidade que outrora parecia ter tomado conta de cada momento, sumia. O sorriso grande estava lá. Mas era parecido com tantos dos elogios já recebidos.

Vazio.

Para onde foi?

Percebeu que a estrutura ainda estava lá, mas o conteúdo sumira.

Tão profundo foi o vazio, que se questionou.

Percebeu nunca ter havido conteúdo algum.

Por meio instante, lembrou da resposta da sua bisa sobre seu divórcio vanguardista: "Me diz, nega, como há de se separar o que nunca teve junto?".

Voltou. Olhou para a direita e para cima.

O canto onde as paredes encontram o teto ainda estava lá.

Concreto.

Estrutura e conteúdo.

Aquele ponto único dentro das três linhas era o que ela queria. Um canto que unisse tudo. Um só canto para todos os três momentos.

Uma pessoa.

Ela quis sentir de novo.

Mais que crua, raw

Passada e crua por dentro.

Mariana Klober

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just another you

Mais que crua, raw

Passada e crua por dentro.

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