Alô, Brownie?

O carioca Luiz Quinderé, fundador do Brownie do Luiz, começou a vender o doce aos 15 anos e hoje tem duas lojas próprias, marca presença em 300 pontos de venda entre Rio de Janeiro e São Paulo e fatura R$ 3,5 milhões por ano

Por Luiza Terpins // Fotos Franco Amendola

Tudo começou com um pedaço de papel. Foi nele que Luiz Quinderé, então com 15 anos, anotou a receita do brownie que experimentou na casa de uma amiga. De volta à sua, pediu que Vânia Silva, então empregada, fizesse o doce para levar de lanche na escola. A expectativa era simples: matar a fome entre uma aula e outra. Já a realidade foi um pouco diferente: um dia, viu dois de seus amigos discutirem por um pedaço. “Na hora, tive a ideia de levar alguns a mais para vender, assim ninguém passaria vontade”, conta ele. O que começou despretensiosa mente deu tão certo que, em pouco
tempo, para atender aos colegas, Luiz deixou de participar das peladas no recreio. Naquele momento, a história já parecia traçada: em vez de ser jogador de futebol profissional como desejava — ele já tinha passagens pelos times de base do Flamengo e do Botafogo –, sua grande jogada seria com o
Brownie do Luiz, empresa que hoje vende 50 mil doces por mês, faturou R$ 3,5 milhões no ano passado e espera crescer 20% em 2016. “Vender brownie é como vender felicidade. Percebo isso ao ver a reação das pessoas logo que dão a primeira mordida ”, diz Luiz, aos 26. Além do sabor original, de chocolate, o jovem também faz sucesso com os quadradinhos nas versões de creme de avelã, maracujá, doce de leite, limão e chocolate branco, que custam entre R$ 4,50 e R$ 6. O mais vendido, porém, tem outro formato:
é o Veneno da Lata, recipiente de achocolatado em pó recheado com as casquinhas das bordas do brownie que sobravam na fôrma. Disponível em dois tamanhos (R$ 18 e R$ 24), o produto representa 40% do faturamento da empresa.
“Além de ser um diferencial, conseguimos aproveitar duas coisas [as latas e as sobras] que iam para o lixo”, comemora Quinderé.

Mão na massa
Foi em 2005, na cozinha do apartamento onde morava com os pais e o irmão mais velho, na Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro, que a produção começou.
À frente do fogão estava a maranhense Vânia, 32, a Vaninha, contratada para cuidar da casa da família Quinderé e com quem dividia os lucros. “Ele sempre foi muito esforçado. Quando falou que venderia os brownies, sabia
que daria certo e topei o negócio”, conta ela, que, além de sócia, é
coordenadora de qualidade e produção da empresa.
A procura pelo doce do Luiz era tanta que chegou a incomodar a cantina do colégio onde estudava, a ponto de ser proibido de vender seu produto. “A saída foi fazer as entregas depois da aula, de bicicleta ou skate”, lembra. Quatro anos depois, Quinderé levou o brownie para a PUC, onde cursava administração de empresas. A passagem pela faculdade rendeu frutos para além das técnicas de como tocar seu empreendimento. “Lá , eu vendia muito mais”, diz. A essa altura, o apartamento da família nem parecia mais um
lar. Além do cheiro que tomava o espaço, a sala havia se transformado em área de embalagem e o corredor e o quarto de empregada, em estoque.
Nessa época, Luiz e Vânia faturavam de R$ 2 mil a R$ 3 mil por
mês, e o garoto fez um mochilão pela América Latina com o dinheiro arrecadado. “Eu não tinha gastos nem muitas responsabilidades, então aproveitava”, conta.

O que até então era um negócio informal começou a ficar sério em 2011, quando o jovem participou do programa Mais você, comandado por Ana Maria Braga, na Globo. No dia seguinte, recebeu pedidos de franquias, supermercados e até sondagens de investidores. “Não sabia o que fazer,
fiquei desesperado”, conta. Para atender à nova demanda que a TV trouxe — e para alívio de seus pais, a empresária Renata Quinderé e o músico Claudio Valente –, a solução foi deixar a cozinha de casa e aproveitar o espaço que havia na fábrica de tortas de uma amiga. Lá, a capacidade de produção de
brownies aumentou de 100 para 400 unidades por dia, o suficiente
apenas por um ano. “A gente precisava de um lugar nosso e que desse
para virar noites trabalhando em épocas como o Natal”, lembra. Com
R$ 60 mil emprestados da mãe — pagos no ano passado — e mais um dinheiro guardado, montou a própria fábrica no bairro de Laranjeiras.

Hora da virada
Na paralela, Quinderé sofria para passar de semestre na faculdade.
Mesmo montando uma empresa, a PUC exigia que ele fizesse um estágio. “Cheguei a reprovar na disciplina de gestão de pequenas empresas”, conta. Não deu outra: trancou o curso a um ano e meio do
término. “Hoje considero voltar.”
De toda a sua trajetória como jovem empresário, relatada em palestras, pelas quais cobra entre R$ 5 mil à R$ 10 mil, Luiz acredita que o capítulo da mudança — quando aprendeu a lidar com as exigências formais de abrir uma empresa — foi o de maior aprendizado. “Me deu o caminho das pedras para seguir”, conta ele, que, ao inaugurar a fábrica, em 2012, saiu na seção Decolagem da revista GOL como promessa de empreendedor. Na época, ele
comemorava a produção diária de 3 mil unidades e nem sequer imaginava
o que estava por vir. Quem conhece Luiz garante que, entre uma partida de futevôlei e uma roda de música com os amigos — ele toca violão e violino –, o garoto sempre teve talento para vender. “O Luizinho é compromissado e soube levar muito bem quando a venda dos brownies passou de um prazer
para algo profissional”, conta a atriz Cissa Guimarães, mãe de um dos
melhores amigos de Quinderé, Rafael Mascarenhas, morto em 2010.

Brownie is the new bolo
Essa frase, estampada em camisetas que seus funcionários usam nas lojas, dá a entender que o negócio cresceu. Hoje, fazem parte da sociedade, além dele e de Vânia, o marido dela, responsável pela produção, e três amigos de Luiz,
que tocam as áreas de comunicação, recursos humanos e jurídico.
“Não aceitei investimento porque gosto que as pessoas envolvidas trabalhem na empresa”, afirma.
Desde 2013, o Brownie do Luiz está instalado em uma fábrica de 600 metros quadrados na Praça da Bandeira, centro do Rio, onde trabalham cerca de 20 pessoas e são produzidas 12 toneladas de doce por mês. Já o espaço de
Laranjeiras se transformou na primeira loja da marca.
Há dois anos, a trupe abriu um ponto no Leblon e, em agosto passado,
inaugurou um quiosque no Shopping Niterói Plaza. O formato, que tem um custo menor, pode ganhar mais espaço no futuro.
“Muita gente pede para abrirmos em outros estados. Quem sabe um
dia”, cogita Luiz, que também não descarta trabalhar com franquias.

Enquanto isso não acontece, a empresa fatura com as revendas.
As latinhas e unidades do brownie estão presentes em 300 pontos, como o Theatro Municipal e a Casa Carandaí, no Rio de Janeiro, e o Eataly, na capital paulista.
“Entrar em São Paulo foi uma grande conquista. Há muitas opções gastronômicas na cidade, não sabia se seríamos bem-recebidos”, diz Quinderé. O grupo St. Marche, responsável pela ponte aérea do produto, não tem do que reclamar.
“É um dos itens que não podem faltar na loja. Vendemos cerca de 1.200 mil latas por mês, é um sucesso”, diz Claudia Gelpi, gerente de curadoria do St. Marche, Emporio Santa Maria e Eataly.
O irrequieto empresário não para de inventar. Quem visita as lojas encontra o Veneno do Alasca, sorvete de creme com pedaços de brownie; picolés e até cerveja, feita em parceria com a carioca Three Monkeys. “Não queria depender de um só produto e sofrer o que aconteceu com as marcas de frozen yogurt, que fecharam quando a moda passou”, garante o jovem.
“Oferecer outras opções é também uma forma de fidelizar os clientes que já curtem a marca.” Em breve, está previsto o lançamento de um brownie orgânico e vegano em parceria com a chef Bela Gil. “Levou dois anos para a gente acertar a receita. Eu poderia fazer o meu próprio brownie, mas quis me juntar ao Luiz pois, além de ser dono de um sucesso, tem uma história
superbacana”, diz Bela.
Para Luiz, aliás, sua trajetória é um dos ingredientes fundamentais da receita do doce. “Acho que a alma é o segredo do negócio, e não o contrário. Se o Luiz fosse um cara de 40 anos, talvez não tivesse dado tão certo.”

(publicada na edição 175 da revista da GOL)