Da ponte pra cá

Todos querem estar em San Francisco, na Califórnia. Localizada em uma linda baía, berço da contracultura e próxima ao Vale do Silício, capital mundial da inovação, é uma cidade sempre pulsante e que te chama para suas ruas, parques, museus e ótimos restaurantes

Por Luiza Terpins // Fotos André Klotz

Em sua primeira visita a San Francisco, a atriz Astrea Campbell-Cobb, 27 anos, que veio de Los Angeles para curtir um feriado, não se encantou tanto pela Golden Gate Bridge, principal ponto turístico da região, nem pelos famosos bondinhos, veículos antigos que surpreendem os turistas. “O que eu mais gostei foi que aqui quase não precisa de carro para se locomover. Dá para conhecer bastante coisa a pé, e a caminhada é uma delícia”, conta. Se você deseja explorar bem o destino, mais do que flores para colocar no cabelo, como eternizou o cantor norte americano Scott McKenzie na música “San Francisco (Be sure to wear flowers in your hair)”, de 1967, traga mesmo é um calçado confortável.

Além das várias atrações da cidade, outro fator que anima quem vem com pique para bater perna é o clima. As temperaturas são amenas quase o ano inteiro, com uma média de 17 graus. Raramente faz muito frio ou muito calor, mas, por conta do forte vento e do sol, pode acontecer de ter um pouco das duas sensações no mesmo dia. Nada que atrapalhe a viagem. Nesse caso, seu único problema vai ser na hora de decidir o que cairá melhor para uma pausa no passeio: café, vinho, ou logo uma cerveja?

A dúvida fica ainda maior se você estiver dando uma volta por Mission District, o bairro mais antigo da cidade — e, ultimamente, o mais descolado também. Por aqui não faltam opções do que fazer. A dica é chegar por volta das 11 horas, quando começa a ter mais movimento, e ir embora só no final do dia, depois de curtir um piquenique no Dolores Park, o parque favorito dos jovens. Aos fins de semana, o enorme gramado fica lotado de grupos de amigos que levam cangas, bolas, cachorros, e ficam aqui por horas.

“Eu sempre venho para o bairro quando não estou procurando por algo específico”, diz o engenheiro de tecnologia da informação Eric Tabora, 43, que passou um bom tempo olhando os discos da pequena loja de música Stranded Records e, por sugestão da reportagem, acabou levando o Nobody Can Live Forever, do Tim Maia, cantor que ele não conhecia. “É isso. Em Mission a gente sempre encontra coisas diferentes, é uma região cheia de cultura e personalidade”, diz.

No bairro, esqueça as lojas de departamento, grifes ou redes famosas (mas não se preocupe, se você fizer questão, elas estão todas na Union Square, o principal centro comercial de San Francisco). Basta uma caminhada despretensiosa por Valencia Street, a rua mais valorizada de Mission, para se deparar com cafés, restaurantes e outros estabelecimentos simpáticos. Caso da loja Curator, que vende roupas, acessórios feitos à mão e fanzines, e da livraria Dog Eared Books, especializada na literatura local e em revistas de arte, viagem e fotografia. “Nossa seleção é baseada tanto no que nós gostamos como no interesse de quem frequenta o Mission”, explica a vendedora Katie Tomzyns, 23.

Em geral, o público que circula no bairro é o pessoal de tecnologia que se mudou para a cidade para trabalhar no Vale do Silício, a cerca de 60 quilômetros de San Francisco, onde estão localizadas as sedes de empresas como Google e Facebook. “De uns cinco anos para cá, eles vêm tornando a região mais cool e sofisticada, bem diferente do que era no passado”, conta o professor John Cubbican, 33, que mora aqui há sete anos.

Ruas como 24th Street e Mission Street, onde não faltam restaurantes mexicanos e lojas em que itens com referências à artista Frida Kahlo são vendidos aos montes, mantém a origem predominantemente latina do bairro.

Saborosa

O bom de explorar a cidade a pé é que a consciência — e também a barriga, claro — não vão pesar tanto quando chegar a hora de comer. San Francisco é um ótimo destino para quem acredita que comer bem é um bom investimento. A proximidade com Napa Valley, região de vinícolas a 94 quilômetros, torna difícil, para não dizer impossível, encontrar um restaurante que não tenha boas opções de vinhos.

Se vier para Mission District no fim de semana, aproveite o disputado brunch do Foreign Cinema, servido aos sábados e domingos. O Organic Pop Tarts de blueberry (US$ 6,75) é uma delícia, e o lugar, supercharmoso. À noite, são projetados filmes clássicos na parede, então programe um jantar. Para a sobremesa, siga para a Bi-Rite, a sorveteria mais famosa de San Francisco. Localizada quase na esquina do Dolores Park, serve casquinhas (a partir de US$ 3,25) após longas filas, independentemente do tempo frio ou quente. “Já esperei 50 minutos aqui, mas sempre vale a pena. É o melhor sorvete, sem dúvidas”, diz o estudante Eden Hitzke, 14, que trouxe duas amigas francesas para experimentar. O que mais faz sucesso é o de caramelo salgado, mas há sabores curiosos, como o de pipoca doce e manjericão. “Conheço poucas cidades com tanta opção de restaurantes, e com gastronomia de vários países. Depois de vir para cá, a gente nem precisa viajar muito”, brinca a designer canadense Sheryll Haym, 24.

Volta ao mundo

Para os fãs de pizza, o Tony’s Pizza Napoletana é parada obrigatória. Uma das mais pedidas da casa é a apimentada New York (US$ 28), que leva pepperoni, calabresa e alho. Mas se você quer “viajar” para destinos mais distantes, a pedida é o The Slanted Door, vietnamita que serve, entre outros pratos, noodles deliciosos. Os ingredientes são tão frescos que o cardápio muda de acordo com os itens do dia. Ele fica dentro do Ferry Building, o famoso mercado municipal da cidade, onde, aliás, os amantes de gastronomia precisam se segurar para não gastar todo o dinheiro com os inúmeros tipos de azeites, cogumelos e utensílios de cozinha à venda. É bacana visitar o local às terças, quintas e sábados, quando, do lado de fora, acontece a Ferry Plaza Farmers Market, feira com frutas e verduras orgânicas que vêm de fazendas próximas. “Aqui deve ser a cidade dos Estados Unidos onde a cultura de alimentos orgânicos é a mais forte. O pessoal se preocupa bastante com saúde”, diz o agricultor Justin Outten, 35.

Uma das características mais legais de San Francisco é que, embora pequena, ela tem personalidade de cidade grande. Com apenas 845 mil habitantes, não chega nem perto de outras importantes metrópoles americanas — em Los Angeles, por exemplo, vivem cerca de 4 milhões –, mas também não deixa a desejar em atrações e modernidade. Muito disso por causa do Vale do Silício, que, além de atrair moradores vindos de diversos países, faz a cidade respirar tecnologia e inovação. O aplicativo Uber, por exemplo, nasceu aqui há sete anos. “É tão vibrante quanto Nova York e Londres, mas ao mesmo tempo tem muita natureza e espaço para se desconectar da correria”, diz o publicitário paulistano Alan Terpins, 41, que mora aqui há quatro anos e recorre ao Presidio National Park quando quer pedalar. “Vim para um ano sabático e não consegui mais voltar. É um destino com muita cultura e ótimo para oxigenar as ideias”, conta.

Ao caminhar pela cidade ainda é possível reviver um pouco de sua história. No bairro de Haight-Ashbury, por exemplo, onde o movimento de contracultura ganhou forças nos anos 60, não é difícil encontrar hippies que parecem saídos do festival de Woodstock. Essa época também continua viva na emblemática livraria City Lights, local que reunia artistas e intelectuais e hoje é parada obrigatória para quem deseja saber mais sobre a geração beat, que lançou escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg.

Explore

Outro programa cultural imperdível é uma visita ao SFMoMA. Reinaugurado em maio depois de três anos fechado para reforma, é o maior museu de arte moderna dos Estados Unidos, com sete andares. Entre as obras expostas, muitas delas pertencentes ao acervo da família Fisher, que possui uma das maiores coleções privadas de arte do mundo, há artistas de peso a exemplo de Andy Warhol e Picasso. Não deixe de baixar o aplicativo do museu, disponível gratuitamente para iOS, e ouvir os comentários sobre a mostra feitos pelo ator e comediante Kumail Nanjiani, da série da HBO Silicon Valley, o que garante boas risadas. Quem não tem iPhone pode alugar (a partir de US$ 3) um aparelho com fone de ouvido.

Quem é minimamente curioso ou está com crianças também deve ir ao Exploratorium, museu de ciências localizado no Pier 15, em Embarcadero. São várias atividades interativas que vão de ilusão de óptica a gravidade. “Gostei porque posso mexer nas coisas, e não apenas olhar”, diz a estudante Madeleine Huffsutter, 10.

Só no pedal

Há várias formas de se locomover por aqui. Se caminhar não for a sua atividade favorita, há um sistema de transporte eficiente. Com um chip de celular (US$ 30, na T-Mobile), você se conecta ao Google Maps, que aponta as melhores rotas para seu caminho. Além das várias linhas de ônibus, sempre pontuais, e dos abundantes motoristas de Uber, ainda há taxi, metrô e os bondinhos, que, mais do que meio de locomoção, são atrações turísticas. Dar uma volta em um deles custa US$ 7 e, para garantir um bom lugar, dê preferência do lado de fora, de onde se tem uma vista legal do passeio — é bom pegá-lo em uma das estações. A da Powell Street, em Union Square, chega a ter filas enormes.

Apesar de conhecida por suas ladeiras íngremes, San Francisco é uma das cidades mais bike friendly dos Estados Unidos. “Há muitos caminhos alternativos em ruas planas. Dá para chegar a qualquer lugar de bicicleta”, conta a empresária baiana Helena Sears, 55, que se mudou para cá há 35 anos. Ela e o marido são donos da Blazing Saddles Bike & Tours, agência de aluguel de bicicletas com nove lojas espalhadas pela cidade. O passeio mais procurado é o da Golden Gate Bridge, a famosa ponte que conecta San Francisco à pequena e charmosa Sausalito. Depois de fazer tanta coisa por aqui, é bem capaz que você até esqueça que ela, o maior símbolo da cidade, existe. Mas o programa é um clássico e vale a pena até para os mais avessos a pontos turísticos.

Para atravessá-la há duas maneiras: ir por conta própria, a US$ 32, ou participar de um passeio guiado, a US$ 55. Essa é uma boa opção para conhecer outros lugares com um guia, como o Palace of Fine Arts. Não esqueça o protetor solar. Pode não parecer, mas o sol queima sem dó.

São cerca de 13 quilômetros de pedalada, e não precisa ter fôlego de esportista para encarar. Além das várias paradas para fotos na ponte (é difícil se controlar na hora dos cliques), é possível alugar bicicletas elétricas. Na volta, pegue o ferry e fique do lado de fora para curtir a vista da cidade. De quebra, a embarcação passa bem perto de Alcatraz, famosa prisão de segurança máxima desativada e que hoje é um dos programas mais disputados de San Francisco. O problema é conseguir ingressos. Para garantir, compre com algumas semanas de antecedência em alcatrazislandtickets.com.

Um dia gostoso em San Francisco sempre acaba em happy hour, não importa se é segunda ou sexta-feira. Às 17 horas, com o fim do expediente, os bares e restaurantes descolados começam a encher de gente. Um dos mais badalados é o El Techo, em Mission, que ocupa a cobertura de um prédio. Ótimo lugar para ver, ser visto, e curtir algumas margaritas com guacamole.

Se quiser algo mais chique, o Roka Akor, restaurante asiático, lançou em julho o Cocktail Omakase, degustação temática de drinques a US$55 por pessoa. Este mês, o tema são os cinco elementos. O programa só serve cinco pessoas por noite, e é a chance de provar uma bebida exclusiva, que leva gin, vinho branco e sucos de cenoura e beterraba, que simbolizam a terra.

“San Francisco não é uma cidade para compras, mas sim para ter experiências”, diz a advogada Luma Nogueira, 28, que veio de Campinas passar férias. Ela ficou uma semana por aqui e garante que, mesmo depois de tantas atividades, o cansaço não bateu. “Mais do que uma viagem, parece que, durante sete dias, o que eu fiz aqui foi viver bem.”

(Matéria publicada na edição 175 da Revista da GOL)