David Evans reencarna alguns fantasmas

No mundo audiovisual há terríveis relações pais-filhos, algumas delas são assustadoras como em Mommie Dearest, outras são incomodas como a de Val e Jéssica (Que horas ela volta?), mas nenhuma extrapola tanto o externo e carrega tanto estigma quanto a de Horst Von Wächter e Niklas Frank com seus passados nazistas.

Inicialmente, Evans disserta junto de Philippe Sands (advogado dos direitos humanos e neto do holocausto) a busca por Horst e Niklas para contar suas lembranças como crianças do partido nazista, mas que ao decorrer das insistências de Von Wächter tudo se declara uma dura caçada por reconhecimento — do menos positivo possível. A partir desse ponto, logo no início do documentário, que se trava uma dura batalha de visões entre os dois, quando o filho do Governador da Galícia pelo Terceiro Reich, se recusa a exprimir uma imagem totalmente negativa do pai, Otto Von Wächter — ele exibe fotos e memórias de um pai honroso e fraterno que chegam a desrespeitar a memoria dos mortos.

Em contrapartida temos Nik, filho de Hans Frank, Governador-geral da Polônia, que não perde seus momentos de fala para destruir categoricamente a imagem de seu pai. Em diversos momentos ele deixa claro o forte desprezo e vergonha que sente, além de narrar uma mãe igualmente inescrupulosa e desumana.

A medida em que, temporalmente a historia é contada, Sands os leva para locais onde os três “personagens” se interseccionam. Em Nuremberg, Nik conta das últimas visitas ao pai enquanto Horst aponta que Otto foi protegido pelo Vaticano até o momento de sua morte precoce em 47. Mas é na atual Ucrânia que o documentário de Evans se dá por excelência — até então o interessante do vídeo era esta persona esquiva e as incessantes cenas desconfortáveis que sua relutância quanto a imagem do pai proporciona. Quando contam a narrativa de Sands; dos incêndios da Noite dos Cristais em 38; dos assassinatos de Lviv onde seus familiares pereceram junto a 3.500 judeus na tentativa de convocar alguma emoção do “amigo”, para flexionar suas visões falsamente positivas, o telespectador é agraciado com um simples “todo fato tem duas visões.”

A medida em que esse elefante branco vai se deslocando, entramos na Comemoração Anual da Divisão Waffen-SS da Galícia, “festa” criada por Otto Von Wächter, para homenagear os mortos alemães e ucranianos que batalharam na fronteira com a Polônia e a URSS; onde diversos moradores defendem os soldados nazistas, argumentado que estes os salvaram e defenderam suas terras. Em meio a esse descômodo, afinal Sands está ali o tempo todo, emerge um estranho orgulho de Horst, ao nível em que nos demais minutos do trabalho ele abandona os outros, chegando a cogitar a teoria de que Horst é, como sempre foi, conivente aos ideais de seu pai.

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