Tu é besta!

Esses dias me peguei pensando no Halley. O cometa. A última vez que ele passou perto da Terra, em 1986, eu tinha quatro anos. Não lembro de ter visto ele passar, mas lembro dos binóculos, da euforia do povo em casa, na TV; por alguns momentos, todos jogaram para escanteio o Plano Cruzado, a inflação, os fiscais do Sarney, e sonharam pegar carona naquela cauda. O que mais importava, acho, era a sensação de que seria uma experiência única: ainda estávamos pouco acostumados à perspectiva de um ano 2000, que dirá 2061, o ano da próxima aparição do Halley. Mas nós sabíamos que a maioria das pessoas dali não estaria viva para ver de novo aquele espetáculo. O cometa deu para a gente essa dimensão da existência. Naquele 9 de fevereiro, não lembro se eu sabia contar até os 79 anos que espero ter, se tudo der certo, no próximo periélio do Halley — é difícil ter a noção da passagem dos anos quando se viveu apenas 4.

No dia 11 de fevereiro de 2016, uma equipe de astrônomos detectou ínfimas oscilações em um “interferômetro a laser”, um sistema planejado e construído para isolar toda e qualquer interferência externa. Essa oscilação, cujo tamanho equivale a 0,0001 vezes o de um único próton, confirmou a existência das ondas gravitacionais previstas por Einstein, e mudou definitivamente a perspectiva que a ciência tem sobre a nossa presença no universo. Mas é difícil ter essa dimensão da existência quando se é apenas humano.

Mais ou menos na mesma época, em fevereiro, li uma entrevista de Suely Rolnik. Ela falava de Deleuze e Guattari, mas para mim falava do universo e da gente, de uma postura que é, no adjetivo neobaianístico, preci-necessária: “deixar-se afetar pelas forças das tormentas e buscar sustentar-se no estado de tensão que essa experiência provoca na imagem de si mesmo e do mundo até encontrar um lugar para eles”. E continua: “não é que o mundo como suposto ‘objeto’ influa sobre nós como supostos sujeitos; o mundo ‘vive’ em nosso corpo”.

Besta é tu, se não há outro mundo. E se lembro de tudo isso nesses dias de agosto, se coloco todas essas ideias no mesmo balaio, é porque é a época do ano em que as tais ondas gravitacionais batem mais forte, porque dois anos atrás, nesses mesmos dias, um Severo cometa passou desestabilizando a dimensão da existência e dizendo: tu é besta, tu é besta! Porque dois anos atrás, nesse dia, também nascia um pequeno cometinha Ian, que, mesmo sem ter ainda a noção da passagem dos anos, joga o corpo no mundo para botar na cabeça da gente o mistério do planeta.