Identidades Fluidas #CadernoOFuturodaModa

Somos um processo; estamos fluindo, tal como a sociedade. O self (eu) é uma mutação constante.
Descentralização dos meios de produção. Baixo custo das ferramentas de produção. Tecnologia sobrepondo o tempo ao espaço, com a massificação do conhecimento proporcionada pela internet.
Estimulados a mudar com rapidez e de forma imprevisível, alcançamos uma sensação de liberdade individual, uma autonomia frente às estruturas. Nos tornamos protagonistas da própria trajetória, na ocupação/trabalho, na educação, na construção do nosso estilo de vida.

A quantidade de estímulos, interações digitais e informação disponíveis ajudaram a desconstruir e remixar as narrativas identitárias do eu. Tudo isso nos permite falar de um self (eu) mutante, fluido, único.
Múltiplas identidades são colocadas à mostra. Corpos que não eram visibilizados são incluídos no sistema. É dentro da dissolução dos processos dos laços sociais que a moda se insere. Abrimos o ecossistema da moda para dar vazão ao ‘self pós-demográfico’.
SELF? MODA?
A moda seduz e faz do consumo e da expressão estética uma parte fundamental da constituição da identidade do sujeito hipermoderno. No conceito de hipermodernidade, moda é tratada não somente como um produto da sociedade de consumo, mas antes como instituição de construção social. Desempenha um papel que permite aos indivíduos construir, esculpir suas identidades.
O uso criativo da moda fortalece ou subverte as várias facetas do self. O corpo é uma literalização de tudo que necessitamos expressar: questões como gênero, raça, etnia, religião, status e ideologia.

“Moda é o mais falante dos fatos sociais” Daniel Roche
Moda não veste, expressa. É ato político, ferramenta narrativa. É o exercício experimental da liberdade. E como tal, é a forma pela qual nossas identidades dialogam e se superpõem, formando uma nova identidade única, fluida.
O corpo é o território. A roupa, o meio por onde o corpo fala. E a moda é a cultura que traz identidade ao território.
Driver 1: O mundo inteiro é um palco

A construção da identidade é um processo social no qual comunicamos ao mundo quem somos, a qual grupo social pertencemos ou queremos pertencer e a quais grupos não pertencemos.
Em busca de modelos, acompanhamos youtubers, blogueirxs, estilistas-celebridade, empreendedores-celebridade. O mundo inteiro é um palco e todos somos estrelas do nosso próprio show. Somos a história — ou as várias histórias — que criamos e contamos sobre nós mesmos. Falamos de múltiplas identidades, mas também de identidades que contam histórias múltiplas.
Comunidade de self(ie)s
O novo senso de individualidade vem entrelaçado com o outro. Precisamos dos likes, do espelho do outro para contar a nossa história. Elegemos nossas comunidades em uma nova e própria cultura de pertencimento, não mais definida apenas por parâmetros religiosos, geográficos, étnicos.
É a comunidade que fortalece o self, pois não existe um sujeito autônomo, individual, independente e livre.O crescimento de comunidades em torno de uma causa encoraja a organização entre diferentes esferas — pessoas, marcas, organizações — e vem abrindo espaços para a cocriação, o diálogo e a transformação. Comunidade significa cuidar.
- CASE:

A agência de modelos e produtora cultural nascida no bairro carioca de Jacarezinho há mais de 10 anos revela novos talentos para o mercado geral da moda.
Para seus produtores, não existe um padrão certo de estética e luta para que a beleza, criatividade e o talento da periferia carioca tenha espaço no mercado de trabalho. Trabalha com um casting de jovens periféricos e suburbanos, de todos os gêneros e personalidades.
Driver 2: Diversidade em foco
#disruptivoéonovonormal

Hiperindividualidade. A hipermodernidade trouxe a flexibilidade de escolher a filiação individual, ou de aderir a uma cultura, antes determinadas pelo nascimento ou local, pela família ou religião. Há um real deslocamento em relação ao destino social ao qual os indivíduos estavam fadados.
Historicamente, a luta pela imposição de uma única identidade trouxe o silenciamento de outros discursos. Mas agora minorias oprimidas que buscam igualdade de oportunidades e conquistas de direitos estão mais representadas do que nunca.
Moda sem gênero. Moda feminista. Moda negra. Moda étnica. As marcas pulam no barco e se apropriam do discurso. A moda é território de resistência. Nos EUA, um quinto de todos os millenials identifica-se como LGBTQ. Precisa dizer mais?
Protagonismo das margens/ Moda como resistência
As minorias estão chegando ao mainstream, dando visibilidade a corpos marginalizados, seus signos e símbolos. Uma nova geração de pessoas vem criando os próprios negócios com base em valores pessoais e promovendo com a moda a celebração de suas identidades oprimidas.
A reapropriação da identidade como reivindicação de lugar, de experiência, é uma das maneiras mais fortes de proclamar quem somos para o mundo. Práticas identitárias trouxeram sua fala — ou melhor dizendo, seu grito — para a moda. Busca-se representatividade, a autoridade da experiência. Por trás das marcas há alguém extremamente identificado com a causa: um alguém preto, um alguém mulher, um alguém trans, um alguém queer. Um alguém que sabe exatamente o propósito.
- CASE:

Think Eva é o braço de negócios da ONG feminista Think Olga. Liderado por 5 mulheres, propõe-se a ajudar grandes marcas e empresas a repensar o papel da mulher na publicidade para reduzir mensagens violentas, objetificação e sexismo nas campanhas. Com uma crença na profunda transformação que a comunicação pode exercer sobre o mercado e a sociedade, Eva conduz marcas na criação de um diálogo respeitoso, cuidadoso e honesto.
Driver 3: Fazedores a bordo — eu faço, eu visto

A cultura DIY (do it yourself, faça você mesmo) na moda é muito antiga. Recentemente o movimento maker impulsionou uma série de tendências e movimentos na moda: upcycling, cosewing, wearables, o fazer/consertar/customizar as próprias roupas em casa, o desenvolvimento das tecnologias vestíveis e o uso de impressoras 3D para produzir acessórios e roupas.
A cultura maker traz uma perspectiva de inovação de baixo pra cima, ressignificando um trabalho manual que durante muito tempo foi depreciado. O crescimento de comunidades em torno da cultura maker está resultando na democratização do estilo.
A prática dos fazedores é associada ao lowsumerism (baixo consumo). Do ponto de vista dos pequenos empreendedores de moda que criam seus negócios a partir do fazer, a cultura maker ajuda a expressar uma identidade única que não cabe em peças de produção em massa.
Open Source fashion: nascido para ser livre
O compartilhamento do conhecimento e do know how é um dos aspectos mais relevantes do DIY e faz parte do DNA da cultura maker. Pequenos produtores e grandes marcas de moda vêm adotando o conceito de open source (fonte aberta). A ideia é deixar o código, o modo de fazer explicado, reprodutível aos demais. Com suas modelagens e estampas disponíveis para download e replicação — e dando total transparência ao processo produtivo — estilistas e indústria se aproximam dos seus consumidores e os incluem no imaginário da marca.
- CASE:

Sediada em SP, uma biblioteca pública de modelagens dentro de um espaço físico preparado para a costura permite que todo mundo tenha a experiência de produzir suas próprias roupas, a partir de modelos doados por estilistas. O objetivo? Promover a autonomia e intervir na lógica da indústria da moda, retomando o conhecimento sobre a construção de uma roupa.
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Conclusão
No mundo permeado pela tecnologia e pela automação, onde a inovação tecnológica é exponencial, o self (indivíduo) se tornou território de inovação.
Somos plurais, múltiplos, fragmentados. Como parte do contexto em que vivemos, estamos mudando a forma como pensamos, como agimos, como nos vemos, como nos relacionamos, bem como nossos hábitos de consumo.
Trabalhamos agora para construir uma narrativa de mudança para um novo lugar. Estamos em transição. Estamos no processo de ressignificação do trabalho, das formas de educar, da maneira como consumimos e produzimos. Uma mudança de poder das instituições para o indivíduo que nos leva a um local de protagonismo, de ser único, de ser ao invés de ter.
Em tempos de identidades fluidas, a solidez deve se dar no indivíduo. Na cultura líquida, fortaleça o eu. Como self, expresse-se dentro de sua comunidade.
Proclame-se herói da sua própria jornada.
Em parceria com o Instituto C&A, estamos construindo o #CadernoOFuturodaModa. ‘Identidades Fluidas’ foi o segundo relatório dele. Acreditamos que todo conhecimento deve ser compartilhado, por isso, ele está disponível para download gratuito por aqui.
Em breve mais um novo relatório para integrar essa conversa.
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