Os filhos que queremos, e o que queremos dos nossos filhos

Dia desses, antes de ir para o mestrado, eu resolvi dar uma passada no Parque Lage para arrumar os pensamentos embaralhados…

Entre grávidas e gringos tirando suas fotos, e o vai e vem dos alunos da Escola de Artes Visuais, uma situação chamou a minha atenção. Vi uma garotinha muito fofa, aparentemente com seus 5 anos, visivelmente incomodada por ter que posar para as lentes de algum fotógrafo sob os olhos atentos da sua mãe, que ditava o figurino. “Vem, fulana! Agora você vai vestir a roupa da Elsa!”. “Filha, agora é a bailarina! Não, não falta muito não. Já tá acabando!” “Mas espera! Ainda tem o vestido vermelho do parabéns!”.

E a menina lá, sob o calor de um fim de inverno do inferno carioca, mais interessada no arco-íris que se formava quando o sol batia na água do chafariz, ou doida para correr entre aquelas árvores todas e se sentir uma “borboleta princesa na floresta encantada”, do que ficar lá posando…

Naquele momento, a vontade que eu tive foi de chegar para aquela mãe e falar: “Deixa a sua filha brincar! Esse lugar é maravilhoso! Deixa ela curtir!!”. Mas uma coisa que eu aprendi nos meus dois meses como mãe é que dar conselhos para mães — ainda mais desconhecidas — é um péssimo negócio. Então resolvi ficar quieta.

Não tenho nada contra fotografias de crianças ou bebês, tampouco contra aqueles que o fazem. Eu mesma conheço profissionais muito sérios e competentes que mandam muito bem. Mas esses profissionais fazem apenas o que os pais pedem. Só que muitas vezes, o que os pais querem, passa longe do que os filhos querem…

Meu bebê não fez ensaio de newborn, a última moda entre as mães da minha geração. E acho que dificilmente fará qualquer ensaio fotográfico ainda bebê. Talvez caso ele queira, já mais crescido. Eu, pessoalmente, não tenho essa vontade. Me contento com as fotos do celular e da minha máquina fotográfica velhinha… Desde a gravidez, dinheiro e tempo tornaram-se bens cada vez mais escassos, e eu optei por aplicar os meus em outras coisas, como uma vacina mais completa na rede particular, ou na leitura de um ou outro texto do mestrado entre uma troca de fraldas e uma soneca. Mas jamais julgarei quem o faz. Só não quero que me julguem por não fazer, como eu ouvi quando disse que não faria ensaio de grávida.

Mas, uma coisa ficou na minha cabeça… O que nós, pais, queremos dos nossos filhos? Bem, eu, mãe de um bebê de dois meses, por enquanto, quero que ele mame e durma bem, não fique doente, se desenvolva direitinho… Mas e depois? Como será? Até que ponto não expomos nossos filhos por pura vaidade nossa?

Meu marido e eu decidimos colocar o mínimo de fotos do nosso filho nas redes sociais. No começo eu super apoiava a ideia. Mas depois, fiquei muito tentada a postar. Afinal, ele está tão lindo, tão crescido, tão fofo… Então comecei a usar o Instagram, muito a contragosto do pai. Porém, meu Instagram é todo bloqueado e só tenho aquelas pessoas que eu convidaria para me visitarem na minha casa. E, verdade seja dita, postar é muito mais fácil quando, quase todos os dias, você recebe mensagens de amigos e familiares — inclusive que moram longe — querendo ver como o bebê está. Ainda assim, fico meio dividida…

Expor nossos filhos, contar para todo mundo suas proezas e se gabar por eles estarem se desenvolvendo mais rápido do que a média, é realmente o máximo! Será mesmo? Será que não estamos cobrando demais desses seres que não nasceram para nos fazer felizes, mas sim, para, acima de tudo, serem felizes por eles mesmos? Só que não necessariamente, a felicidade deles estará no que achamos que está a nossa…

Eu tenho uma tendência muito forte a cobrar. Cobro muito dos outros, mas cobro muito mais de mim mesma. No entanto, não quero cobrar do meu filho mais do que eu realmente devo… Não quero cobrar que ele seja perfeito, o aluno nota 10, a criança-modelo de comportamento, o mais bonito, o mais limpinho, o mais, o mais, o mais… Não quero. Mas sei que vou escorregar em alguns momentos… Por isso, acho importante refletir e me policiar.

Para não cobrar o que não devo, é fundamental que eu o conheça, entenda sua personalidade, mas também respeite sua individualidade. E que por mais que eu ensine e lhe transmita valores, muitas vezes, ele terá que ver por si mesmo. Infelizmente, o sofrimento é inevitável. Felizmente, o aprendizado, a cada experiência bem ou mal sucedida também! E eu terei que lidar com a minha frustração de não ter um filho do jeito que eu quis… Mas me permitir me surpreender e a admirá-lo por ele ser muito melhor! Por ele ser ele próprio!

E a menina? Bem… Uma hora e meia depois, o meu passeio acabou e eu segui para o mestrado. Já a menina continuava no seu ensaio… Naquele momento, reclamava de fome, enquanto a mãe pegava um biscoito qualquer da mochila e o fotógrafo esperava para continuar o seu trabalho.

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