Robôs já estão entre nós

É bem simples, quase rudimentar, mas é alguma coisa e é inédita por aqui — pelo menos entre os sites brasileiros que cobrem tecnologia: o Manual do Usuárioagora tem um robô. Clique aqui ou aponte o app do Messenger na imagem abaixo para conhecê-lo:

Esse robô não tem salário, não se cansa, trabalha até na madrugada de sábado e, fora um ou outro defeito, funciona. Parece bobo, mas assim é toda tecnologia incipiente que, mais adiante, se torna grande. No caso dos robôs, estamos atrasados. Eles já são grandes.

O robô do Manual do Usuário opera através do Facebook Messenger. Na última conferência para desenvolvedores da empresa, a F8, Mark Zuckerberg abriu a plataforma do Messenger para robôs, inteligências artificiais que “conversam” conosco em tempo real, sem intervenções humanas. O nosso robô meio que faz isso. Aceitando-o como a um contato ele passa a enviar os links de posts recém-publicados aqui no site e, dependendo do que você diz a ele, responde algumas coisas pré-programadas.

Uns podem dizer que se trata apenas de um sistema que notifica novos posts. É isso também. A parte mais impressionante, as respostas pré-programadas, são só uns conectivos lógicos do tipo condicional (“se isso, então aquilo”) em ação: cadastramos no robô algumas palavras-chave como “água”, “moto g” e “flogão”; ao identificá-las em alguma mensagem enviada pelos contatos humanos, ele busca a resposta e os desdobramentos criados previamente. Ou seja, é um robô bem estúpido — não importa se você escrever “odeio o moto g!!” ou “qual Moto G devo comprar?”, a resposta será a mesma. Mas, hey, é alguma coisa!

Robôs do cinema e robôs de verdade

Robôs do tipo que sempre vimos no cinema, dos maus como HAL 9000 aos adoráveis tipo WALL-E e Johnny 5; os que agora começam a aparecer na forma de produtos comerciais como a foca terapêutica Paro e o recém-anunciado Zenbo, da Asus (no vídeo a la Wes Anderson de um universo paralelo bizarro, acima); e as assistentes pessoais como a Siri, Cortana e Alexa são mais impressionantes do que o robô do Manual. São mágicos — até o momento em que eles se enrolam com uma frase simples ou se comportam de um jeito inesperado, esquisito ou nada humano. Essas inteligências artificiais têm a dura missão de servir de interface para pessoas que em grande parte não entendem o que está acontecendo e, pior que isso, elas se propõem a serem genéricas. A intenção de Apple, Asus, Microsoft e Amazon é que você converse com as assistentes virtuais como se falasse com um ser humano e, no estágio atual da tecnologia, “ser humano” é algo muito distante para um robô.

Esse primeiro contato contribui para uma mentalidade descrente, como se essa coisa de robôs fosse mesmo só plot para filme ficção científica ou algo experimental, quase uma brincadeira. Não é. Robôs já fazem muitas tarefas do dia a dia e são especialmente bons naquelas repetitivas e nas que seguem algum padrão. Não à toa que “ser humano” é difícil para eles; bem ou mal, a inconsistência e a capacidade de quebrar padrões são aspectos muito próprios, praticamente exclusivos das pessoas. Eles não chegaram aqui. Ainda.

O leque de atividades em que padrões inexistem ou são irrelevantes é pequeno. Prova disso é a profusão de robôs que já atuam. Existe, por exemplo, um robô gratuito criado por um programador de 19 anos que recorreu de multas de trânsito equivalentes a US$ 3 milhões nos Estados Unidos. Outro caso fácil são robôs que cuidam de investimentos financeiros — faça uma pesquisa por “robot trading” e veja a disputa acirrada que há pelas primeiras posições. Companhias de seguro empregam robôs para criar automaticamente as apólices confrontando o perfil do segurado com as médias e o histórico de toda a base de dados.

Essas três áreas são fundadas em padrões. Nesse contexto, entenda como “robô” um complexo sistema capaz de analisar uma situação contra todo um histórico e que é capaz de atualizar esse histórico continuamente e fazer projeções com base nele. Coisa que nós, humanos, também conseguimos, mas com uma capacidade muito limitada. Numa simplificação para fins didáticos, é como colocar alguém comum para fazer multiplicações de grandes números contra uma calculadora — a gente consegue, só demora muito mais que a calculadora. Ou para dirigir um carro.

Da mesma forma que muita gente usava a Internet sem saber há alguns anos (e ainda hoje), você talvez já esteja lidando com robôs e formas de inteligência artificial sem se dar conta.

Humanos vs. Robôs

Esse momento de transição para a inteligência artificial é, na realidade, o ponto de inflexão em que uma tecnologia segmentada e majoritariamente de bastidores se destaca e propõe a resolução de problemas mais genéricos e de maior exposição junto ao grande público. É desafiador, não será nada fácil e veremos muitas coisas risíveis pelos próximos anos. O robô do Manual do Usuário é um exemplo nesse sentido. Mas há potencial.

Amanhã essa inteligência artificial mais ambiciosa nos livrará de trabalhos tediosos, repetitivos e daqueles mais complexos, porém pautados por etapas, por padrões. Tomará alguns empregos? De certo que sim. Mas brigar contra essa maré é, e aqui o termo se insere perfeitamente, ser uma espécie de neoludita. As máquinas a vapor da Revolução Industrial agilizaram trabalhos antes manuais em muitas ordens de magnitude. Os robôs estão fazendo (e farão mais) para certas atividades mentais o que as máquinas da Inglaterra do século XIX fizeram para o trabalho braçal.

Thomas Davenport e Julia Kirby recentemente publicaram o livro Only Humans Need Apply: Winners and Losers in the Age of Smart Machines com uma visão sobre a inserção de máquinas no ambiente de trabalho. Entrevistados no podcast da a16z, eles deram um bom panorama e expressaram suas impressões sobre como essa relação se dará.

Para a dupla, a melhor maneira de enxergar essa ajuda da inteligência artificial é encarando-a como a um novo colega. Alguém (ou alguma coisa; máquinas ainda não têm sentimentos) que chega para somar, não para tomar empregos, e que é muito bom, melhor que qualquer outro, em atividades bem específicas. A apocalíptica inteligência artificial que substitui por completo a força de trabalho é, em grande parte, um exagero. Assim, Davenport e Kirby falam não em automação, mas em “trabalho aumentado”: ao delegarmos tarefas repetitivas aos robôs, nos veremos livres para focar onde a psiquê humana é essencial e onde o trabalho entusiasma e nos parece de fato importante.

Eles exemplificam isso com uma consultoria de investimentos. Um sistema inteligente faz todos os cálculos e indica os melhores papéis para os clientes. Os consultores humanos servem de conselheiros e até psicólogos, apresentando os resultados dos colegas robôs e orientando, com base em critérios além dos objetivos, os clientes. É a mesma lógica que se aplica aos bancos agora que tudo pode ser feito no Internet Banking ou no app do celular: os gerentes resolvem com mais agilidade problemas que demandam acesso exclusivo aos sistemas bancários, educam os clientes e até os acalmam.

É, ainda nas palavras dos autores, uma “terceira era da automação”. Máquinas passaram do trabalho perigoso para o tedioso e, agora, reclamam para si também o trabalho da tomada de decisões, algo que por muito tempo confiamos a nossos iguais com base em estimativas precárias e ao famoso “feeling” — frequentemente falho, mas somos bons em esquecer os fracassos. Mesmo indústrias que se julgavam fora de qualquer perigo, por exemplo o jornalismo, nessa terceira era entram na mira da inteligência artificial. Três anos atrás já tínhamos robôs escrevendo matérias sobre resultados de jogos e relatórios financeiros de empresas.

Se um dia o robô do Manual do Usuário conseguir escrever isto, eu serei grato.


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