Os pés pequeninos iam produzindo estalinhos no mato seco enquanto ele caminhava sozinho. As árvores largas e altas que juntavam as copas umas às outras, balançavam suavemente formando ondulações constantes. Ele, que não sabia para onde ir, sem ar e com medo, seguia sempre em frente. Os peixes voavam perto dos galhos mais altos, enquanto os pássaros ultrapassavam a borda d’água subitamente e mergulhavam de volta.
Abria os braços na vã tentativa de que alguém viesse o abraçar e levá-lo para cima. O corpo desvalido seguia sendo levado pela correnteza. Sua barriga, peito e costas doíam. Deitou-se no mato seco.
Sua família estava longe e pelo que parecera, ninguém sentira sua falta. Todos estavam em volta de uma grande mesa colocada nos fundos da casa, onde a comida do almoço seria servida.
Theo sentia que faltavam-lhe forças para lutar. Sua vida invisível e suas fraquezas estavam explícidas. Por que fariam aquilo com ele? Os pensamentos se misturavam e, neles, a imagem de Marie e dos garotos que o encurralaram, iam e viam com o balanço — assombrando e se dissipando.
Mantinha seus olhos fechados. Porém, com sua respiração chegando ao limite, foi forçado a bater suas pernas e braços a fim de se desvencilhar para onde o ar fosse abundante, pois estava cada vez mais escasso. Repentinamente, a água e o ar tornaram-se negros. Nada se via. O garoto apenas flutuava. O vento cortava sua face e então, o pânico tomou conta. Onde estariam todos que não sentiam falta de uma criança perdida? Haviam monstros escondidos atrás de cada árvore e cada pedra naquele lugar. Correu.
Assim como a escuridão veio, a claridade surgiu a seguir. Com ela, alguns pares de mãos tênues o puxavam para fora. As luzes piscavam e o alertavam. Foi o primeiro momento em que ele teve a sensação de que poderia, finalmente, ser salvo. Apenas estendeu o braço e deixou-se levar.
Chegou à praia, jogado pelas ondas, completamente sem fôlego. Deitado na areia de bruços com o rosto refletindo nos finos espelhos d’água que se formavam na areia, lamentou. Em que ponto tinha chegado nessa vida barata?, perguntava-se. E, ali ficou até poder equilibrar-se em suas próprias pernas.
O sol poente aquecia com sua cor amarela-alaranjada todas as roseiras brancas, vermelhas e rosas do fundo do quintal. A mãe de Theo, agachada com um tesourão podando as flores, não viu quando o garoto chegou em casa, só se dando conta quando ouvira os passos atrás dela.
Ele, que estava sedento, viu uma xícara branca de porcelana com detalhes azuis e dourados cheia de café sobre o parapeito da sacada traseira e sem demora, agarrou-a.
No mesmo instante em que pegou a xícara nas mãos, a mãe virou-se e gritou um sonoro “Não!”. Theo virou-se em sua direção e perguntou o porquê de não poder tomar e ela explicou, um pouco nervosa, que havia caído sujeira ali dentro. Virou-se novamente para as rosas e disse-lhe para pegar outro na cozinha, ignorando o fato do filho estar com as roupas totalmente encharcadas.
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