Engolia em seco. Cada contração involuntária da sua garganta ia escorrendo para dentro de si uma cachoeira de lágrimas invisíveis. Os sonhos do mar revolto e de perseguições eram agora recorrentes. Estava atormentado, porém, não revelava seus segredos a ninguém. Não tinha abertura com quem quer que fosse para compartilhar suas angústias irresolutas.
Jogou o livro que estava em suas mãos com força contra o sofá. “Eu não quero nenhuma festa!”, esbravejou Theo ao ser questionado pela sua mãe sobre comemorar seu aniversário. “Mas eu estou pensando em convidar poucas pessoas, quem sabe a tia Vanda e os teus primos, que moram mais perto?…”, tentou explicar a mãe, apenas querendo que tivesse alguém a mais naquela casa além dos dois. Então, depois de discordar várias vezes e de muita insistência, o garoto concordou que viessem. Sua tia Vanda era uma estranha, pois estivera apenas três ou quatro vezes desde que ele pudesse lembrar. Nem imaginava que idade teriam seus primos atualmente.
Os balões iam sendo enchidos um por um, com o ar morno de seus pulmões e depois jogados no meio da sala. De vez em quando um ou outro estouravam no meio de tantos, fazendo oscilar bruscamente o movimento suave que a brisa vinda da janela produzia. Enquanto puxava e soltava a borracha dos balões coloridos com suas mãos trêmulas, Theo era observado pela sua mãe, que por sua vez, notava que o filho estava cada vez mais pálido, depressivo e impaciente.
Alguém bateu à porta que se abriu poucos segundos depois. Lá fora foi também o local onde as duas irmãs se abraçaram e se beijaram, após um longo período sem se ver. Os dois sobrinhos estavam logo atrás, trazendo consigo lembrancinhas para o aniversário. Elas entraram na sala enfeitada de bexigas, onde sentaram e se puseram a conversar. As crianças corriam e brincavam entre a sala, a cozinha e o pátio. Theo permaneceria em seu quarto até que, devida a grande insistência da sua mãe, arrastou-se para sala a fim de cantarem o parabéns e apagar a vela do bolo. E foi assim que exatamente aconteceu.
Tia Vanda e os seus primos (que mal sabiam de sua existência e só vieram porque teria uma festa), entregaram os presentinhos que compraram em alguma loja barata e que foram posteriormente jogados no fundo de alguma gaveta em seu quarto. Já sua mãe reservava algo melhor. Tinha a esperança de deixar o filho mais contente. Enquanto sua tia perguntava sobre sua vida e recebia respostas vagas, sua mãe trouxera, empurrando com as mãos até a cozinha, uma bicicleta azul, bem parecida com a que tinha ganhado de seus avós, mas que tinha sido roubada há alguns meses. A antiga, ele só tinha conseguido porque seu avô falecera e essa não tinha mais serventia. De fato, o presente trouxe algum ânimo para o garoto, que agradeceu rapidamente e tratou de ir logo testá-la na rua.
As pedaladas circulavam calmas… Theo aproveitou para rodar algumas ruas do bairro que estavam praticamente vazias, já que era domingo. A probabilidade de que encontrasse pessoas indesejadas era mínima. Mas, logo cansou-se e voltou para casa. Há tempos que não fazia isso, estava desacostumado.
Abriu o portão, guardou a bicicleta nova nos fundos da casa e caminhou pretendendo entrar pelas portas do fundo, o que usualmente fazia. Escutou vozes vindo da cozinha e, por um sentimento súbito de curiosidade, resolveu aguardar alguns momentos do lado de fora antes de entrar. Sua mãe parecia estar chorando e sua tia a consolava.
“Eu me sinto culpada, porque ele sempre esteve assim sozinho, nervoso e depressivo… Tenho certeza de que é minha culpa. Eu não deveria ter tomado tantos remédios para abortar… Acho que aqueles remédios tenham o afetado. Eu me arrependo do que fiz, mas foi uma atitude desesperada. Fui largada e encorajada a isso pelo pai dele, que não o queria de jeito algum. Que escolha eu tinha? Isso tem, a cada dia que passa, me atormentado mais e mais… Vejo Theo a cada dia pior, sem vida. Então, eu me culpo. Não estou mais suportando essa situação!”
Theo colou suas costas e as palmas das mãos na parede segurando instintivamente o ar. Suava frio. um buraco crescia sob seus pés.
“Dias atrás fiz algo que não deveria ter feito e, por uma burrice, quase acabei com a vida do meu filho novamente! Comprei sem que ninguém soubesse uma porção desses venenos que se usam para aniquilar cachorros e estava decidida a acabar com tudo, para aliviar essa pressão que está me corroendo o peito. Então, fiz um café, peguei uma xícara e misturei com o veneno. Sentei na varanda, mas, por Deus! Eu não consegui beber! Peguei o tesourão e comecei a podar as rosas na tentativa talvez de pensar sobre o que eu estava fazendo… Aí o Theo entrou e quase bebeu a mistura que eu tinha feito… Se isso acontecesse o que eu faria? Sou a pior pessoa do mundo…”
Cambaleando pálido e apático, o garoto pegou sua bicicleta novamente e saiu em disparada na rua, fugindo do seu aniversário. E de sua vida, de fato.
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