Cap. VII— Meia noite
Mão na luva
Enquanto o carro percorria as ruas da cidade, Theo mantinha-se cabisbaixo olhando para o lado de fora, com o cotovelo apoiado na porta e o punho no rosto, vendo as imagens passarem rapidamente sem fixar o olhar. Às vezes, soltava um suspiro profundo e soluçava. Víctor, apenas olhava-o com o canto dos olhos enquanto fumava com uma mão e com a outra segurava o volante. Pensava consigo mesmo para onde iriam. Na verdade, convidara o garoto machucado para embarcar em seu carro por puro mal estar devido ao acidente, sentia-se culpado.
“Quer um trago?”, perguntou Víctor, tentando puxar assunto, mas não fora o suficiente. Theo apenas balançou a cabeça. “Claro que ele não deve fumar, é uma criança….Onde eu estou com a cabeça?”, pensou.
O carrou parou em frente ao Parque Municipal. Theo desceu mancando e sentou-se debaixo de uma árvore, em silêncio. Víctor continuou fumando em pé, encostado no carro. Do outro lado da praça três bêbados discutiam, enquanto que, perto da saída sul, duas prostitutas estavam sentadas esperando seus primeiros clientes. Recém anoitecera.
Talvez Theo pudesse ficar ali onde sentara pelo resto de sua vida, criando raízes. As formigas subiriam por suas pernas e braços, enquanto os pássaros faziam ninhos sobre sua cabeça. Quando chovesse, ele fecharia os olhos. Quem sabe, alguém, depois de algum outro domingo chuvoso e frio, pudesse vir com um machado e parti-lo ao meio. Assim, seu corpo teria alguma serventia.
Uma mão tocou-lhe o ombro direito. O rapaz sentou-se ao seu lado. Eles se olharam nos olhos pela primeira vez. Víctor, com seu corpo esguio e olhos negros penetrantes, poderia ser perfeitamente um ladrão ou assassino. Poderia roubar-lhe o que não tinha, talvez um órgão, torturá-lo e pedir algum tipo de recompensa. Mas, pensando bem, no estado medíocre em que Theo estava, ninguém se atreveria a tirar-lhe um lasco de unha.
O corpo do garoto foi levemente pendendo para o lado ( como Ismália de Guimaraens ), caindo sobre o colo do desconhecido. Já não tinha medo, nem forças. Seus cabelos foram levemente afagados.
Pela primeira vez em sua vida sentiu-se protegido.
“Você não pode viver assim tão triste para sempre”, sussurrou Víctor. “Minha vida é uma desgraça”, replicou Theo, contando-lhe a seguir tudo o que acontecera em sua vida nas últimas semanas.
“Não deixe que sua vida se resuma a isso, pequeno. Você precisa se animar, deixar tudo isso para trás… Se você quiser, posso te levar em uma festa para você se divertir um pouco, o que acha disso?”
“Eu não tenho nem roupa para ir em uma festa…”, respondeu Theo tristemente.
“Como alguém tão bonito pode se preocupar com isso?”
Theo sorriu timidamente.
“Já é meia noite, o relógio da igreja está tocando. Infelizmente, preciso voltar. Está tarde…”
“Tudo bem, eu te levo para casa”, disse-lhe Víctor, solícito.
Entraram no carro e partiram. Chegando em frente à casa branca de janelas azuis, ao sinal de Theo, Víctor antecipou-se: “Passo para te pegar quinta, às 22h, vamos sair. Esteja pronto. Não aceito um ‘não’ como resposta.”
Theo desceu do carro, pegou sua bicicleta quebrada no porta-malas, deu-lhe um tchau com uma das mãos e viu o carro partir.
Índice / Cap. VIII— Um coração vazio