Na sexta, centenas cobram Dilma. No domingo, milhares exigem sua saída

Ato organizado pela CUT defende reforma política e Petrobras estatal. Manifestantes do dia 15 apresentam pautas distintas: impeachment, basta à corrupção e ao PT, a favor de intervenção militar

Bandeiras em riste, punhos erguidos, coros sincronizados, expectativa no ar. Na sombra da Catedral Metropolitana de Florianópolis, em meio ao movimento cotidiano do centro da cidade, estavam reunidos os manifestantes do “Ato em defesa dos direitos, da Petrobras e pela realização da Reforma Política”. A concentração começou às 14h e o início da caminhada às 16h. Vendedores de tapioca, caldo de cana, pastéis e outros lanches observavam de suas barracas as pessoas que ocuparam o Centro para protestar, a maioria delas vestindo camisas vermelhas.

“Eu acho a energia daqui muito positiva, porque a nossa sociedade é extremamente individualista, as pessoas são acomodadas. Parece que há um medo de que o Brasil se torne uma grande nação e é por isso que eu acho importante estar aqui hoje”. O professor de espanhol Sérgio Roberto Gonzales foi uma das vozes que ressoaram pelo Centro da cidade naquela sexta-feira. Na tentativa de dimensionar a manifestação, o Tenente Coronel Carlos Araújo Gomes, da Polícia Militar, estimou 250 pessoas. Para os organizadores do evento, foram dois mil manifestantes. (Já a equipe do Zero que acompanhou a manifestação estimou cerca de 500 pessoas.) O trajeto começou na Catedral, cruzou a rua Tenente Silveira, passou pelo Terminal de Integração do Centro (TICEN) e terminou na rodoviária Rita Maria.

Moradores de Araranguá, Blumenau, Chapecó, Criciúma e Joinville vieram para a capital reivindicar direitos. A maioria dos manifestantes usava a camiseta da Central Única de Trabalhadores (CUT), mas havia outras entidades presentes: a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul do Brasil (Fetraf/SC), o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Refinação e Destilação dos Estados do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro PR/SC) e o Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Urbano de Passageiros da Região Metropolitana de Florianópolis (Sintraturb). Bandeiras do PT e do PCdoB podiam ser vistas.

As reivindicações comuns a todos foram a defesa da Petrobras como estatal, a luta pela reforma política e a posição contrária ao impeachment da presidenta. De camiseta branca da União Nacional dos Estudantes (UNE), Fafá Capela, graduanda em Ciências Sociais, comentou o contexto político do Brasil e o ato do dia 15 de março: “Não podemos ser ingênuos de achar que não tem movimento político forte por trás da derrubada de um governo que precisa melhorar, mas que avançou em muitos pontos. Na educação, na soberania nacional, no desenvolvimento de tecnologia… O que a gente quer é que a democracia seja respeitada”.

Deputado federal reeleito pelo PT e ex-prefeito de Chapecó, Pedro Uczai veio do oeste do estado em apoio à manifestação. “O que me motiva é defender a democracia, a definição de voto soberano e o voto popular. Podemos criticar o governo, criticar o que está errado, mas não permitir o golpe à democracia, o crime à democracia. Esse ódio tem que ser desconstruído e a mobilização democrática de hoje está aí para isso”.

Funcionários do Sintraturb carregavam cruzes vermelhas e pretas para chamar a atenção para a violência nas estradas estaduais. Uma faixa grande trazia a pergunta: “Quantas cruzes ainda serão erguidas às margens de nossas rodovias por conta da ganância e do descaso?”.

O diretor-secretário da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Moacir Rubine, fez a defesa da Petrobras como patrimônio nacional, concordando com o fato de que há corrupção, mas afirmando que o governo está no caminho certo para solucionar esse problema. “A Petrobras é uma das maiores empresas do mundo, uma empresa extremamente estratégica para esse país. Ela representa hoje um dos maiores legados que nós temos. É dos brasileiros e tem que ser assegurada. Temos que combater desvios de todas as formas de corrupção que dentro dela existem, mas temos que assegurar que seja nossa, não podemos abrir mão disso”, afirmou. O professor de português William Baranhos reforçou: “A solução está vindo à tona, pelo fato de estarem sendo feitas as investigações. Hoje isso está sendo colocado à frente, sendo exposto pela mídia”.

Por volta das 16h30, o primeiro conflito. Os manifestantes caminhavam pela rua formando duas filas, de modo a deixar os cartazes a vista. Do alto de um dos prédios da rua Tenente Silveira alguém jogou água nos que protestavam abaixo. Algumas dezenas de metros atrás, a água veio de uma garrafa d’água. Apesar de não terem sido registrados casos de agressão física, a situação chegou a ficar tensa quando o protesto se aproximou do Ticen, onde estavam pessoas contrárias ao movimento. De um lado, dois homens gritavam indignados: “Não sabem o que é trabalhar!” e “Vão pra Cuba!”. Do outro, em resposta, uma senhora com cerca de 60 anos levantava o dedo em riste. Alguns curiosos se aproximaram, mas a Polícia logo formou um cordão de isolamento separando os dois grupos.

O humor também fez parte da manifestação. Quando o carro de som que conduzia o protesto fez uma curva na direção errada, a mulher ao microfone brincou, arrancando risos: “Aqui era para virar à direita, mas como nós somos de esquerda, virou para a esquerda”.

A marcha se aproximou do fim por volta das 17h30, em frente ao Terminal Rodoviário Rita Maria. Neudi Chiachini, presidente da CUT em Santa Catarina, fez defesa das livres manifestações: “Nós sempre estivemos nas ruas para que os manifestantes do dia 15 possam vir e ocupá-las também!”.

Símbolo de resistência na época da ditadura militar, a música de Geraldo Vandré finalizou o ato. “Caminhando e cantando e seguindo a canção…” os manifestantes cantaram, enquanto o trânsito era liberado na pista ao lado, “…somos todos iguais braços dados ou não…” cantavam, abraçados, em um sentimento de dever alcançado. Um homem falava ao microfone: “Sintam o coração pulsar e escutem o coração do povo brasileiro. É um coração valente!”

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