
A importância do porque
- Deixa ele quieto aqui na gola.
- Porque eu tenho que colocar?
- Para visitar o papai, querido.
A fase dos porquês ocorre devido à construção da própria identidade, que acontece na infância, quando a criança passa a se descobrir, a ter noção do próprio “Eu”, da importância de sua existência, das coisas que consegue fazer, que vê ou que ouve.
A partir dessa descoberta, passa a perceber os fatos ao seu redor dando maior ênfase a como tudo acontece, ou seja, os porquês referentes à esses. Muitas vezes as crianças nos questionam repetidamente e emendam um porquê atrás do outro.
Uma rápida conversa entre mãe e filho no elevador. Alias, típica entre crianças beirando a idade dos porquês (sou péssimo para analisar idade de crianças). A principio não me chamou atenção. Porém, estando no elevador, há pouco para se pensar e reparar (a não ser o súbito raciocínio que o elevador pode despencar com você no mesmo. Pensamento sem lógica alguma, pois você apenas se recorda estando dentro do elevador.), ou, se for mulher e tiver um espelho a sua disposição, dar um tapa no visual. O estalo de atenção ocorreu quando o menino começou com os porquês, e repentinamente atraiu minha curiosidade. Ansiava e fazia a leitura labial dos lábios do menino, antevia suas perguntas, sem lógica ou sequencia alguma. Mas intrigava-me, como e porque uma criança perguntava tanto. Estava claro: para ele tratava-se de um território hostil, desconhecido, e, como toda criança, desejava conhece-lo. O velho e bom instinto desbravador.
Enquanto fazíamos a viajem nesta incrível maquina que nos leva em segundos a nosso destino, matutei o porquê de perdemos a naturalidade de questionar. Ao envelhecermos nos auto privamos da capacidade de inquirir, de conhecer o novo. De demonstrar insabido frente algum assunto especifico. Desconfio que nosso superego bloqueia qualquer iniciativa, pois, atualmente necessitamos, mais do que sermos, aparentar austeridade, ser uma fortaleza frente a sociedade. Perante preconceitos sociais perdemos o poder do porque infantil. Não mais conhecemos, desconhecemos, não nos deixamos levar pela curiosidade, optamos pela frivolidade, uma subterfúgio humano de maneira desumana, entregue. O menino que em outrora nos habitava, passa a residir em algum lugar remoto, inacessível. Um cemitério de sonhos, inóspito, onde o coveiro – menino – segue sua rotina, na esperança de não mais enterra-los, mas vive-los, e finalmente fechar os portões deste local que o atormenta.
Nos limitamos a fitar nosso “pirralho” interior, adormecido e calejado pelo tempo e sorte desafortunada. Recordamos bons momentos, a infância perfeita, demasiadamente ideal para se tornar realidade, mal sabe ele que basta acreditar. E, no canto do cisne, enfim questionamos: onde foi parar aquele menino repleto de sonhos? O que ele se tornou?
O pequenino deixou o elevador com infindaveis indagações a sua mãe. Segui no mesmo, imaginando seus porquês.
Recomecei a questionar, a relativizar.
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