Immanuel Kant

Kant e seu guia ético do imperativo categórico

Marco Brito
Nov 6 · 7 min read

Immanuel Kant: você já ouviu esse nome? A maioria das pessoas não fazem ideia de quem ele foi, o que ele escreveu ou porquê alguém deveria se importar.

Esse artigo não é uma biografia: se você está a procura disso, clica aqui e veja tudo sobre ele no Wikipedia.

Eu não irei falar sobre todos os conceitos e ideais criados por Kant, mas posso te adiantar que ele foi um filósofo prolífico, escrevendo sobre espaço, tempo, moralidade, política, ética, entre outros tópicos. Era alemão. Viveu no século XVIII e obteve um certo sucesso como escritor.

O tópico da prosa de hoje é um conceito de Kant que, quando eu ouvi pela primeira vez, a minha reação foi: por quê raios não estamos falando mais sobre isso?!

Vamos falar sobre ética, o conceito do imperativo categórico de Kant, e sua resposta ao caos social que nos foi deixado com a morte da religião.

Antes, qual a necessidade?

Nós vivemos por muitos séculos, senão milênios, com um guia moral que nos foi apresentado pelas doutrinas religiosas.

Nós sabíamos nosso lugar na sociedade. Tínhamos um propósito e éramos parte de algo maior que nós mesmos. Nossa vida significava algo.

Por muito tempo o dogma religioso governou a sociedade, ditando os axiomas sociais e te dando um guia extremamente claro do que se pode e o que não pode fazer. Aliás, a religião não só dizia o que se podia, ela te ordenava algumas doutrinas e ações, com recompensas e punições bem claras para os que seguissem (ou não) tais doutrinas.

Você pode fazer sexo, mas só depois do casamento e com o objetivo de reprodução, nunca para mero prazer carnal.

Você deve abdicar do seu Ser — seu ego, sua psique — em prol da vida eterna. A vida é sofrimento e você deve tolerar isso se quiser, um dia, possivelmente, estar cantando com os anjos do céu. Não há outra opção.

Todos que não seguiam era crucificados. Todo pragmatismo era visto como bruxaria e deveria ser punido com a morte por fogo como método de purificação.

Nós sabíamos como viver e o porquê de estarmos vivo, tava tudo no manual.

Até a ciência aparecer

Ah, a ciência! A partir dos séculos XVIII-XIX, um fenômeno começou a se propagar na Europa, principalmente com o defasamento de novos conceitos trazidos pelo período da Renascença e a redescoberta de materiais perdidos até então, como livros filosóficos da Grécia Antiga e do Império Romano.

Ciência e tecnologia davam seus primeiros passos. Com ela, alguns dos axiomas sociais começaram a cair. Tecnologia e ciência agora explicavam eventos e fenômenos que antes só religião conseguia explicar.

Astrologia, medicina, engenharia… tudo começou a se desenvolver, e a as pessoas, que até então precisava uma da outra para sobreviver, começaram a se tornar mais individualísticas, mais auto-suficientes.

Já não precisávamos de religião para explicar tudo, agora temos a razão! Agora podemos ir atrás das nossas próprias respostas.

Com isso, o ateísmo começou a popularizar-se e pessoas começaram a tornarem-se elevadamente incrédulas das doutrinas e dos dogmas religiosos.

O mundo passava por uma revolução, e as pessoas agora não mais tinham onde se agarrar. Foi um cada um por si.

Com a queda dos dogmas religiosos, caíram também os guias morais e éticos que nos guiaram até este ponto. Ninguém mais tem um norte, e a própria origem do bem e do mal começaram a ser questionadas.

Agora somos livres para escolhermos nossos próprios códigos morais. Mas será que somos capazes? Será que temos suficientemente racionais para escaparmos do caos eminente e movermos em direção a ordem, sozinhos?!

Immanuel Kant diz que sim, e é deste pensamento racional que surge seu imperativo categórico.

Kant e seu guia ético

Wikipedia resume:

Ou seja, há duas vertentes nos princípios apresentados acima:

  1. Lei Universal: “Aja como se a máxima da tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.”
  2. Fim em si mesmo: “Aja de tal forma que use a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio.”

Vamos explorar cada uma mais afundo.

Lei universal

Uma lei universal é uma lei que é aplicada a todos, como a gravidade, por exemplo. Ninguém pode escapar as leis da gravidade. Portanto, esse ponto é bem claro e auto-explicativo.

Kant diz que você deve se perguntar, todas as vezes que for confrontado com um dilema moral: se todos adotassem esse mesmo código de conduta, isso seria bom para a sociedade?

Por exemplo: imagine que você saiu de casa correndo para o trabalho e esqueceu-se de comer. Você está faminto, e não tem nenhum dinheiro consigo. Você vê um vendedor ambulante com algumas maçãs. Se você tirar uma, ele não vai nem perceber, não vai fazer diferença. Certo?

Segundo Kant, errado.

Se você agir dessa forma (ou seja, roubar uma maçã), e esta fosse se tornar uma lei universal (o ato de roubar), então todos estariam pior por isso. Você roubaria a maçã, e outra pessoa poderia roubar de você, e outra roubaria novamente, e assim por diante. É um ciclo infinito e contraditório. Kant não gostava de contradições.

Portanto, quando deparado com tal situação, você deve sempre questionar se esta ação que você está considerando poderia se tornar uma lei universal. Caso a resposta seja não, torna-se imoral e repudiante prosseguir com tal ação.

Fim em si mesmo

Kant acreditava que todas as pessoas são um fim em si mesmo. Ou seja, você não pode utilizar alguém como meios para o um fim.

Meios para um fim simplesmente significa que você está utilizando uma pessoa para o seu próprio benefício, sem considerar os sentimentos, os objetivos e os sonhos dessa pessoa.

Segundo Kant, isso é imoral, pois pessoas são o fim em si mesmo, portanto nunca podem ser utilizada como coisas.

Um copo existe com o puro objetivo de ser um meio para um fim. Você irá utilizá-lo para seu próprio benefício, para o seu próprio fim. Portanto, um copo torna-se inútil uma vez que deixe de servir seu propósito de existência (caso o copo esteja rachado ou vazando, por exemplo).

Entretanto, pessoas são utilizadas a todo momento. Você está neste exato momento utilizando a mim como um meio para um fim, que é aprender mais sobre filosofia — e Kant diz que não há problema! O motivo é que eu concordei em ser utilizado, assim como eu acabei de utilizar o barista para fazer meu café aqui no Starbucks que eu estou sentado enquanto escrevo.

O problema é quando você utiliza ferramentas para enganar (mentiras, por exemplo) uma pessoa e utilizá-la contra sua própria vontade.

Isso, para Kant, é imoral e repudiante.

Resumão

Muito pra digerir? Não há problema! É um conceito simples mas que não estamos expostos diariamente, logo, causa certo nó mental e precisamos pensar um pouco no assunto para entender o que acabamos de ouvir/ler.

Então deixa eu resumir um pouco do que foi apresentado até aqui.

  1. Religião sempre foi o guia ético da sociedade, ditando através de seus dogmas o que era certo e errado, quais são suas obrigações e quais são seus direitos. Religião sempre trouxe significado para a vida das pessoas através de “grupalidade”, ou seja, o senso de que somos apenas parte de algo maior que nós mesmos.
  2. A partir do século XVIII, com o nascer da ciência e tecnologia, religião começou a ser questionada e ateísmo começou a proliferar-se, principalmente na Europa.
  3. Com o cair da religião, caíram também os guias morais e éticos que sempre tivemos, individualizando o processo de decisão e libertando as pessoas das doutrinas que as acorrentavam previamente.
  4. Filósofos éticos começaram a aparecer com questionamentos tais como: será que estamos aptos para escolher nosso próprio destino? Somos nós capacitados para tal grandioso feito?
  5. Kant apresenta seu guia ético, completamente desconectado da religião e baseado na capacidade humana que, segundo Kant, todos nós temos para racionalizar.
  6. Quando apresentado com um dilema ético, pergunte-se: se todos fossem fazer o mesmo — se esta fosse uma lei universal — estaríamos todos melhor por isso? Se a resposta for um ciclo contraditório sem fim, tal ação torna-se imoral e repudiante.
  7. Nunca utilize pessoas como um meio para um fim. Pessoas são fins em si mesmas, logo, devem ser tratadas como tal. Sempre tenha em consideração que pessoas têm sentimentos, sonhos e objetivos por si só, e seu dever moral e ético é tratá-las como um fim. A exceção para a regra é quando a pessoa concorda em ser tratada como um meio para seu fim, contando que ela também esteja tratando tal ação como um meio para um fim (um barista torna-se um meio para o fim de outras pessoas porque o trabalho, em si, é um meio para um fim dele, o barista).

Pense nisso. Se tiver 10 minutos, pare agora mesmo para pensar. Caso não possa agora, agende 10 minutos mais tarde para ponderar sobre o assunto. É importante que você tire suas próprias conclusões sobre o conceito apresentado por Kant.

Kant deve ser assunto de debates nas escolas, deve ser assunto de conversas de bar e artigos na internet. Nós precisamos de uma maior exposição a conceitos que podem nos salvar a vida. Kant pode salvar sua vida, caso você tenha desprendido-se de suas correntes religiosas, esteja perdido e não saiba a qual direção seguir.

Kant te apresenta uma direção completamente independente de religião. Acredite em Deus ou não, o conceito ético do imperativo categórico pode ser a solução pra uma sociedade cada vez mais caótica e desconectada.

Kant pode ser a ordem no meio do caos. Agora tire suas próprias conclusões.

Abraços

Marco Brito

Neste blog você encontrará reflexões sobre filosofia que podem te ajudar no seu dia-a-dia. Em busca de desenvolvimento pessoal, conversamos sobre grandes pensadores, grandes livros e grandes ideias. Não é uma questão de sucesso, é uma questão de sanidade em um mundo caótico.

Marco Brito

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Autor do livro “Como Botar Para F*der”, viajante assíduo, apaixonado por filosofia e empreendedorismo.

Marco Brito

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