
Querido futebol, precisamos conversar.
Querido futebol,
Nós precisamos conversar.
Aos 8 anos de idade você me prometeu o mundo. Eu chegava em casa, vindo da escola, e corria pros teus braços, sorrindo e com os chinelos na mão.
Com meia dúzia de amigos que compartilhavam da mesma paixão, pés descalços tornavam-se chuteiras e chinelos tornavam-se a baliza. Por algumas horas, a rua semi-asfaltada tornava-se o nosso Maracanã, até o último de nós ouvir o grito de nossas mães; o jantar estava pronto.
Aos 11 anos de idade, já sabia claramente quem eu queria ser: um jogador de futebol profissional! Estudava de manhã, e ao chegar em casa, em pleno sol de meio-dia, buscava minha companheira redonda já meio deformada, descia as escadas correndo e punha-me a chutá-la contra a parede com gritos de gol a cada toque, por horas sem parar.
Eu já não era eu — eu era o Kaká, eu era o Ronaldo, eu era quem minha imaginação me permitia ser.
De vez em quando um amigo ou outro passava pela rua e, por um tempo, praticávamos lançamentos, até seus pais chamarem-no para casa e, novamente, éramos apenas eu e você.
Aos 13 anos lembro-me de sentar na frente daquela TV velha, e no Esporte Interativo, assistir Ronaldinho, sempre ele, fazendo mágica pelo Barcelona.
Eu sentia ciúmes. Lembro de me perguntar se aquilo era futebol ou realmente magia, porque não parecia normal o relacionamento entre Ronaldinho e você — era íntimo demais.
Aos 14 anos, jogando pela escolinha do Flamengo, fui convidado a entrar no gramado do Maracanã, o palco maior, com os jogadores em um Fla x Flu.
O Maraca era o maior teatro do mundo, e os jogadores, os seus artistas.
Eu olhava para arquibancada lotada, olhava para o campo, e me perguntava como que aqueles caras poderiam ganhar dinheiro pra fazer aquilo… Eu faria o mesmo de graça pelo resto da minha vida! Aliás, lembro-me de que, com lágrimas escorrendo, brinquei com um amigo que pagaria o que fosse necessário para que pudesse viver aquela vida.
Você, futebol, foi durante toda a minha infância o único que me trouxe pra perto do meu pai. Eram nos domingos a tarde em frente a Globo que nós éramos mais próximos. Por 90 minutos, não éramos pai e filho — éramos amigos. Apaixonados. Unidos por uma só causa, um só amor: você, futebol.
Você sempre foi também o único a me trazer pra perto do meu irmão mais novo, dentro de uma relação extremamente conturbada, mas que por algumas horas, você consertava.
Aos 16 anos de idade eu já sabia que não seria jogador de futebol. Apesar de pedir a todos os Deuses, fazer ofertas religiosas e acordar durante as noites pensando no assunto, meu momento tinha passado. Pode ter sido a falta de apoio vindo de cima, pode ter sido falta de coragem: mas eu sabia que não conseguiria atingir o meu sonho de moleque. Era tarde demais.
Decidi então me tornar jornalista, porque queria, de uma forma ou de outra, estar inserido no seu universo, estar perto dos seus artistas. Eu não poderia ver a minha vida longe de você.
Por toda minha vida te amei, futebol. Nunca foi só um esporte.
Durante toda minha vida escolar, passei meus recreios com você. A caminho de casa falava sobre você com meus amigos e já planejava quando iria te ver novamente. Eu só pensava em você.
No ensino médio, nunca me importei de chegar na sala de aula pingando de suor por sua causa. Nada — nem garotas, nem as minhas notas no boletim, nada nunca foi tão importante quanto você.
Poucas vezes em toda a minha vida disse não à você. Se havia um futebol, eu estaria lá, independente da hora.
No vídeo-game, só queria saber de você. No PlayStation 2, jogava Master League como se não houvesse amanhã. E não haveria mesmo se os adultos não desligassem na marra e me mandassem ir dormir.
Enquanto jogava na escolinha, não haviam dias mais felizes que os dias com você. Nunca foi só “treino”. Sempre odiei acordar cedo, mas nunca reclamei de acordar cedo pra te ver.
Raramente fui o melhor do time, mas provavelmente sempre fui o mais apaixonado. Você foi meu primeiro amor, futebol. E eu teria feito de tudo pra passar minha vida ao teu lado.
Sempre soube tudo sobre seu universo — a nacionalidade dos teus artistas, os times nos quais haviam jogado, se eram canhotos ou destros… Dentro de casa era conhecido como a sua “enciclopédia”, porque conhecia tudo e todos os habitantes do teu universo.
No entanto, como na vida de todo homem, as responsabilidades batem à porta. Não foi diferente comigo. Tinha chegado a minha hora de crescer.
Tava na hora de trabalhar para sobreviver, não havia tempo de te ver pessoalmente. Ainda assim, do outro lado do mundo, perdia noites de sono pra te assistir na TV, e sonhar em estar ao seu lado novamente. Apesar da relação ter esfriado, fiz o máximo para não esquecer meu amor por você.
Mas esqueci. Por anos, tive pouco ou nenhum contato com a bola, e apesar das longas horas em frente da TV, já havia me esquecido o sentimento de pular cedo da cama porque hoje é dia de futebol.
Até agora. Esse ano, por diversos fatores, me reencontrei com você. Pulei nos teus braços novamente como se não houvesse um amanhã. Reacendi a paixão, que agora queima em chamas altas.
Há um amanhã… e ele me anima! Com a criação da FOOT, iremos inspirar milhares de pessoas a reacenderem suas paixões também. Você, futebol, deve e merece fazer parte das nossas vidas.
O sonho não pode morrer. A gente precisa acordar animado porque é dia de futebol todos os dias.
Eu agora entendo que o teu universo é o meu habit natural. É a minha zona de conforto. É onde enfrento meus problemas, é onde eu sou mais eu. Você é minha casa, futebol.
E eu já não te largo! Daqui pra frente, juntos, iremos ajudar pessoas a lembrarem-se de você, e iremos inspirar pessoas a te conhecerem!
Chegou a hora de você cumprir a promessa que fez quando eu tinha 8 anos de idade. Que seja uma era em que todas as manhãs, faça sol ou faça chuva, sejam manhãs de futebol.
Com carinho,
Marco.

