Alegrias e tristezas num aeroporto

Hoje conto o dia em que o meu filho descobriu um dos segredos dos aeroportos.

1. Falar de acidentes de avião no aeroporto

Não sei se já vos disse, mas às vezes sou um pouco estranho. Aqui têm um sintoma dessa estranheza: quando estou prestes a viajar de avião, ponho-me a ler artigos e estatísticas sobre… Sim, adivinharam: acidentes de avião.

Imagine o leitor a cara da Zélia quando, um lindo dia, naqueles caóticos corredores cheios de gente à espera da voz que nos anuncia a abertura da porta de embarque, lhe digo: «Sabias que o maior acidente de aviação da história foi um choque entre dois aviões nas Canárias?»

Mas a verdade é que os aeroportos nos deixam mesmo de nervos à flor da pele. Há o nervosismo de levantar voo — na nossa cabeça está sempre presente a hipótese de o avião cair. Podem vir todas as estatísticas da segurança daquelas máquinas, dos anos de formação dos pilotos e das benditas listas de verificação — o monstro continua lá! O avião é qualquer coisa muito pesada e cheia de pessoas daquelas que morrem quando caem do céu—o avião, no fundo, é um bicho forte com uma fragilidade que assusta.

Depois, quem parte para longe tem na pele a excitação das viagens — do trabalho em sítios distantes, das férias entre outras línguas, de negócios inconfessáveis — e quem chega tem nos olhos o cansaço das horas dentro duma chapa apertada, dos barulhos incomodativos, dos ouvidos a zunir, do cheiro a ar queimado, dos sons que nunca sabemos se não serão o prenúncio da morte — ou talvez prenúncio da chegada da sandes mirrada que pedimos há três fusos horários (e entretanto a criança da fila de trás já se calou, benza-o deus).

Nesse caldinho de emoções, de pele em carne viva, de nervos agitados, o que temos cá em baixo são, num dos lados do aeroporto, as despedidas com choro mais ou menos reprimido e, do outro, os reencontros e os abraços de olhos fechados e alegria pouco contida.

2. As despedidas dos outros também custam

Ainda há poucos dias, no Facebook, uma amiga minha (a Ana Chainho) contou como foi ao aeroporto e chorou só de ver os reencontros das outras pessoas.

E, sim, eu que também já tive a minha dose de esperas no aeroporto, percebo o que ela quer dizer. Ainda por cima, passamos muito tempo à espera: por qualquer razão que me escapa, quando combinamos as horas para ir esperar alguém ao aeroporto, ninguém faz conta com o calvário interminável por que passam os passageiros desde que o avião aterra até que surgem, atarantados, à porta que separa a alfândega do mar de gente que está à espera.

Resultado? Muitos de nós passam muito tempo cá fora, ao lado de homens engravatados de papéis na mão e famílias impacientes, enquanto os nossos amigos andam de autocarro pela pista do aeroporto, percorrem sádicos corredores, põem-se numa bicha épica de passaporte na mão e crianças a chorar, mostram o passaporte ao simpático SEF em atrapalhações de casacos e malas, deixam-se estar a olhar para o carrossel das bagagens e, com sorte, lá vão tirar a senha para ir reclamar da mala desaparecida.

E nós? Cá estamos, ao lado dos tais homens engravatados. Entretanto, pela ranhura da alfândega, já pingaram selecções de andebol, turistas japoneses, académicos lituanos, famílias de Freixo-de-Espada-à-Cinta… E nós à espera.

Nessas horas de espera, também já me comovi com a avó que vê a neta pela primeira vez, o pai que abraça o filho depois de meses à fome de abraços em skypes frustrantes, os amigos que se reencontram para mais um Verão das suas vidas... Às vezes, mordo o lábio. Gente adulta não chora — só que às vezes chora. Disfarçamos, claro. E lá esperamos, pacientes, pelos amigos que ainda estão à espera da mala desaparecida.

3. A tristeza de 1 a 10 — e a próxima viagem

Chego por fim ao que vos queria contar, que é uma história que parece banal para quem a vê de fora — e é tudo menos banal para nós, que a vivemos (é o que acontece com tantas e tantas histórias).

O meu irmão Diogo, a Sofia e a minha sobrinha Lilah voltaram anteontem para casa, que é como quem diz, para Inglaterra. Os meus pais estavam cá em Lisboa e tínhamos pensado ir todos ao aeroporto despedir-nos — os meus pais, a Zélia, o Simão. Mas foi um dia agitado, muito trabalho na empresa, a Zélia teve de ficar duas horas no notário a tratar de certificações de traduções, a minha mãe não pôde ir — e acabei eu, o Simão e o meu pai a chegar ao aeroporto mesmo a tempo de nos despedirmos.

Pois foi então que vi a Lilah, de três anos, e o Simão, que tem quatro, a ficarem tristes de repente — e também percebi como o Simão ficou surpreendido com a sua própria tristeza. Abraçou-se à prima e pôs aquele sorriso que eu conheço bem, um sorriso nervoso, de quem está a reprimir o choro.

Há momentos no aeroporto que doem, mas se não doessem, era mau sinal. É uma boa tristeza, porque o próprio facto de aquele momento custar muito mostra que gostamos das pessoas de quem nos estamos a despedir — e há-de haver outras vezes, mais viagens, mais chegadas atrapalhadas entre malas e correrias para apanhar o avião e ir ver a prima à terra dela — e mais chegadas como aquela chegada de há duas semanas, em que a Lilah saltou do colo do pai para correr até ao primo para o abraçar, deixando-o surpreendido com as saudades da prima que vive a 2000 quilómetros de distância.

Saímos do aeroporto e o Simão lá começou a falar doutras coisas, a olhar pela janela do carro para a cidade ao sol e a rir-se com uma piada qualquer. Quando, por fim, chegámos a casa, perguntou-me: «Pai, de 1 a 10, quanto é que ficaste triste no aeroporto?» Eu ri-me com a pergunta — mas não respondi. Ele disse-me então: «Eu fiquei 10!» Sim, eu sei: um dia ele ainda terá de descobrir que não, esse dez ainda não chegou. Mas anteontem, sim, ele ficou muito triste — mas também feliz enquanto sonhávamos com a próxima viagem para ir visitar a prima.