O Suicídio da Democracia Representativa

Não é o mandato de Dilma que está em jogo é a instituição do impeachment. Mesmo que a vontade popular seja feita, (seja ela qual for) há uma certeza: não será de acordo com essa vontade que eles decidirão, e isso será um golpe fatal na já desacredita democracia. O impeachment é um das últimas instituições que ainda passavam a impressão de que o povo tinha um mínimo de soberania. Mas agora nada conseguirá limpar essa sujeira. Nem mesmo a queda da presidente servirá para apagar o que eles nunca quiseram ver revelado: a forma criminosa com que tratam lidam com o poderes políticos e econômicos para manter seus cargos e privilégios.

Não importa quem vença esse processo governo ou oposição, como todas as instituições democráticas o impeachment vai acabar contaminada pela imundice e corrupção do modus operandi destes agentes políticos.

Como seria diferente?

Jornalistas, intelectuais, advogados e economistas, e todas os pseudos cientistas políticos e sociais irão emprestar sua autoridade para fabricar teses a favor e contra o processo. Mas não percam tempo. Eles podem até dirigir seus discursos para o povo, mas não trabalham para ele.Não compartilham das suas angustias, nem estão aí para responder outras questões além das impostas por seus patrões. Folow the Money, ou como diz o Evangelho em Romanos: quem paga é o verdadeiro senhor dos escravos. É ao interesse deles que os argumentos e acordos serão construídos e aos interesses desses senhores que os impedimento irá responder.

Lógicos que eles tentarão dar ares de seriedade e credibilidade ao processo, e a população mais uma vez depositará suas esperanças em que esse processo restituirá a legitimidade deste governo ou próximo. Mas mas isso é tristemente ridículo porque no fundo todos sabemos que no final das contas precisamos de mais e melhor do que esse lixo.

Sabemos que a menos que uma verdadeira revolução tome as ruas, seja para demandar a deposição ou continuidade do governo, o que irá ditar a sobrevivência (ou não) de Dilma são interesses outros de poderes políticos e econômicos. E no fundo o que menos importa é a sobrevivência dela. Não só porque está mais do que claro que a pessoa Dilma não é de fato uma presidente (com ou sem faixa), mas pelo fato de que a pessoa na presidência, seja do governo ou congresso representa qualquer coisa menos o povo. Ou mais precisamente pode por acaso representar os interesses do Brasil mas isso por mera coincidência com seus interesses.

A farsa da representatividade é o grande problema a ser resolvido, mas pior do que quer ter que resolvê-lo era quando nem sabíamos que ele existia. Se infelizmente tivemos que primeiro assistir ao criminoso espetáculo desta pornopolítica explícita para finalmente acordar e compreender nosso dilema que seja. Assim hoje sabemos que:

Se a presidente for deposta quem assume são tão criminosos[i] e irresponsáveis quanto ela. Podem até não ser tão incompetentes, mas isso significa muito mais provavelmente que saberão esconder melhor seus crimes e não gerir melhor ou socialmente o bem público;

Por outro lado se ela fica, queima-se a bala de prata. Não só contra ela, mas contra qualquer um no poder. Impeachment é um instrumento de poder que uma vez deflagrado precisa ocorrer, ou do contrário se banaliza e o povo pode começar a perceber que está sendo feito de idiota (de novo).

Além do mais corre-se o risco de mesmo que as denuncias e crimes contra o governo cheguem ainda mais perto da presidência, e a crise econômica exploda nada poderá ser feito dentro do atual marco legal para impedi-la senão o tentar outro impeachment. O que não é algo que possa ser usado desta forma. Logo o impeachment pode funcionar como salvo conduto, a menos que ela seja como um Delcidio pega em flagrante — o que não é mais impossível mas ainda sim é sempre improvável).

Eis então a questão: é obvio que Dilma é uma parte monstruosa do problema mas seria a sua destituição o todo da solução? Ou melhor quanto do problema se solucionaria quando Dilma e Cunha cair (se caírem). Não estou portanto questionando que eles, e todos que se escondem atrás deles ou os sustentam devam cair; estou perguntando: e depois? Ou você acredita mesmo que eles descobriram o Brasil?

Essa gente representa a canalhice e estupidez das classes que os financiam e mantem. E não caem ou vão para cadeia porque cometem crimes mas porque não sabem cometer crimes “direito”. Portanto por motivos completamente distintos concordo com quem acha que é bom que o impeachment tenha vindo num momento em que seu resultado é completamente incerto e tão evidente que é só o resultado de negociatas políticas que fracassaram. Não porque vai salvar gente que deveria cair ou não, mas porque vai expor ainda mais o que há de podre e precisa ser conhecido.

Se o impeachment então já começa enfraquecido, carente de pressão popular este um problema do processo e não só dos agentes que o conduzem. Ele não é um processo de controle social dos poderes públicos, mas sim mais uma parte deste sistema do político. Definitivamente uma parte sensível e vulnerável do sistema, mas ainda sim um instrumento nas mãos dos seus elementos políticos e não um dispositivo de uma verdadeira democracia direta.

O impeachment como instrumento popular, muito mais do que o voto, é só mais uma lenda da democracia representativa que será desvelada em toda sua fragilidade. Até porque se temos instituições que só funcionam quando precisamos ir para as ruas ou paralisar a vida economia é porque estes institutos não respondem a sociedade, mas as demostrações de força — que nem sempre são propriamente populares.

Por isso garanto a vocês que o que menos importa após esses processo de impeachment será seu resultado. É sim o que os canalhas farão mais uma vez para defender esse crime legalizado como poder contra o povo que no final das contas exporão ainda mais o sistema que reproduz esses ratos de porão que vivem não só da falta de transparência, mas da difusão da desinformação e ignorância como se fosse informação. Teremos mais um pouco do que precisamos de verdade no Brasil, menos propaganda e mais choque de choque de realidade. E o povo brasileiro sairá assim fortalecido pela exposição de mais uma etapa deste jogo político sem nenhuma legitimidade.

Será odioso ter que suportar mais esse triste capitulo da vida politica brasileira em meio as crises econômicas e desastres ecológicos e humanitários que eles engendram, mas a emancipação dos direitos dos indivíduos passa pelo entendimento politicamente dos cidadão como sujeitos com direitos plenos, pessoas livres e adultas e não mais um povo amante de malandros e filhinhos de papai e mamão a espera dos seus salvadores.

É do sofrer a luta desses animais políticos pela sua sobrevivência que se revelará ainda mais a necessidade de independência do povo e a urgência da constituição da democracia direta para pessoas livres que não querem mais ser tutoradas por maníacos e bandidos. Em outras palavras quanto mais eles se matar pelo poder e para poder sobreviver, manter seus privilégios e mandatos, a revelia ou mesmo contra a a vontade soberana do povo brasileiro, mais eles despertam dialeticamente a compreensão da sua farsa e o entendimento que a verdadeira só pode ser direta.

Por favor, não me entendam mal, não estou defendendo que este seja um processo historicamente necessário. Não sou predeterminista nem materialista. Pela minha vontade, respeitando o consentimento alheio, não deveríamos jamais ter de passar por isso. Porque enquanto eles lutam pelo poder, pessoas morrem pela precarização dos direitos que eles descumprem. E se há aqueles que são capazes de despertar pela solidariedade com os que sofrem com a pobreza causada pelo poder politico, há outros que jamais conseguem entender que somos todos iguais em direitos enquanto não sentem na própria carne a mesma violação dos mais carentes e marginalizados.

Assim se o poder precisa dividir para conquistar, ele também engendra a involuntariamente a condição que mais hora menos unirá todos as pessoas e povos segregados pela consciência e solidariedade da sua condição de discriminados políticos e econômicos.

Claro que não falo dos fanáticos de esquerda e direita. Mas muitas pessoas solidárias se reconhecerão com iguais em direitos naturais roubados. E finalmente verão que o direito de autopreservação não é mesma coisa que ter de comer da mão dos outros; nem que direito de autodeterminação é a mesma coisa que ter que reconhecer a força donos e controladores de bens comuns.

Não são só as as escolas de São Paulo que não pertencem ao Alkmin, é a Petrobras que não pertencem ao PT, e o Rio Doce que não pertencem a Vale e suas sócias internacionais. São todos os bens comuns e serviços sociais que pertencem aos verdadeiros donos das riquezas do território brasileiro, o povo. O povo não como massa, mas como habitantes da terra, e protetores da sua natureza, tanto como meios vitais quanto ambientais, bens comuns necessários a todos não só como seres humanos mas como formas de vida capazes de coexistir em paz em nossa terra.
Não, isto é não uma defesa da nacionalização,da estatização, nem muito menos privatização. Não é uma defesa da concessão nem expropriação de propriedades particulares, é uma defesa da restituição de nossos direitos naturais como direitos de fato . É uma defesa da restituição dos nossos direitos de propriedade sobre o bem comum tanto como direitos de participação econômica como dividendos sociais quanto poder político de decisão direta sobre a coisa pública e social.

A Democracia Direta é o verdadeiro controle social.

E quanto mais eles chafurdam na lama para preservar seus chiqueiros, mais ansiamos por liberdade e mais próximo fica o dia da sua revolução e constituição. Quanto mais evidente fica a farsa da democracia representativa e o monopólio da violência, mais conscientes nos tornamos da necessidade da democracia direta e verdadeiros estados de paz como garantia de direitos e liberdades inalienáveis.

Se depender dos políticos iremos nos desiludir com o impeachment. Independente do seu fim como seu inicio, ele sempre terá o dessabor dos seus interesses criminosos. Porém dependendo da pressão da sociedade o impeachment será feito de acordo com a vontade popular, seja para que a presidente saia seja para que ela fique. A estratégia de macaco de zoológico do governo e oposição de jogar bosta em todo mundo- representada arquetipicamente por nossos estadistas-terroristas (Dilma e Cunha)- que como homens-bombas ameaçam explodir todo um pais refém se não fizermos o que eles querem- já impregnou e apodreceu toda a democracia representativa. E não deixará de sujar e feder o impeachment.

No fundo, talvez não estejamos percebendo ainda, mas por mais sofrida que seja essa crise ela pode ser de fato o caminho para a revolução pacífica e constitucional de um Brasil finalmente independente, mas se e somente se não desistirmos da democracia e não preservarmos falaciosamente canalhas que sugam seu sangue como se fossem essenciais para sua sobrevivência. Se manter esses políticos em seus cargos, manter tudo como está de fato é o caminho para salvar a corrupção sistematizada, estamos descobrindo a duras penas que precisamos expurgar TODOS esses parasitas políticos e celebrar uma novo contrato social o mais cedo possível para dar os primeiros passos rumo a instituição da liberdade e democracia que precisamos: uma verdadeira Democracia Direta no Brasil.

O fim da Dilma e seu mandato, não será tão importante quanto os meios para preservá-lo ou impedi-lo. Valor tão estranho a consciência politica, quanto vida inteligente em Marte, ou seja, importância tão difícil para eles entenderem que se suas vidas dependerem da interpretação destes sinais eles já estariam mortos. Por isso desta vez de qualquer forma quem irá sair ganhando é o povo, porque se a democracia representativa depende da verossimilhança e crença da opinião público nos atores, definitivamente não importa mais quem será impedido ou salvo pelo congresso e seus cunhas da vida politica brasileira. Essa telenovela acabou, só os mortos vivos e assistentes de palco que nos assombram ainda não se deram conta disso.

A democracia morreu. Longa vida a democracia… Direta.

Governe-se.

[i] Me recuso a usar o padrão Cunha para definir honestidade politica ou cidadã. Ele nem sequer teria todo esse poder se não fosse a incompetência e desastrosa articulação politica deste governo.