Todos são pacientes e terapeutas

Nós somos seres que possuem mentes, e estas mentes possuem um conteúdo.

Achamos que o conteúdo das nossas mentes segue em direção a algo que nos serve e serve ao “todo”, ao mundo, quando “estudamos” ou quando “refletimos”: Iniciamos com idéias ruins, mas, com muito estudo, dedicação, sofrimento, e um pouco de vivência, “experiência”, iremos resolver o quebra-cabeça do conteúdo das nossas memórias, e daí sim, vamos ao mundo “aplicar” o que “sabemos”.

Errado. As nossas mentes se curam e, simultaneamente, curam a outras mentes, quando colocamos elas em proximidade, quando elas se comunicam.

Gregory Bateson uma vez escreveu que o universo é uma tautologia que cura a si mesma.

E a sociedade humana é assim. Veja a mágica que ocorre quando abrimos nossas mentes e as deixamos próximas de outras mentes que também estão abertas: elas dão idéias umas as outras, elas causam “insights” umas as outras. Não há esforço. Não há estudo. Saltos de anos ocorrem nas interações certas; “saltos” que, em um ambiente terapêutico, levariam “anos” para o paciente alcançar, em diálogo consigo mesmo.

Cada mente poderia estudar uma fração do que “sabe”, e se conectar, se abrir, se entregar muito mais. O “saber” de livros e de reflexão solitária é importante, mas é apenas um dos modos de obter a completude do modelo mental. É como um computador não estar conectado a Internet: claro, alguém pode sentar nele e digitar os programas mais belos, mas há um jeito mais fácil e muito mais poderoso de evoluir o software, o conteúdo desta mente isolada…

O processo de cura, de completude de mentes conectadas é automático, pois a sanidade coletiva nada mais é do que a abertura para a cura e a conectividade — que nada mais é do que des-alienação.

Um cientista disse: “Acho que nossas mentes não são computadores isolados, mas provavelmente algo como a Internet.” Nossas mentes são feitas para entrarem em contato com outras mentes, trocarem idéias, formarem redes.

A opressão da nossa sociedade é uma consequência das mentes se fecharem e, mesmo quando jogam informação umas nas outras, esta informação é filtrada, bloqueada, virtualizada, objetificada, colocada em quarentena, pendurada na memória com uma moldura em volta… e não uma troca genuína, acessando e fornecendo acesso à sua rede central de associações. As mentes — ou melhor, os corações que as acompanham — estão fechados.

O “Estado”, a “Ordem”, as classes sociais, a exploração, são um sintoma de uma doença, de uma deprivação de contato entre as mentes. Nos fechamos com medo, e não permitimos que nossas mentes apliquem sua cura e se curem, simultaneamente. Não permitimos que o processo natural, a “tautologia”, que é a cura de uma mente cuja “doença” é apenas a distância entre ela e o seu alimento, a sua razão de ser, aconteça.

A armadilha dos intelectuais, dos pensantes, das pessoas que escrevem no Medium, é achar que tem algo a dizer, ou achar que tem algo a escutar, mas nunca ambos ao mesmo tempo. Podemos ser professores — sabendo tudo e não escutando — ou podemos ser alunos — nos reduzindo a orelhas que não tem nada a contribuir enquanto estão em “formação”.

Esta é a maior armadilha do “Estado”: não conceituar o professor-aluno em todo o ser humano. Desconectar as pessoas e nunca deixar pares de professores-alunos, ou humanos normais, testemunharem a mágica oriunda de mentes livres, naturais, em contato.

O mundo é absolutamente mágico, e apenas o medo, um condicionamento muito forte, muito complexo e muito abrangente, nos impede de provar dele. Uma Matrix que evolui a milênios, aprendendo como os humanos são e criando grades cada vez mais sofisticadas entre eles e as experiências mágicas. Um programa tão astuto que, mesmo quando os humanos provam destas experiências, ele “apaga” as suas mentes, racionaliza, as emoldura e as mata em conceitos seguros, como um Men in Black.

Somos partes de uma mente maior. Basta deixarmos as nossas mentes se relacionarem, se entregarem, e o mundo sem medo que não “sabemos” como alcançar se materializará, como mágica, da noite para o dia.

O obstáculo da civilização humana é puramente mental, e o divã está em nós. Todos somos pacientes e terapeutas, e a sessão de análise é todo o nosso dia-a-dia, quando não nos fechamos, não nos defendemos da eterna, tautológica, adiável porém inescapável cura.

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